A autora e seu Reino

Vive em mim um certo bicho que me põe as malas no comboio e os pés em movimento. Esta premente necessidade de viajar, de olhar para outros povos, saborear outras paisagens, de viver outras culturas como se minhas fossem trouxe-me agora ao Reino da Prússia. E quando regresso ao meu reino, sei, sinto,  ao pousar os meus pés nesta areia dourada, grossa e quente, descubro que afinal, ao partir, deixo sempre na areia um bocadinho da minha alma.

Não troquei o dourado das dunas pelo prateado da neve que cobre as pradarias deste território outrora prussiano, mas por ora faço, com a minha família, desta
paisagem o meu lar. E a cozinha do nosso lar tem uma janela com vista para o mar. Entro neste meu porto e o diálogo que encerro com os ingredientes, o plano que a minha imaginação delinea para o jantar, são a catarse do dia. E, escrevê-lo, é a catarse da catarse.

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6 thoughts on “A autora e seu Reino

  1. Vim até aqui pelo comentário que vi no Blogue da Moira. “As tostas mistas em Faro do tempo de estudante…” Palavras mágicas que me trouxeram à lembrança as que por lá também comi no meu tempo. Na ilha de Faro sei que ainda se comem no Bistro e no Paquete. Voltarei mais vezes.

  2. Sofia, gostei em particular da parte “nao troquei o dourado das dunas pelo prateado da neve” 🙂
    Segue a sugestao do rei Mouro para as saudades que a sua Princesa do Norte tinha da sua terra fria e quando olhares para a neve lembra-te das tuas amendoeiras em flor!

    Tirado da Pagina do Facebook da Cultugarve:
    A “neve” do Algarve

    Lenda das Amendoeiras

    Há muito tempo, antes da independência de Portugal, quando o Algarve pertencia aos árabes, havia ali um rei mouro que desposara uma rapariga do norte da Europa, à qual davam o nome de Gilda.

    Era encantadora essa criatura, a quem todos chamavam a Bela do Norte, e por isso não admira que o rei, de tez cobreada, tão bravo e audaz na guerra, a quisesse para rainha.

    Apesar das festas que houve nessa ocasião, uma enorme tristeza se apoderou de Gilda. Nem os mais ricos presentes do esposo faziam nascer um sorriso naqueles lábios agora descorados: a “Bela do Norte” tinha saudades da sua terra.

    O rei conseguiu, enfim, um dia, que Gilda, em pranto e soluços, lhe confessasse que toda a sua tristeza era devida a não ver os campos cobertos de neve, como na sua terra.

    O grande temor de perder a esposa amada sugeriu, então, ao rei uma boa ideia. Deu ordem para que em todo o Algarve se fizessem plantações de amendoeiras, e no princípio da Primavera, já elas estavam todas cobertas de flores.

    O bom rei, antevendo a alegria que Gilda havia de sentir, disse-lhe:

    – Gilda, vinde comigo à varanda da torre mais alta do castelo e contemplareis um espectáculo encantador!

    Logo que chegou ao alto da torre, a rainha bateu palmas e soltou gritos de alegria ao ver todas as terras cobertas por um manto branco, que julgou ser neve.

    – Vede – disse-lhe o rei sorrindo – como Alá é amável convosco. Os vossos desejos estão cumpridos!

    A rainha ficou tão contente que dentro em pouco estava completamente curada da tristeza que tinha. E todos os anos, no início da Primavera, ela voltava vezes sem conta ao alto da torre para ver as amendoeiras cobertas de lindas flores brancas que lhe lembravam os campos cobertos de neve, como na sua terra.

    A Princesa:
    Ai portas do meu silêncio,
    Ai vidros da minha voz,
    Ai cristais da minha ausência
    da terra dos meus avós.
    Desataram-se em soluços
    os seus cabelos desfeitos…

    O Rei Mouro
    Dizei-me magos, oragos,
    anões, duendes, profetas,
    adivinhos e jograis,
    sagas, videntes,poetas…
    Como hei-de secar o pranto,
    daqueles olhos de rio?
    Como hei-de secar os ais,
    daquela boca de estio?
    Como hei-de quebrar o encanto
    que numa tarde de pedra
    talhada pela tristeza
    selou com dados de chumbo
    o sorriso da princesa,
    que suspira pela neve
    da ponta do fim do mundo?

    José Carlos Ary dos Santos

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