Aqui há peixe

Aqui na Prússia também há bacalhau. Compro-o fresco congelado. Se os prussianos pudessem caracterizar esta receita, chamar-lhe-iam “peixe à mediterrâneo”. Para mim, os pratos mediterrâneos são diferentes e este é apenas peixe com legumes. Refoguei curgete em azeite, com cebola e pimentos vermelhos numa frigideira. Noutra, fritei a posta congelada do bacalhau – este foi um prato espontâneo, sem tempo de descongelar o peixe – em azeite, até ficar dourado por fora e suave por dentro. Acompanhei com pão numa refeição solitária que me fez indagar o porquê de peixe+curgete=mediterrâneo na linguagem prussiana. Fiquei sem resposta mas apreciei o prato que, no fundo, acaba sempre por me levar a Portugal.

Anúncios

Fui ali à Tailândia e voltei

Num dos posts do recipe box, disseram a Filipa e a Pipoka que costumavam viajar muito frequentemente. Pois desta vez fui eu. E fui à Tailandia comer peixe em molho de coco. Piquei uma cebola que aqueci em óleo e juntei um filete de bacalhau fresco desfeito. Misturei bem, juntei duas fatias de pimento vermelho picado e um cebolo as fatias. Mexi bem e deixei cozinhar durante uns minutos. Fui lentamente juntando meia lata de leite de coco e misturando bem com os restantes ingredientes. À falta de coentros ou erva principe, fiz um ramo exótico – para a Prússia – de “cheiro verde” com oregãos frescos, hortelã e manjericão. Piquei bem, desliguei o lume e misturei tudo. A acompanhar, servi arroz basmati com arroz selvagem.  De barriga satisfeita, regressei a casa sem sair da minha cozinha. Resta agora saber  a que saberia este prato na Tailândia! 🙂

O peixe da prússia pouco presta para primoroso palato português

Comprar peixe aqui na Prússia é sempre um problema. Quando me aproximo das raras bancas de peixe, lembro-me sempre das lotas do Algarve e só me apetece é fugir dali. Das últimas vezes que comprei peixe, escolhi bacalhau fresco. Da primeira vez comprei filetes, que fiz no forno em cama de legumes, temperado com limão e pimenta e no fim ralei parmesão e levei mais uns minutos ao forno para tostar. Teria ficado muito bom se o peixe não soubesse a re-descongelado… Da segunda vez, comprei meio bacalhau, mas desta vez perguntei se era fresco, se já tinha sido congelado, de onde vinha e quando chegou. As respostas da senhora atrás do balcão deixaram-me uma réstia de esperança. Pensei em fazê-lo simplesmente cozido com legumes e temperado com azeite e limão. Pus o peixe a cozer e comecei a duvidar das afirmações da senhora sobre a frescura do peixe… então decidi fazer duas saladas: uma, com as batatas e cenouras cozidas, a que juntei um pepino, temperei com muitos oregãos, azeite e vinagre. Outra, com o peixe desfeito em lascas, que temperei com muito limão, um alho bem picado, poejos frescos, azeite e pimenta. A primeira salada é uma variação de uma salada muito comum no Algarve (com batatas, tomate, cebola, oregãos, azeite e vinagre), que eu simplesmente adoro, especialmente quando o tempo começa a aquecer. E a salada de peixe ficou deliciosa. A repetir, algures à beira mar. Porque descobri que peixe na prússia é douradinhos.

Os meus vizinhos

Há um vizinho de um andar em cima, cinzento, que arrasta as peúgas, enfiadas em chinelos de piscina, para o meio da neve, com um cigarro eterno no canto da boca caída, escondida por um bigode grisalho e rabuja sílabas indecifráveis se alguém lhe diz “bom dia”.

Há uma vizinha jovem  e sorridente, de cabelos escuros muito encaracolados, que estaciona a bicicleta à porta e às vezes me bate à porta e, simpática, me pergunta se eu recebi a sua encomenda da amazon.

Há uma outra vizinha que carrega o seu filho e carrinho para o primeiro andar de sobrolho carregado e parece não conhecer o sorriso.

Há um outro vizinho, velhote, sempre sorridente, que nos surpreendeu com um ramo de flores quando a minha filha nasceu e nos oferece chocolates no natal. E que conta, de brilhozinho nos olhos, as estórias da sua netinha.

E há os meus vizinhos do lado,  turcos. Não sei quantos são. Quando toco à campainha deles, há sempre uma criança que abre a porta. E começam a aparecer por trás, mais e mais e mais. Até que a aparece a mãe de todos eles, uma turca magrinha, na zona dos trinta, de lenço na cabeça e sorriso amarelo do tabaco. Mas no outro dia foi ela que me tocou à porta. Vinha com um prato de comida quentinha, deliciosa. De uma vez, trouxe umas mini-pizas, deliciosas. Outra vez, ao chegar do trabalho, passei pela sua porta e comentei com a minha filha – em português – como cheirava bem a comida da vizinha. E nesse dia  tocou ela à minha porta, à hora de jantar, tendo na sua mão um prato de arroz de carne e amêndoas que me fez levitar. E eu andei a pensar, durante uma semana, com que especialidade portuguesa haveria de retribuir tal simpatia. Pensei em fazer rissóis, faria a massa num dia, o recheio no outro e fritaria ainda em outro dia. Mas passei os três dias a pensar e não agi. Pensei numa tigelada. No bolo de laranja. Até pensei em pastéis de natal. Pastéis de nata…

Até que um dia, naqueles dia em que se quer algo rápido para o jantar, decidi que faria umas pataniscas num instante. E logo decidi dobrar os ingredientes. E segui o segredo da Laranjinha: massa bem recheada! Juntei 200 gr. de farinha a 200 mL de caldo de peixe, e 2 ovos. Juntei sal, pimenta, tirei com a pontinha da faca, uns pózinhos de fermento e mexi. Desfiz 200 gr. de bacalhau fresco cozido. Cortei um quarto de pimento às tirinhas, piquei um ramo de salsa, piquei dois dentes de alho e uma cebola. Ralei uma cenoura. Miguei uma batata cozida com um garfo. Durante todo este processo, a massa teve tempo de descansar uns 10 ou 15 minutos. Misturei tudo com a massa e verifiquei que esta era consistente e estava bem preenchida. Aqueci óleo e fui dispondo colheradas de massa no óleo bem quente. À medida que douravam de um lado, virava-as. Douradinhas dos dois lados, deixei-as em papel absorvente. Fui buscar o prato onde a minha vizinha me trouxe as pizzas, pus um guardanapo vermelho e alinhei as pataniscas, formando um quadrado. Em cada canto, dispus um quarto de limão. Fui com a minha filha até à sua porta, onde desfilavam mais de dez pares de sapatos, 2 bicicletas de criança, um carrinho de bebé e um ou outro brinquedo. A minha filha disse que queria ser ela a tocar à campaínha, e logo apareceu uma filha, atrás dois filhos, mais atrás a outra filha e finalmente apareceu a mãe. Não tive palavras para descrever a delícia dos seus cozinhados, disse que era delicioso, que aquele arroz era divino e perguntei-lhe se a carne seria pato. Ela pediu que a filha traduzisse e disse que era carneiro. Eu não lhe disse que me soube a pato, no máximo coelho, mas não poderia imaginar que fosse carneiro. Dei-lhe as pataniscas, disse que era algo típico português, com peixe, enquanto pensava que se calhar deveria ter feito algo mais elaborado, especial, já que ela cozinhava tão bem. Mas esta diva da cozinha turca na Prússia, no dia seguinte, bateu à minha porta e, com um sorriso, pediu-me a receita desta pérola da cozinha portuguesa. Agora, as pataniscas da Laranjinha, chegaram à Turquia!

Filetes de solha, migas de espinafre e puré de cenoura

Durante um dos dias em que a minha sogra cá esteve, perguntou o que queria para jantar. Eu disse “peixe” e ela disse, “então cozinha tu algo português”, e eu pensei: “mmm, algo português, não sendo bacalhau seco, são migas”. Então disse-lhe que ia fazer uma especialidade portuguesa para acompanhar os filetes de solha que ela trouxe da rua. Comecei por temperar os filetes com sumo de limão, pimenta e sementes de coentros. Entretanto, levei um gole de azeite ao lume e deixei frigir levemente uma cebola com um alho (picados) e uma folha de louro. Quando amoleceram, retirei deixando o azeite e juntei uma carcaça seca cortada aos cubinhos. Deixei que o pão absorvesse o azeite e comecei a juntar água a ferver, à qual adicionei caldo de legumes em pó. Juntei batatas e espinafre que a minha filha não comeu ao almoço e mexi até ganhar consistência. Entretanto, cozi  cenouras e acrescentei rabanete para conferir o seu trago peculiar.  Fiz em puré. Agora dediquei-me a tratar do bicho dos oceanos. Passei por farinha, fritei e pus no prato, com uma colher de migas e outra colher de puré cor de laranja. E a minha sogra, ao degustar esta “especialidade portuguesa”,  disse: “mmm, wunderbar!…”

truta no forno com puré de legumes e arroz de limão

Ontem o meu marido fez truta salmonada para o jantar. Temperou-a com alho, alecrim, sal e pimenta, embrulhou-a em papel de alumínio e pô-la no forno. Inicialmente, pensei em fazê-la  no forno e com os mesmos temperos, mas simplesmente com batatas e cenouras também no forno. Mas o meu marido disse que queria peixe cozido com arroz. Eu confesso que não me senti inspirada e que a visão de tal receita transportou-me para o mundo do terror na cozinha. Depois de 2 segundos de meditação, disse-lhe que se ele se sentisse inspirado para fazer algo especial, então a cozinha, o avental e o barrete de chef eram seus. Ele assentiu, mas na hora da verdade, disse que afinal ia fazer no forno. Eu suspirei, levemente aliviada, e disse rapidamente: então eu faço o acompanhamento! A verdade é que a estória do arroz fez-me lembrar um post que tinha lido no Figo Lampo já há algum tempo sobre um Arroz de Limão que me seduziu. Só com a receita em memória, comecei por aquecer um gole de azeite num tacho. Cortei três dentes de alhos às fatias, juntei algumas sementes de coentros e deixei-os saltitar no azeite. Juntei a raspa de um limão, mexi, e juntei um copo de arroz basmati. Pus dois copos de água a ferver e dei umas voltas ao arroz com a colher de pau. Quando a água ferveu, juntei-a ao arroz , juntei uns raminhos de tomilho do nosso jardim (ou melhor, do nosso vaso na varanda) e duas fatias do limão. Temperei com flôr de sal de Olhão e pimenta moída na altura. Afinal a receita saiu um pouco diferente da original, mas ficou um arroz mesmo bom. Para além do arroz, fiz um puré de legumes para fugir ao tradicional puré de batata e para trazer um pouco de cor ao prato. Porque a cromoterapia também se senta à mesa. Cozinhei batata, alho francês, alho e cebola, juntei um bocadinho de beterraba pela questão da cor, reduzi a puré e temperei com natas de soja, sal e pimenta. Ficou mesmo bom, este prato. Fá-lo-ia novamente sem alterar uma vírgula.

Os restos dos restos dos restos

Do jantar de há dois dias sobrou um molho de goulash que o  meu marido fez e que eu adjectivaria de delicioso se as minhas papilas gostativas não estivessem KO. Não consegui sentir os sabores e aromas mas sei que estava de comer e chorar por mais.

Para acompanhar este resto de molho, ontem fiz migas com chouriço para o jantar. Comecei por fritar a cebola e o alho com pimentão doce e meia folha de louro e umas falhas de chouriço e sementes de coentros. Quando a cebola amoleceu, retirei, juntei os restos de pao, que neste caso era pao branco e pao integral e fui deitando água a ferver enquanto o pao a bebia. Juntei uma malagueta e continuei a mexer. Quando o pão ficou bem em papa, deixei cozinhar mais um pouco para a água evaporar, voltei a juntar as cebolas e o chouriço e mexi tudo por mais uns minutos. Quando ficou bem sequinha, juntei duas belas colheres desta conserva de coentros, passei para uma travessa de barro e pus no forno a 75 graus para não arrefecer. Como o ovo  estrelado é unha e carne com as migas, na mesma frigideira, pus mais um golinho de azeite e estrelei 4 ovos. No prato, pus os ovos a acompanhar as migas, a acompanhar o resto do goulash. Mesmo com as papilas gostativas em hibernação, soube-me a pouco, repeti as migas e mesmo assim ainda sobraram.

Para acompanhar o resto das migas, fiz hoje ao almoço couves verdes temperadas com alho, limão, azeite e mostarda. No prato, pus uma lata de sardinhas a acompanhar as couves, a acompanhar as migas. As minhas papilas começaram a acordar e consegui sentir pelo menos o sabor do alho e um leve cheiro a sardinhas! Foi um prato que me deixou satisfeita.

Porque três foi a conta que alguém fez, houve restos mais uma vez. De couve. Pus batatas e cenouras aos cubos na panela com muito pouca água e, quando esta comecou a ferver, pus  uns filetes de Redfish por cima dos legumes. No prato, pus as batatas e cenouras a acompanhar o peixe, a acompanhar a couve. Excepto no da minha filha, que rejeitou a couve mas comeu com um apetite voraz o peixe cozido com legumes e regado com azeite!

o corpo e a alma

Sera que as coisas teem alma? Um poeta disse que sim, que basta acorda-la. Mas outro poeta disse que se pode perder a alma, quer se seja coisa animada ou inanimada, basta ter um passo no corpo mais rapido que o da alma. Eu concordo com os dois poetas, mas digo tambem que a nossa alma nao esta so em nos, temos tambem um bocadinho da nossa alma nos que amamos, na nossa terra, na casa a que chamamos casa. E ha bocadinhos da nossa alma que vao acordando, outros adormecendo, despertados pelas sensacoes de que os nossos sentidos sao portadores, como o cheiro da terra molhada, o sabor da laranja acabada de apanhar, sentir o sol quente na pele… podia continuar a divagar ate chegar a ao arroz de marisco com muitos coentros, que sabe mesmo a casa. Que foi o que eu tentei fazer, versao arroz de bacalhau fresco, usando a tecnica milenar que o povo algarvio usa e que passou da minha avo para a minha mae e para mim. Cortei duas cebolas aos cubinhos, um dente de alho, uma folha de louro e fritei em azeite importado directamente do Algarve. Quando a cebola comecou a guinchar, juntei uma lata de tomate inteiro pelado, mexi, juntei um copo de vinho branco, mexi e tapei. Deixei o calor do fogo brando exercer a sua funcao durante 10 minutos. Voltei a mexer e juntei as postas de bacalhau fresco e flor de sal de olhao. 10 minutos depois, retirei e reservei o peixe. Juntei o arroz (usei risotto pois mantem-se firme por mais tempo) e fui acrescentando agua a ferver conforme o arroz a ia pedindo. Ate o arroz ja estar cozido. Entretanto ja tinha picado um molho de coentros e descascado mais um dente de alho. Primeiro foi o peixe que voltou para a panela, depois os coentros e acrescentei ainda um dente de alho picado e um gole do resto do tal azeite. Mexi tudo muito bem e os cheiros que emanaram da panela e a visao do verde-coentro e vermelho-tomate teletransportaram-me a casa por instantes. Com os pes 2 palmos acima do chao, a panela levou-me a mesa, brindamos, comemos e deliciamo-nos. Mas nao sabe ao mesmo, mesmo que seja o mesmo que se come na tasca do ze, ou em casa, mas em casa, na casa-terra, tem outro sabor. Falta algo, e os especialistas podem divagar sobre as diferencas de temperatura, pressao, sobre as diferencas entre fogoes que explicam o sabor diferente que a mesma receita pode ter qdo cozinhada em sitios diferentes, mas a mim nao me enganam. O que acontece e que nao se pode transportar a alma das coisas animadas ou inanimadas assim, sem mais nem menos.