Sobre sofia

Tenho especial predileccao por livros de cozinha, blogs de cozinha, receitas, apesar de nao por muito em pratica. Este meu blog nao e de cozinha, e generalista, mas temo que acabe so por falar do que comemos ao jantar! Por favor leia os acentos onde eu nao os coloquei e, last but not least, add some grains of salt to each post. Quem esta a procura de algo profundo, devera mudar para o outro lado da encruzilhada. Os textos sao, naturalmente, protegidos pelos direitos de autor. Obviamente, podem linkar o que quiserem para as vossas web pages.

Muffins de Chocolate 2.0

Quando comecei a escrever o reino da Prússia, havia uma pequena ajudante na nossa cozinha que garantia o estado de sítio na cozinha quando um bolo encontrava o seu caminho para o forno. Hoje, sete anos passados, temos mais imprescindíveis “ajudantes” na nossa cozinha, o estado de sítio é o seu estado estacionário e o reino da Prússia está no extremo geográfico oposto. 

Contudo, as questões básicas da nossa cozinha continuam as mesmas. Uma das mais importantes é: qual é a receita de Muffins de chocolate perfeitos? Hoje demos um passo em frente na senda da resposta a esta questão. São dois ovos batidos com 80 gr de açúcar, 75 gr de manteiga derretidas em 150 gr de chocolate a 60%, 200 gr de farinha com uma colher de chá de fermento e 2 colheres de sopa de cacau em pó. E misturam-se os secos com os molhados com a ajuda de 1,5 dL de leite. Vinte minutos de forno quente chegaram para fazer magia. E estes muffins de chocolate profundo, fecham com leveza uma tarde de domingo de chuva. 

Aqui há carne (II)

Esta é outra receita favorita das minhas pequenotas. Aparentemente, são várias as receitas a ocupar o pódio e a nova vencedora é “schpáguét com ursinhos de gomas” que eu, obviamente, ignoro. Mas obviamente não é dessa que vou falar. Aqui em casa, esta receita é conhecida como a sopa da Avó, mas para o caro leitor é canja. A canja. É das tais receitas que requer esforço mínimo (não tendo que matar o frango), mas tempo de preparação (mesmo não matando o frango). Ponho um frango dentro da panela de pressão, encho com água até dois terços, e tempero com um ramo de salsa, sal, pimenta, uma cebola picada, meia folha de louro e uma cenoura inteira mas descascada. Espero até a panela apitar e, depois, ponho o fogão no mínimo. Deixo cozinhar durante uma hora no total. Depois, desfaço o frango, tento cortar em pedacinhos a cenoura hiper cozida, que já serviu o seu papel – dar mais gosto ao caldo – mas que ponho na mesa para quem quiser juntar à canja. Volta o caldo à fervura, junto o frango desfeito e massinhas. É daquelas refeições que, salpicada com limão e hortelã, é só conforto e saudade.

Cérebro com molho de ranhoca (e sangue!)

Post indicado apenas a menores de 10 anos. Pode ferir susceptibilidades. Continue a ler por sua conta e risco!

Mas não se assuste, caro leitor. É apenas uma receita. Especificamente, “Cérebro com molho de ranhoca, coágulos de sangue e batatinhas.” Este é o novo prato favorito das minhas princesas e receita infalível quando queremos que elas comam tudo sem alaridos. É que agora já nem o esparguete à bolonhesa faz milagres, esse santo tornou-se da casa e a pequenota quando diz que quer schpáguét bomomeza, acrescenta: “mas sem molho”.

Há uns tempos cheguei a casa já depois do jantar e, quando perguntei o que havia para comer, a minha filha mais velha disse: cérebro com molho de ranhoca. Percebi o primeiro truque do meu marido à partida, mas fiquei intrigada com o molho de ranhoca. Interiormente, pedi aos deuses para não ser nada repugnante, mas a verdade é que depois de um dia de trabalho, a fome e o cansaço falam mais alto e mesmo a ideia de ter um molho esverdeado por cima de um volume de massa cinzenta não me levou o apetite.

Até porque esta receita é muito apetitosa e agora desvendo a primeira parte do truque que se calhar alguns dos leitores experientes (ou com crianças em casa já conhecem). O cérebro é couve de flor cozida em água e sal. Pode ser inteira ou em floretes, conforme quiser dar um maior impacto visual ou não. E para fazer o molho de ranhoca, não precisa “sair da caixa”. Todos os ingredientes estão na cozinha mais tradicional. Este molho é um simples molho bechamel com uma colher de sopa de mostarda a conferir a cor que dá nome ao molho.

Assim se faz uma refeição rápida e atraente para crianças e que cabe perfeitamente na “meatless monday” que se aproxima. Mas eu apresento agora uma variante com carne, ou melhor, com coágulos de sangue, que são simplesmente cubinhos de bacon fritos e misturados com o molho bechamel.

É uma receita vencedora, que as minhas princesas comem com prazer E se há prazer para uma mãe, esse é o prazer de ver o seu filho comer assim.

Prólogo

{Antes de entrar em palco, detenho-me. E penso como salto o hiato entre hoje e a última publicação. Assumo mea culpa e invento mil e um argumentos, dizendo que hibernei no inverno. Ou uso psicologia invertida e viro-me para os meus queridos leitores, perguntando: Então, onde é que vocês andam?!?!!?. Mas não me revejo e decido olhar em frente. O meu palco é o meu jardim e o resto é “neve de ontem”.}

Acto I

No Jardim. No ano passado nasceu algo com a folha parecida ao girassol. A esperança de ver uma flor girar para o sol foi adiada até cair na sombra da memória.

Acto II

No Jardim. A preparar a terra para novas plantações, o meu marido diz-me: temos a terra cheia da topinambur! E eu replico que eram os girassóis do ano passado. Nascem como loucos, diz-me ele. E eu sorrio.

Acto III

No Jardim. Os vizinhos do lado aparecem. Há uns anos, eu e o outro vizinho, fizemos uma limpeza geral a esses tubérculos, disse ele. Topinambur? são bons! Digo eu. São uma praga, diz ele. São bons, digo eu. E ele diz, pensávamos ter limpo tudo, mas afinal…, diz ele. São bons, digo eu, topinambur. Afinal não, são uma peste!, diz ele. Topinambur é bom, digo eu, e ele diz, É que nem sequer no lixo composto se pode pôr, até aí ele nasce! Entretanto, volta a vizinha e oferece-me um raminho de rúcula. E eu digo-lhe a ele, depois de agradecer (a ela). São bons. Os dois vizinhos voltam para o seu jardim.

Acto IV

Na cozinha. Os tobinambur estão na bancada. Descasco, corto às fatias. Salteio em azeite e sal. E alho. Deixo saltear mais uns dez minutos, sempre atenta à frigideira e até o dourado aparecer. Junto a rúcula, tapo e deixo suar. O meu marido diz que cheira bem a alho queimadinho.

Acto V

Na mesa. O meu marido diz: cheira bem. E continua. Tem bom aspecto. O trio fecha-se, dizendo, E sabe bem. E sabe mesmo. Tem um sabor quase doce, lembrei-me de tapioca frita.

Acto VI

Na lounge do meu Jardim, vou buscar o meu livro, a minha bebida, sento-me a apreciar o sol e o crr crr da brisa nas flores da cerejeira e procuro topinambur no índice remissivo. É a batata dos diabéticos.

Epílogo

As minhas princesas disseram em uníssono, queremos esparguete com ranhoca, queremos esparguete com molho de ranhoca!!!

E agora vou inspirar-me aqui em alcachofra de Jerusalém e pacientemente esperarei pelo próximo Outono.

A primavera vem duas vezes

Preparava-me, no jardim, para arrancar os pés secos das favas, quando reparo que por baixo nasce um novo pé. Deixei-os florir e apanhei esta segunda dose inesperada e menor de favas. Como um arco-íris e sua réplica num dia de chuva.
Com vontade de fazer algo mais fresco que a receita clássica, peguei na salada de grão escondida neste post e adaptei-a às favas. Cozi-as em vapor na panela de pressão e temperei-as com cebola roxa picadinha, coentros, azeite, vinagre, flor de sal e pimenta. E foi um ver se t´avias.

Conversas de vizinhas

Quero escrever no blog e dou por mim a repetir-me sobre os prazeres do meu éden. Por isso, poupo os meus caros leitores aos meus devaneios e vou directa ao assunto:
– E então, já tens courgettes?
– Ainda são pequenas.
– Olha, eu já não sei o que hei-de fazer às minhas. Toma lá umas quantas.
– Pois, temos que comer o que há. Quando a terra te dá courgettes…
– … tu fazes???
– Olha, faço “ketschup”!
– Ahn? Quero a receita.

Esta foi a surpresa de ontem, e não perdi tempo. Descasquei uma courgette gigante, retirei o meio, cujas sementes já estão demasiado duras para ignorar, seleccionei 750 gr e pus mão à obra. Gostei – adorei – o resultado e por isso partilho aqui convosco.
Refoguei a courgette com uma cebola em 4 colheres de sopa de azeite. Entretanto, pesei 100 gr de açúcar e medi 100 mL de vinagre de vinho. Limpei dois talos de lemongrass e cortei-os em quartos. Piquei 50 gr. de gengibre fresco e misturei tudo com mais duas colheres de chá de caril. Foi tudo para a panela de pressão. Enquanto ela não apitava, limpei dois ramos de manjericão e cortei-os aos pedacinhos. Peguei em 3 chillis, um de cada cor, e cortei-os muito fininho. Quando apitou, desliguei, abri a panela e retirei os talos de lemongrass. Juntei o manjericão e triturei tudo com a varinha mágica. Achei demasiado chilli, portanto fiquei-me pela metade. Juntei à massa amarela e deixei dar mais uma fervidela, mexendo sempre. I can´t get enough of it.

curgete – meatless monday

O que fazer com 3 curgetes de 2 kilos cada? Foi o que trouxe hoje do jardim, mais uma barrigada de cerejas.

Dei uma à minha vizinha da horta, ela deu-me ideias de como “esconder” a curgete das crianças e disse: “temos que comer o que há!”. É daquelas verdades. Mas eu hoje não quis esconder a nossa primeira curgete. Virei-lhe todos os holofotes, exacerbando a sua simplicidade. Cortei-a em fatias grossas e fritei-as em azeite. Depois, temperei com sumo de limão e flor de sal.

Na mesa: A minha filha mais velha diz que não quer com voz enjoada e a mais nova imita a irmã sem perceber sequer o que está a dizer. A refeição chega ao fim e apesar dos exagerados “mmm, que bom” que eu insisti em dizer, nada as demove. No fim, a minha filha quer sobremesa. “Sem teres acabado de comer tudo?!?!”. “Prova só, sabe a bife.”, “e podes por sal e limão”. Assentiu, pedindo a fatia mais pequena. Flor de sal. Limão. Comeu e eu perguntei: “Então, sabe a bife grelhado ou não sabe??”. Ela confirmou e pediu outra fatia, a maior. A minha filha mais nova disse: “I au, a maió!!”, e dei-lhe a outra fatia.  Mas, apesar da vontade de imitar a irmã mais velha, a fatia de curgete a saber a bife não entrou no portão, nem com a irmã a dizer “olha o aviãozinho”. 

Favas com chouriço

1. Favas

A Natureza é mãe. Hoje, ao regressarmos ao jardim, fomos recebidos de braços abertos. Favas, curgetes gigantes, mais groselhas, mais cerejas, mais framboesas, outros frutos silvestres que só aqui conheci. 

É das favas que falo hoje, e conto o conto desde o início. Ao planearmos o que semear, o meu marido perguntou-me: “e favas?”, “favas, achas que crescem aqui? Nunca as vi sequer à venda!”. Estava céptica. Ele tratou de investigar e encomendou as sementes. Acho que ele traz também consigo a saudade. Semeou-as em Abril e hoje foi o dia de colher os frutos. Apanhei um balde delas. Fui muita vez à fava com a minha Avó. Trazíamos sempre um balde para casa, que descascávamos no quintal e dava uma panelada de favas. Estas, descasquei-as com a minha filha mais nova, que me dizia: “Sou fóte!!” e abria a vagem, partindo-a entre as suas mãozinhas. E a cada vagem aberta, um ah! de surpresa pelas sementes que aí encontrava. “Um doix tex catu xinco”. E perguntava insistentemente se podia provar. “sim, prova, mas olha que cruas não prestam”. Uma dentada, uma careta. 

Cheguei a casa e dirigi-me ao fogão com o alguidar de favas e um ramo de cebolinho. Lavei-as, seleccionei duas mãos cheias das maiores a pensar já nas sementeiras do próximo ano e pus o resto na panela de pressão, que ficou a dois terços cheia. Reguei com um copo de água e um fio de azeite e temperei com sal, um dente de alho, o ramo de cebolinho e outro de salsa. Deixei dar um apito e desliguei.

2.  Chouriço

O chouriço deu-me a minha mãe e eu guardei religiosamente para a ocasião. Bom quase, que fui-lhe dando umas falhinhas com a minha filha mais velha. Descasquei-o, parti-o em pedaços e fritei-o. Reguei as favas com o chouriço. Isto é saudade. Sabe bem fazer aqui o que fazia em Portugal. Sabe melhor ainda comer o que semeámos. E a frescura é … sem palavras. Mas, ao provar, não senti aquele sabor bom das favas da minha Avó. Explico-o por ter estado a cozinhar e o meu olfacto se ter adaptado. Depois lembrei-me. “Ah, o açúcar!”. A minha Avó põe “açúcar” nas favas. 

Mais estórias do meu jardim

Queria começar por falar sobre o nosso jardim, mas não encontro palavras. Talvez se contextualizar o caro leitor, a inspiração flua. Estão 30 graus à noite, troveja e, na televisão, passa um programa sobre LSD. Descrevem experiências de alucinações. E ao pensar como hei-de descrever o que se está a passar no jardim, no auge da primavera, não posso deixar de estabelecer um paralelo entre as alucinações de formas e cores que descrevem na TV e a explosão de cores, cheiros, sabores e formas confinados naquele quintal de poucos metros quadrados. Se no jardim tenho cogumelos psicadélicos? Não. E se o jardim é o meu LSD? Também não, claro que não. Mas se alguém anda a pensar ou a dar em drogas – legais ou ilegais –  só tenho isto a dizer:  – deixa-te de tretas e dedica-te à jardinagem. É que para além da parte das alucinações, há também o efeito terapêutico de “arrancar o mal pela raíz“, quando  se trata das ervas daninhas e a recompensa que é, literalmente, “colher os frutos do teu trabalho“. Tenho andado a trazer morangos e ruibarbo, ruibarbo e morangos. Então, fiz compota de ruibarbo e morango, receita da minha sogra. Um terço de ruibarbo, dois terços de morango e um terço do peso em açúcar gelificante são os ingredientes. Lava-se a fruta, tiram-se os pés aos morangos e corta-se o ruibarbo em pequenos troços. Misturam-se os ingredientes, e deixa-se a fruta a macerar no açúcar durante cerca de meia hora ou até criar líquido. Depois, leva-se  a lume médio, mexendo sempre até levantar fervura. Depois de levantar fervura, mexer durante mais um minuto, conforme as instruções do pacote de açúcar, e apagar o lume. Distribuir por frascos esterilizados com tampa de enroscar, fechá-los e dar-lhes a volta à cabeça para criar vácuo. Também fiz compota de morango com tomilho – same procedure as before. E agora tenho groselhas brilhantes que parecem rubis – não, não estou a alucinar – e ando a pensar o que hei-de fazer. Quem tem ideias?

 

A primavera é um fogo de artifício

1. Hoje é meatless monday e como tal trago uma receita vegetariana, com espargos,  que está no tempo deles. É tão simples que se descreve em três passos: Faça um molho de tomate em azeite com salsa e cebola; dê uma fervura aos espargos até atingirem o ponto; numa travessa, distribua o molho de tomate pelos espargos. Para concluir, diz a minha mãe que em tempo de tomate não há más cozinheiras, e eu acrescento, em tempo de espargos. 

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2. Para os meus queridos leitores, não tenho segredos nestas questões e confesso: hoje a minha monday não foi nada meatless. Quando cheguei a casa com as crianças, estava já o meu marido na cozinha e disse-me: hoje fazemos bifanas, ok? Concordei, claro, que a minha carne é fraca, um jantar de bifanas sabe bem e traz-me boas memórias de Portugal. Inventei uma marinada com vinagre, alho, sal, pimenta e pimentão doce, mas a receita precisa de afinar. Entalei a carne no papo-seco e gostaram os adultos e as crianças.

3. O nosso jardim floresce. Parece um fogo de artificio de cores, cheiros… Hoje, explodem as tulipas, amanhã as rosas, e depois outras flores de que nem sei o nome, mas que me agrado por não ter confundido com ervas daninhas antes do florescer. As favas estão também em flor, as cenouras já dão sinal de vida (mas quem sabe o que se passa por baixo da terra), as cerejas estão verdes e as maçãs já despontaram. Mas hoje foi o dia de apanhar os espinafres, antes que espigassem. Foram duas linhas de cerca de 3 metros cada, que deram em folhas de espinafre cerca de 1,5 kg. Em casa, preparei-os para congelar: dei uma fervura em vapor para os murchar e congelar. Foram quatro panelas de pressão de 4,5 L em serie. 150 mL de água, encher com espinafre até acima, deixar ferver, abrir a panela, tirar os espinafres e coar. Repetir a sequência. No fim, os espinafres reduziram-se a um terço do seu  tamanho mas perderam apenas 10% do seu peso, que foram os 300 mL de caldo que daí resultou e aos quais se deverá retirar os 150 mL de água que juntei inicialmente. Congelei metade e com os outros 675 gr farei amanhã um esparregado, fritando dois ou três dentes de alho em azeite, depois vem o espinafre e um gole de leite. Deixo fervilhar e tempero com sal, pimenta e noz moscada…