Arroz doce

No domingo passado acordei com um arrebatador desejo a arroz doce, sendo ele e não a minha madrugadora filha que me arrancou dos lençois. Eu confesso que nem sou grande fã de arroz doce, mas vi-me cercada por esta vontade de arroz doce e não tive outro remédio se não dirigir-me à cozinha e prepará-lo para o pequeno almoço. Sendo ainda muito cedo para telefonar à minha mãe ou à minha avó e pedir a receita, decidi consultar a minha outra bíblia culinária. Fui ao Pantagruel e escolhi a receita mais curta, em ingredientes e metodologia. Àquela hora da manhã só algo simples poderia resultar. E segui a receita à letra. Fervi 150 g arroz gomoso (usei risotto) em 6 dL de água até a água evaporar e mexendo de vez em quando. Fervi 4 dL de leite, que fui juntando aos poucos ao arroz, conforme este ia absorvendo o leite. Entretanto, bati 3 gemas com 115 g de açúcar (que se revelou demais) e, quando o arroz ficou pronto, retirei do lume e juntei-lhe os ovos , misturando bem para não talhar. Distribuí por taças e a minha filha, já desperta, artisticamente e como só ela sabe fazer, polvilhou a canela pelo arroz, contemplando também a mesa e o chão. Quando ouvi os seus “mmm, mmm, que bom!”, pensei que tinha acertado na receita, mas afinal as manifestações de agrado dirigiam-se à canela, que ela ia tirando do frasco com o seu dedinho. Afinal, a minha filha provou o arroz doce e rejeitou-o e o meu marido nem sequer o provou, talvez por pensar ser parecido ao arroz doce bárbaro, a que eles chamam arroz de leite e servem com compotas. Apreciei eu este belo arroz, a sós com o meu desejo, apesar de para a próxima fazer algumas alterações. Corto no açúcar e fervo uma casca de limão e umas folhas de bela luísa no leite. Não sei como me fui esquecer da casca de limão, ingrediente essencial no arroz doce da minha família.

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Massacre na neve

Hoje, dia de Reis, a romã é Rainha. Sempre tive um fascínio por este fruto, com sua coroa no topo e recheado de rubis de carne saborosa, sumarenta. E no dia de Reis, faço questão de comer uma romã, conforme a tradição que se celebra na casa dos meus avós. Retirei uma cinta da pele da romã a toda a sua volta. Comecei a cortar em volta da coroa. Puxei-a, tentado arrastar três bagos, que simbolizam a saúde, a paz e o amor. Veio apenas um agarrado, então tirei eu dois bagos e coloquei-os na coroa, pensando para com o destino que, se ele não nos bafeja com a sorte, somos nós a bafejar a própria sorte no nosso destino. Voltei a cortar uma cinta a toda a volta da romã, mas desfazada em 90 graus da que já tinha feito. Abri a romã, concentrada no próximo passo da tradição, que dita não se poder deixar cair nenhum bago para o chão para garantir que o vil metal chegue a casa durante todo o ano. Dividi em cachos, com alguma ginástica apanhando com a palma da mão, os bagos a quererem soltar-se. Até agora, tudo bem. Dei um cachinho ao meu marido e outro à minha filha e disse-lhe que comesse a romã, fruto que ela adora, sem deixar cair nenhum bago. Vi-a começar a retirar com cuidado os baguinhos para o prato e concentrei-me no meu cacho, tentando apanhar os bagos que teimavam em saltar, como se tivessem um trampolim nos pés. Quando voltei a olhar para a minha filha, a maior parte dos bagos estavam no seu prato (é melhor não referir os outros…)  e ela estava a regar a romã com o seu sumo de maçã e a explicar-me algo numa linguagem que ainda não domino. Talvez me explicasse a supremacia da combinação romã-maçã. Ou então que as tradições… enfim, talvez não precisem ser sempre seguidas.

E para quem não quiser seguir esta tradição, deixo uma sobremesa com o fruto Rainha para o dia de Reis. O nome é de uma sobremesa da Nigella e esta receita é adaptação minha de incontáveis receitas que li e fiz de cheesecake. Triturei umas bolachinhas de Natal já duras com um nico de manteiga, até ficar uma mistura coesa e distribui esta massa pela base de uma forma de 18 cm. Por cima desta base, pus um creme de chocolate, que fiz derretendo alguns quadradinhos de chocolate em leite e juntando algum açúcar e cacau. Sobre este creme, não tenho quantidades precisas. Se o caro leitor não quiser seguir o seu instinto, pode usar uma qualquer receita de ganache de chocolate, ou simplesmente suprimir este passo. Depois, bati 250 g de mascarpone com o sumo e polpa de uma laranja e 4 colheres de sopa de açúcar, usando a máquina com o gancho para bater claras em castelo. Por fim, dispus este creme em cima da base de bolacha e espalhei baguinhos de romã por cima do creme de mascarpone. Para simular o massacre, pressionei uns quantos baguinhos entre o polegar e o indicador, deixando o sumo púrpura macular este creme branco, a evocar a neve lá fora.

E agora vou para a cozinha fazer estas bolachinhas-estrela da Pipoka, para que os Reis Magos saibam que astro devem seguir!

o processo no castelo

A burocracia prussiana é, no mínimo, kafkiana. Sempre que com ela me confronto, não posso deixar de pensar em Kafka e em como fui injusta em julgar a sua condição mental, não conhecendo os meandros desta complicada senhora do Leste. Todo o processo parece ter saído do processo de Kafka e, quando se pensa que já se preencheram todos os formulários e todos os campos, aparece mais um que não existia. À entrada do “castelo”  onde o processo lentamente se digere, o aviso é claro: depois de aqui entrar, para sair é preciso contar com a ajuda de uma entidade mística. Portas escondem escadas, existem meios andares, que ficam algures entre o primeiro e o segundo andar e – a cereja em cima deste bolo que evito sempre trincar – os gabinetes muitas vezes não estão ordenados sequencialmente. Quem vai a procura da porta 123, encontra a porta 122, talvez encontre a 124, mas no lugar da 123 há… uma parede! Quando finalmente se encontra o gabinete e se acerta na irregular hora de atendimento, vem a grande confrontação com o burocrata propriamente dito e, tal como Kafka nao queria sair do seu quarto, parece que o burocrata não quer sair do seu escritorio desde 1989. E este sim, precisaria de uma metamorfose. Óculos fundos e embaciados, roupas sépia, papéis do chão ao tecto compõem o burocrata e seu escritório.

Num dia cinzento e de chuva miudinha, vi-me confrontada com a impossibilidade de fugir a um processo burocrata. Depois de três horas a percorrer corredores infinitos e preencher formulários intermináveis, cheguei a casa a precisar de algo que me confortasse o corpo e a alma, algo facilmente digerível. Trouxe o Sol a casa com uma sobremesa fresca de laranja e bela luísa, adaptação de uma receita do pingo doce. Levei 2.5 dL de leite a ferver com uma casca de laranja e um ramo de bela luísa. Deitei num pequeno tacho, 50 g de açúcar, 30 g de maisena e 70 g de amêndoa moída. Misturei e juntei 3 gemas, continuando a mexer. Retirei a casca da laranja e o ramo de bela luísa do leite fervido e deitei lentamente em fio sobre a mistura anterior, sem parar de mexer. Levei o pequeno tacho a lume brando e mexi continuamente até engrossar. Retirei do lume quando atingiu a consistência de creme. Entretanto, bati as 3 claras em castelo com mais 50 g de açúcar (que adicionei quando as claras ficaram brancas) e espremi uma laranja. Juntei o sumo ao creme, mexi e envolvi esta mistura nas claras. Pus numa taça de servir, polvilhei com mais amêndoa moída e levei ao frio. Ao provar, não consegui conter-me na primeira tacinha e repeti, esquecendo o frio lá fora e o pó de lá dentro da casa do burocrata.


ps: a receita original não inclui bela luísa, mas alegro’me em ter arriscado, pois tornou-se um elemento essencial pela frescura que confere.

Caíu que nem ginjas

A noite caíu, a pequenina adormeceu. E eu teria caído no sofá sem me querer mexer mais, se  três ingredientes não estivessem em órbita no meu pensamento: mascarpone, vinho do porto e chocolate. Caí na cozinha. Pus numa taça 200 g de mascarpone, 1 c.s. de açúcar baunilhado e 2 c.s. de açúcar. Bati com a vara de arames. Num cálice, pus 2 colheres de chá de chocolate e enchi com vinho do Porto. Misturei, mexi bem e salpiquei com amêndoas picadas. Provei e levitei.