Panquecas da felicidade

Gosto de fazer panquecas para os pequenos almoços preguiçosos do fim de semana. Cliché? A afirmação sim, mas as últimas panquecas que fiz, não o são! São deliciosas, com um fio grosso de agave por cima.

Aqui vai a receita:

Juntar 40 g de farinha de trigo,  30 g de farinha de trigo integral, 30 g de flocos de aveia, uma mão cheia de sementes de linhaça, 3 colheres de chá de canela, 2 colheres de chá de farinha de alfarroba e 3 colheres de chá de açúcar baunilhado. Misturar com 120 mL de leite.

Bater tudo com a vara de arames e deixar descansar 15 min. Deitar 1 colher de concha de massa numa frigideira anti aderente bem quente. Diminuir o calor e virar quando começar a fazer bolhas. Agora que escrevo, lembro-me que me esqueci de colocar gordura na massa ou na frigideira. Mas não fez falta. Rende 5 panquecas, apreciadas com um café aromatizado com canela.

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Arroz de cabidela – quase – vegetariano

Falou-me a minha mãe um dia que há quem faça arroz de cabidela sem sangue e usando farinha de alfarroba para conferir a típica cor deste prato. Gostei da ideia, resolvi experimentar tentando retratar o arroz de cabidela da minha avó e gostei do resultado. Pus a ferver caldo de frango que tinha feito com os ossos da ave e alguns bagos de pimenta, uns quantos cravinhos e umas folhas de louro. Alourei meia cebola em azeite e juntei arroz de bago redondo, envolvendo bem na cebola e no azeite. Entretanto, numa tacinha, juntei uma colher de sopa de farinha de alfarroba com 2 colheres de sopa de vinagre e 2 cravinhos. Voltei para o arroz e fui juntando o caldo fervente enquanto aquele o bebia. Cozinhei o arroz durante cerca de 1o minutos, juntei a mistura de alfarroba e vinagre e um molhinho de “cheiro verde” picado. Deixei fervilhar mais uns minutos e apaguei o lume. O arroz ficou com bastante caldo, tendo eu cozinhado este prato numa razão de 1 medida de arroz para 4 de caldo. Levei à mesa e sublinho que esta versão de cabidela – que não é vegetariana mas que bem poderia ser – não fica nada aquém da versão mais violenta do prato com a galinha esquartejada e seu sangue.

Na linha do tesouro

Linha de Tunes. Saio do comboio no cruzamento das linhas e poderia sair de olhos cegos e ouvidos surdos, saberia que estou no Reino do Algarve. Há um odor no ar que é só deste céu, deste Sol e desta gente, habitantes no Algarve e na minha alma. É um odor a alfarrobeiras, a figos a secar nas açoteias e a amêndoas no chão acabadas de varejar, escondidas nas cardas que já não picam as mãos sapientes e calejadas de quem trata a terra. É tudo isto misturado com a maresia que faz este ar tão fácil de respirar…E tudo isto trouxe eu, ontem, ao Reino da Prússia, ao cozinhar um pão doce que me levou à confluência das linhas do Algarve com a tríade Alfarroba-Figo-Amêndoa.

Numa manhã solarenga de Sábado, a minha filha arrastou-me da cama e eu, ao avistar um céu tão azul lá fora, arrastei-a à cozinha. De uma receita básica de pão, fizemos um pão doce de alfarroba, amêndoa e figos secos. Em 125 mL de água morna, desfiz 12 g de fermento fresco de padeiro e 2 colheres de sopa de mel. A mistura das farinhas ficou a cargo da minha filha: 50 g de farinha de alfarroba, 200 g de farinha de espelta, 125 g de farinha de trigo com uma colher de chá de sal. Juntei a água com o fermento às farinhas, com 100 g de amêndoa moída e cerca de 6 figos secos picados em bocadinhos pequenos. Raspei um limão e trouxe um aroma a canela a este pão. Mexemos até a massa se separar das bordas da taça. Cerca de uma hora depois, fizémos bolinhas da massa e pusémos no forno. O perfume deste Algarve espalhou-se pela casa e misturou-se com o Sol que inundou toda a sala e nos inundou a nós enquanto esperávamos que o pão saísse do forno. Comi os pãezinhos simples, comi-os com o doce de tomate da minha Avó, comi com queijo de cabra fresco e polvilhado com ervas provençais e voltei a comê-lo só, só por gulodice, só para o meu comboio parar mais uma vez naquela confluência de linhas a Sul.

E o meu comboio continua a sua viagem, por estradas de terra e alcatrão, por estradas de gelo e pó, de Sol e Lua, na senda de um Tesouro que eu sei onde está, mas não sei quando está. Avista-se no infinito das linhas de comboio que rasgam em latitude o meu Reino a Sul.  Mas o destino do meu comboio, agora, é a viagem com os meus dois Grandes Tesouros.

waffles com alfarroba e aveia

Já há algum tempo atrás, a minha filha teve uma virose, daquelas típicas da sua idade, que atacam agora e vão fortalecendo e enriquecendo o sistema imunitário. Fomos ao médico e o diagnóstico foi claro: o sr. vírus escolheu a zona intestinal para se instalar e tendo desregulado todo o sistema, as refeições da pequenota dos próximos dias tinham que ser bem planeadas. O médico avisou-nos, no seu alto e bom som bárbaro: kein leite e seus derivados,  frutas, legumes, açúcar ou gordura. kein! , reforçou, por trás do seu olhar azul, gélido e estilhaçante. Deti-me a pensar sobre os ingredientes que me sobravam. Arroz, batatas, massa. Carne, peixe, ovos. Pensei no que fazer e nada inspirante me ocorreu. Pensei em peixe cozido com batatas, que é uma das refeições de eleição da minha filha e que foi uma opção. Mas os próximos dias pediam alguma variedade na cozinha, apesar da limitação nos ingredientes. Abri um livro com receitas para crianças e lá havia também um capítulo com as melhores receitas para cada maleita. Fiz uma canja sem estória, mas à qual adicionei cominhos, que acalma as dores de estômago e ajuda a digestão. Quando li na receita a importância de juntar os cominhos, lembrei-me de uma receita que a minha amiga Pooja fez e que, por ser de digestão pesada, tinha também os famosos cominhos a ajudar no processo.

A outra receita permitida eram waffles (também com cominhos…). Quando estava a pôr os ingredientes na bancada, lembrei-me da minha Avó gabar as propriedades reguladoras da alfarroba, quando se trata de acalmar o trânsito intestinal. Então adaptei a receita assim: Medi 170 g de farinha de trigo, 30 g de farinha de alfarroba, 200 g de flocos de aveia, rendi-me às propriedades terapeuticas do cominho e juntei uns pózinhos e outros pózinhos de fermento. Juntei um ovo e fui juntando meio litro de água, até obter uma massa pastosa e grossa. Deixei a massa descansar 45 minutos e fiz 8 waffles desta massa. Quando a minha filha viu os waffles no prato, olhou para mim, apontou para os waffles e, peremptoriamente, disse: “nhão!”, não se demovendo com os meus sinceros “mmmm, que bom!…” ao provar estes waffles sem açúcar.

Alfarrobinhas

Ou: um caso de sucesso na cozinha com mãe e filha. Andava hoje a minha filha a mexer nos seus utensílios de cozinha, com um ar um pouco aborrecido, quando retirou umas forminhas para bolo e me disse: “bolhô!” perguntei-lhe se queria fazer um bolo, ao que assentiu, então lembrei-me que já andava há algum tempo a pensar adaptar esta receita das piadinhas da minha Avó, usando farinha de alfarroba. Rapidamente lhe pus o avental e dei-lhe uma taça, uma colher de sopa e o frasco da farinha. Disse-lhe para pôr a farinha na taça e contei nove colheres enquanto ela, compenetrada na sua função, retirava a farinha e a punha na taça. Juntei uma colher de sopa de farinha de alfarroba. Troquei o frasco da farinha pelo frasco do açúcar e contei as seis colheres que seguiram o mesmo caminho. Dei-lhe um pacotinho de 8 g de açúcar baunilhado e ela adicionou à mistura de secos. Parti um ovo e a minha filha começou a mexer a massa. Virei as costas para ir buscar o óleo e ouço “mmmmm… mmmmm…”. Voltei à minha posição original e vejo a pequerrucha sorridente e com as marcas da massa na sua boca. Pus óleo na sua colher de sopa por cinco vezes e mexemos as duas a massa. Juntei a raspa de um limão e sumo de meio, canela e uma mão cheia de avelã moída. No tabuleiro do forno, pus papel vegetal e, da massa,  comecei a fazer bolinhas do tamanho de uma noz, que achatei. A minha filha pegou nas bolinhas e começou a dividir a massa em bocadinhos e a espalhar pelo chão da cozinha. Aqui compreendi que, para esta estória ser um caso de sucesso entre mãe e filha na cozinha, tinha que resumir o processo o mais rápido possível. Dei-lhe um bocadinho da massa para ela brincar e rapidamente fiz o resto das bolinhas. Pus no forno a 150 graus. Aos 10 minutos, fui verificar e ainda estavam muito moles. Entre os 10 e os 15, ficaram sequinhas por fora e húmidas por dentro. Quando arrefeceram, partilhámos uma alfarrobinha e compreendi o “mmmm… ” da minha filha ao provar a massa.

Cheesecake aldrabado algarvio

O cheesecake de figo da Margarida já me tinha piscado o olho. Quando a Laranjinha o repetiu, não resisti. Tive que fazê-lo, e já! Fui verificar a lista de ingredientes. Obviamente, dos bolinhos secos de alfarroba da Quinta das Atalaias já não havia nem vestígio. E ao abrir o frigorífico, reparei que não tinha queijo creme. Tomei o obstáculo como desafio e pensei que, de todos os modos, não consigo seguir uma receita tintin por tintin. Por isso, fui ver o que havia no armário: tinha umas bolachas digestivas a pedirem para ser recicladas, uma noz, uma amêndoa e uma avelã; tinha mascarpone e crème fraîsche. Lancei mãos à obra. Afinal,  improvisar uma sobremesa é sempre muito mais estimulante do que seguir uma receita.

Pus no copo da misturadora, 100 gr de bolachas digestiva, uma colher de sopa de farinha de alfarroba e uma colher de sopa de manteiga. Juntei a tal avelã, a amêndoa depelada e a noz solitária. Blitz, até a mistura ficar coesa e homogénea, separando-se das bordas do copo. Dispus a massa numa forma de 18 cm, pressionando com os dedos e levei ao frigorífico. Depois, dirigi-me à batedeira e pedi à minha filha para pôr 5 colheres de sopa de açúcar. Juntei 250gr de mascarpone, 2 colheres de sopa de crème fraîsche, 2 colheres de chá de canela e uma colher de sopa de doce de abóbora e alfarroba, também da Quinta das Atalaias. A máquina bateu a massa durante cerca de 5 minutos. Verifiquei que ficou bem batida e provei. Mmmm, que combinação perfeita, de levar aos céus! A minha filha, ao observar-me, disse que também queria. Dei-lhe um bocadinho e ela imediatamente pediu uma nova dose. Eu repeti a dose e ela repetiu o pedido. Voltei a deixá-lha tirar a massa com o seu dedinho e o ciclo repetir-se-ia até ficar com a tigela lavadinha se eu não interrompesse o processo. Pus a massa por cima da base de bolacha e alfarroba, endireitei com o salazar e barrei por cima mais um bocadinho do doce de abóbora e alfarroba. Voltei a por no frigorífico e dei à minha filha a tigela para ela lamber, lembrando-me dos meus tempos de infância, quando a minha avó e a minha mãe nos davam as tigelas de massa dos bolos depois destas passarem pelo salazar. Ela olhou para mim, olha para a tigela, lançou-me um olhar de quem diz: “pensas que estás a enganar-me?!?!?!”, ignorou a tigela e mostrou-me o poder das suas cordas vocais. Fomos jantar uma salada de batatas, em estilo fusion kitchen, com inspirações luso-prussianas. Depois do jantar, provámos o cheesecake. Ao primeiro garfo, tive a mesma reacção que tive ao provar o creme durante a sua confecção, e o meu marido disse-me: “espera, não penses que me vais influenciar o veridicto com a tua opinião parcial.” Mas, ao provar, ele teve a exactamente a mesma reacção, acrescentando: “in der Tat!…”