“Bratkartoffeln” para o “Santsmarti”

Aqui na Prússia comemora-se também o dia de São Martinho. Estamos na altura das castanhas e do vinho novo, mas o ritual do São Martinho prussiano, consiste em dar a volta ao bairro com uma lanterna artesanal. É uma boa maneira de enganar o frio. Bom, talvez jeropiga e castanhas assadas o enganem muito melhor do que as luzinhas que as crianças montam nas lanternas! Mas, enganos de lado, a minha filha perguntou-me há uns dias se eu queria que ela me contasse a estória do “Santsmarti”. Anui, claro, sem lhe dizer que estava a pensar em smarties e não no São Martinho. E assim ela me descreveu a estória do São Martinho, do seu cavalo e manto. “Queres que te conte outra vez, mamã?”, “Sim, mas qual a do Saint Martin ou a do Santsmarti?”, “A do SantsMaartiiiiin!”. São Martinho, cavalo, manto. “Agora vamos comer, meu amor.”

Ao jantar, um prato típico da fast food prussiana: Batatas com esparregado e ovo estrelado. As batatas, bratkartoffeln, fá-las o meu marido, pois é ele o especialista dos pratos prussianos. Cozem-se as batatas (pequenas) com pele na panela de pressão e em vapor. Estão prontas ao primeiro apito. No dia seguinte, descascam-se e cortam-se às fatias de meio cm de grossura. Numa frigideira anti-aderente, vai um nó de manteiga e um gole de azeite. Quando a gordura está bem quente, caem as batatas, que se vão virando conforme vão alourando, com um toque de mestre na frigideira. O meu marido tempera-as com sal, pimentão doce e ervas provençais. São as minhas batatas perfeitas de momento. E o prato completo, com esparregado e ovos estrelados deixa-me a pairar dois pés acima do chão.

O muffin que nunca o foi

Queria fazer um bolo de chocolate para uma festa de infantário. Já com tudo a postos para começar a preparar o bolo, fui buscar o chocolate para derreter. Chocolate? Prateleira vazia. Então. decidi fazer a receita milagrosa de muffins da Nigella. Liguei o forno a 180 graus. Bati 2 ovos com 125gr. de açúcar integral até obter uma espuma esbranquiçada enquanto derreti 125 gr. de manteiga. Juntei a 125 gr. de farinha, uma colher de chá de fermento e meia de bicarbonato de sódio. Tentei alternar a farinha com a manteiga na mistura de ingredientes, mas a minha filha juntou tudo de uma vez, dizendo, “Mamã, assim também pode ser!”. E foi. Adicionei um gole de leite. Fui buscar as forminhas de muffins, mas não as encontrei. A princesa, disse: “E porque é que não usas este papel cortado aos bocadinhos?”, apontando para o papel de forno. Eu disse à minha filha: “que boa ideia!, mas e que tal se fizéssemos um bolo com nectarinas?”. Assim, em vez de cortar o papel, cortei nectarinas e o papel forrou uma forma de 20 cm. As nectarinas ficaram em baixo e a massa por cima. Foi ao forno durante cerca de 25 minutos. Bendita a hora em que o chocolate evaporou a as forminhas voaram do meu armário. 

(*Meatless Monday*) Intermitências…

… oferece a meteorologia ao verão prussiano. Aquele ditado português que clama o março marçagão, poder-se-ia aplicar sem exagero aqui e agora. “Verão da Prússia, na Prússia verão: um dia é Inverno e no outro … verão”. – não resisti à rima barata.

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Esperando que amanhã seja melhor, trago hoje um prato que poderia ser de fim de verão, e que acho que nem precisa de receita, de tão simples. E é rápido, muito rápido. Frite uma cebola em azeite, junte tomate maduro, migado, e deixe fervilhar. Tempere a gosto. Junte grão cozido e adicione ovos que iram escalfar no molho de tomate apurado. Salpique com salsa e hortelã e leve à mesa quando os ovos atingirem o seu ponto ideal.

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No bake cake for world baking day

Celebro o “World Baking Day” com salame de chocolate. Trouxe a receita da casa da Helena e desde já aconselho o caro leitor a seguir com especial atenção as notas adicionais do autor. Apesar de ser um bolo (será que se pode definir como bolo?) que não entra na prateleira do forno, mas sim na prateleira do frigorífico, pensei que talvez nem coubesse num desafio que nos convida a usar o forno. Num segundo pensamento, relativizei tudo em torno da temperatura. Voltei a vacilar com a receita do salame porque este desafio nos pede para sair da zona de conforto. Assim surgiu mais um obstáculo, porque para mim chocolate é conforto. E depois esta receita é canja. A minha filha fá-la-ia  sozinha, decerto, não fosse o derreter o chocolate. Embrulhada nestes pensamentos, decidi olhar o problema numa outra perspectiva e argumentei comigo mesma que a minha experiência com bolos tão fáceis que até uma criança os faria não é exactamente a melhor. Então, estava decidido. Fiz a receita a dobrar, mas em vez de chocolate de leite, usei chocolate a 70% e bolachas de manteiga a 13% em vez de bolacha maria. Reduzi então a quantidade total de manteiga em 13% usando o olhómetro e acabei por manter a quantidade de manteiga para uma dose nas duas doses.

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Pus 400 gr. de bolacha num saco, fechei-o e dei-lhe umas belas pancadas secas até as bolachas ficarem em pedacinhos. Derreti 220 gr. de chocolate com 75 gr. de manteiga em banho maria. Entretanto, bati 2 ovos com 120 gr. de açúcar integral. Misturei tudo e dividi em dois “chouriços”, que embrulhei em papel de alumínio. Levei ao frio. Aqui em casa, todos gostaram, da mais pequenina ao maior. Outros prussianos provaram o salame e as reacções foram engraçadas. “Salame? Com chocolate? É doce ou salgado?”, ou “Ah, ah, ah. é duro como um salami de verdade!”. Para finalizar, devo relembrar o caro leitor, caso queira seguir a receita, de não se esquecer que as importantes notas do autor não são de desprezar.

(*Meatless Monday*) Só para adultos

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As crianças estão na cama? Então relaxe, sente-se no sofá e leia este post. Este post é um post picante. Não precisa de bolinha vermelha no canto superior direito do ecrã, mas não é para meninos. É picante, porque hoje a malagueta é rainha e o pão seu rei, num prato de migas. E antes de lhe apresentar a receita, deixe-me dizer-lhe já as reacções dos comensais aqui em casa. A princesa foi clara: “Eu não quero migas, quero espargueeeeeeete!!”. A princesinha, clara foi, “Dá, dá, nein, dá!!”, apontando para o ovo. Ao meu marido, perguntei: “Então, amor, gostas das migas?”. Seguindo-se um longo silêncio, repeti a pergunta. “Ah, mmm, sim, são boas, mas com o pão português são melhores”. Argumento redutor. Segue-se então a receita: ponha o pão duro de molho. Refogue uma cebola em azeite e louro. Quando a cebola estiver mole e transparente, junte o pão também já mole. Tempere com sal, pimenta, uma bela malagueta e paprica, muita paprica (quem é que se lembra disto?). Mexa lentamente em lume brando até adquirir a consistência necessária. Eu gosto delas com uma leve crosta dourada.

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Servi as migas com espargos brancos temperados com azeite e vinagre e com ovo, que ferveu 3.5 minutos.

Com esta refeição. gostaria de iniciar-me no movimento “meatless monday”. Isto, por uma vida mais sustentável.

Serão de Outono

Quando vi a data do último post, mal podia acreditar que tanto tempo passou. Mas hoje, enquanto fazia o jantar, acompanhou-me a vontade de publicar. E conto-vos as minhas deambulações culinárias começando no fim, na mezinha que tenho ao lume.

É Outono e os 10 ou 12 graus Celsius que se sentem na Prússia não perdoam o mais distraído que se esqueceu que o Verão acabou. Chegaram as constipações e, cá em casa, foi o meu marido a vítima. E foi por acaso que vi no site do Slow Food Algarve  uma mezinha algarvia à qual sabia que o meu marido não resistiria. Se quiser tentar, precisa de 600 gr de mel, um pau de canela, casca de um limão e meio litro de água. Ferva tudo e deixe apurar. Depois, coe e junte a meio litro de medronho. Prove e chame-lhe pomada.

E para o jantar, andava indecisa entre uma beringela listrada – que só comprei pelo seu adjectivo – no forno com tomate ou uma salada de bulgur e legumes, quando um alho francês me sussurrou “quiche”. Desenrolei uma embalagem de massa folhada sobre um tabuleiro com papel vegetal e existe algo de mágico, fascinante na massa, que atrai a minha filha à cozinha. E assim veio ela a correr, dizendo, “ó mãe, eu ajudo-te!!”. E sem esperar pelo meu sim, encostou a sua cadeira à bancada. Eu tirei os ovos e ela partiu-os. Quatro, certeiros. Eu juntei 125mL de leite a outros tantos de farinha, mexi bem e ela misturou-os com os ovos. Eu juntei sal e pimenta e ela entretanto já tinha desaparecido para outra aventura. Depois, cortei em troços um alho francês – os troços da parte branca mais largos que os da parte verde – despejei a massa no tabuleiro e distribuí os troços. Ralei por cima algum parmesão e foi ao forno a 180 graus, cerca de 40 minutos. Servi com uma salada de alfaces.

Também ao forno foi a sobremesa: pus 4 metades de marmelo num tabuleiro de barro, com a parte plana virada para baixo, salpiquei com açúcar e canela e reguei com sumo de maçã. Não sei quanto tempo ficou no forno, mas foi até todo o marmelo estar tenro. Servi com iogurte de baunilha.

Assim foi este serão de Outono cá em casa. A quiche brilhou entre os adultos e a pequenota maior. Já a pequenota “pequenota”, decidiu usar os pedacinhos de quiche para aprender a relação entre distância e velocidade, observando a sua queda livre do alto da sua cadeira até ao chão.

Já à sobremesa, a distinção entre adultos e crianças foi clara, optando os adultos pelos marmelos e as crianças pelo iogurte. E eu, pelos dois.

Ovos com chouriço

Quando era pequena, a minha mãe costumava fazer ervilhas com ovos escalfados. Confesso que nunca fui fã. Enquanto a minha prima, ao meu lado, enumerava todas as qualidades do prato, eu olhava para as ervilhas e sonhava com esparguete.

Desde há algum tempo que tenho andado a pensar neste prato e em como o poderia reinventar. Hoje deu-se o click decisivo e pus mãos à obra.

Cortei em cubinhos uma cebola e um alho. Pus a fritar em azeite. Entretanto, cortei meio chouriço em fatias  e pu-lo numa frigideira, em lume médio, a fritar na sua própria gordura até ficar crocante. Quando a cebola ficou transparente. juntei feijão verde cortado em troços de cerca de 2 cm. Juntei um pouco de tomate concentrado misturado numa chávena de água.

Enquanto observava o verde vivo do feijão sob a luz do lusco fusco, quis parar o tempo, parar o espaço. Congelar aquele momento na memória (da máquina fotográfica). Não fosse aqui em casa a preparação do jantar um processo que não permite interrupções, a não ser para por uma chucha no seu devido lugar. E não fosse a personalidade da minha máquina, que sempre se nega a mostrar no seu ecrã aquilo que os meus olhos vêem. Tento então mostrá-lo por palavras, para consumir em modo slow, com a convicção de que só imagens especiais valem mil palavras.

Os feijões ficaram prontos e  por cima juntei os ovos, com cuidado. Tapei e esperei cerca de três minutos, de modo a ficarem com a clara cozida e a gema líquida.

Distribui pelos pratos e espalhei o crocante de chouriço por cima dos feijões. A minha filha comeu tudo. Bom, tudo excepto os feijões…

 

Queijadinhas de leite

Esta receita deu-me uma amiga já por duas vezes. “Tens que fazer, é super simples e mesmo bom”, disse-me ela. Apontei num papel solto que acabou por se perder no meio do caos reinante. “Já experimentaste as queijadas?”, perguntou quando voltámos a falar. “Ainda não”. E depois contou-me o sucesso que elas sempre fazem, voltando a frisar a facilidade da sua confecção. Então decidi que seriam a sobremesa do “Convidei para jantar”. A massa prepara-se em menos de 10 minutos: bati 3 ovos com 150 gr. de açúcar (baunilhado), juntei 120 gr de farinha, meio litro de leite e 50 gr. de manteiga derretida. Misturei e distribui por forminhas de queques (atenção, a massa fica muito líquida, por isso aconselho o uso de um tabuleiro de queques ou 2 forminhas de papel por cada queijadinha). Enchi as forminhas até bem acima e levei ao forno a 170 graus até estarem cozidas e douradinhas por cima, cerca de 20 minutos. São muito boas, rápidas e fáceis. De fazer e de comer. A minha filha comeu duas de uma vez.

 

Para mim, setembro é…

… praias vazias de turistas, pôr do sol na praia, brisa fresca a amansar os dias ainda quentes do sul, mar quente e ondulado, mergulhos, sal, areia, correrias pela praia… E é uma bela tomatada ao fim do dia. E foi depois de um dia de praia assim que comi a primeira tomatada registada nas minhas memórias de infância. Veio depois Setembro trocar-nos as voltas na praia pela escola que passou a começar no fim do mês, vieram depois os exames da época especial de Setembro, aos quais nunca consegui escapar, e qualquer dia vem a escola da pequenota. Trocou-nos Setembro a praia pelos livros e eu troquei as voltas à tomatada que a minha mãe fez naquele dia.

Comecei por refogar levemente uma cebola picada e cerca de 2 ou 3 tomates bem maduros em lume brando e por cerca de 10/15 min. Parti dois ovos para o tomate a borbulhar, sem os fazer em farrapos como na típica tomatada, mas deixando-os inteiros. Deixei a clara cozinhar, mas não deixei a gema, para nela poder molhar o pão guloso. Depois fui à hort … ah … varanda e trouxe um pé de salsa, outro de hortelã e ainda outro de poejos. Piquei o meu ramo verde para a tomatada e, num silêncio que até poderia ser religioso pela profundidade que atingiu – mas não foi -, limpei o prato e a frigideira neste almoço solitário de um dia de sol prussiano.

Mas fiquei a pensar que, naquele dia de praia, a minha mãe acompanhou a tomatada com batatas fritas, douradas, estaladiças. E, continuando a pensar nelas, hoje fiz um prato de crise com uma bela salada.

Tarte rústica

Fiz esta tarte da Margarida, adaptando alguns ingredientes ao que tinha no frigorífico, e ficou maravilhosa!

Laminei uma curgete grande, cortei em pedacinhos pequenos um quarto de um pimento vermelho e um cebolo em fatias. Bati 4 ovos com 200 gr. de natas e 100 gr. de crème fraiche e juntei 2 fatias de queijo gouda cortado aos pedacinhos. Temperei com sal e pimenta e juntei os legumes à  mistura de ovos e natas. Desenrolei a massa folhada num tabuleiro redondo e distribui o recheio. Ralei parmesão e polvilhei generosamente toda a tarte. Levei a forno aquecido a 180 graus por cerca de 25 minutos. A costela prusssiana do  meu marido disse que, para ficar perfeita, faltava apenas um pouco de schinken. Hei-de experimentar a versão da Margarida, com pinhões e ricotta, e hei-de experimentar também com schinken. Algo me diz que esta tarte vai instalar-se por uns tempos na mesa da nossa casa!