A primavera vem duas vezes

Preparava-me, no jardim, para arrancar os pés secos das favas, quando reparo que por baixo nasce um novo pé. Deixei-os florir e apanhei esta segunda dose inesperada e menor de favas. Como um arco-íris e sua réplica num dia de chuva.
Com vontade de fazer algo mais fresco que a receita clássica, peguei na salada de grão escondida neste post e adaptei-a às favas. Cozi-as em vapor na panela de pressão e temperei-as com cebola roxa picadinha, coentros, azeite, vinagre, flor de sal e pimenta. E foi um ver se t´avias.

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Conversas de vizinhas

Quero escrever no blog e dou por mim a repetir-me sobre os prazeres do meu éden. Por isso, poupo os meus caros leitores aos meus devaneios e vou directa ao assunto:
– E então, já tens courgettes?
– Ainda são pequenas.
– Olha, eu já não sei o que hei-de fazer às minhas. Toma lá umas quantas.
– Pois, temos que comer o que há. Quando a terra te dá courgettes…
– … tu fazes???
– Olha, faço “ketschup”!
– Ahn? Quero a receita.

Esta foi a surpresa de ontem, e não perdi tempo. Descasquei uma courgette gigante, retirei o meio, cujas sementes já estão demasiado duras para ignorar, seleccionei 750 gr e pus mão à obra. Gostei – adorei – o resultado e por isso partilho aqui convosco.
Refoguei a courgette com uma cebola em 4 colheres de sopa de azeite. Entretanto, pesei 100 gr de açúcar e medi 100 mL de vinagre de vinho. Limpei dois talos de lemongrass e cortei-os em quartos. Piquei 50 gr. de gengibre fresco e misturei tudo com mais duas colheres de chá de caril. Foi tudo para a panela de pressão. Enquanto ela não apitava, limpei dois ramos de manjericão e cortei-os aos pedacinhos. Peguei em 3 chillis, um de cada cor, e cortei-os muito fininho. Quando apitou, desliguei, abri a panela e retirei os talos de lemongrass. Juntei o manjericão e triturei tudo com a varinha mágica. Achei demasiado chilli, portanto fiquei-me pela metade. Juntei à massa amarela e deixei dar mais uma fervidela, mexendo sempre. I can´t get enough of it.

curgete – meatless monday

O que fazer com 3 curgetes de 2 kilos cada? Foi o que trouxe hoje do jardim, mais uma barrigada de cerejas.

Dei uma à minha vizinha da horta, ela deu-me ideias de como “esconder” a curgete das crianças e disse: “temos que comer o que há!”. É daquelas verdades. Mas eu hoje não quis esconder a nossa primeira curgete. Virei-lhe todos os holofotes, exacerbando a sua simplicidade. Cortei-a em fatias grossas e fritei-as em azeite. Depois, temperei com sumo de limão e flor de sal.

Na mesa: A minha filha mais velha diz que não quer com voz enjoada e a mais nova imita a irmã sem perceber sequer o que está a dizer. A refeição chega ao fim e apesar dos exagerados “mmm, que bom” que eu insisti em dizer, nada as demove. No fim, a minha filha quer sobremesa. “Sem teres acabado de comer tudo?!?!”. “Prova só, sabe a bife.”, “e podes por sal e limão”. Assentiu, pedindo a fatia mais pequena. Flor de sal. Limão. Comeu e eu perguntei: “Então, sabe a bife grelhado ou não sabe??”. Ela confirmou e pediu outra fatia, a maior. A minha filha mais nova disse: “I au, a maió!!”, e dei-lhe a outra fatia.  Mas, apesar da vontade de imitar a irmã mais velha, a fatia de curgete a saber a bife não entrou no portão, nem com a irmã a dizer “olha o aviãozinho”. 

Favas com chouriço

1. Favas

A Natureza é mãe. Hoje, ao regressarmos ao jardim, fomos recebidos de braços abertos. Favas, curgetes gigantes, mais groselhas, mais cerejas, mais framboesas, outros frutos silvestres que só aqui conheci. 

É das favas que falo hoje, e conto o conto desde o início. Ao planearmos o que semear, o meu marido perguntou-me: “e favas?”, “favas, achas que crescem aqui? Nunca as vi sequer à venda!”. Estava céptica. Ele tratou de investigar e encomendou as sementes. Acho que ele traz também consigo a saudade. Semeou-as em Abril e hoje foi o dia de colher os frutos. Apanhei um balde delas. Fui muita vez à fava com a minha Avó. Trazíamos sempre um balde para casa, que descascávamos no quintal e dava uma panelada de favas. Estas, descasquei-as com a minha filha mais nova, que me dizia: “Sou fóte!!” e abria a vagem, partindo-a entre as suas mãozinhas. E a cada vagem aberta, um ah! de surpresa pelas sementes que aí encontrava. “Um doix tex catu xinco”. E perguntava insistentemente se podia provar. “sim, prova, mas olha que cruas não prestam”. Uma dentada, uma careta. 

Cheguei a casa e dirigi-me ao fogão com o alguidar de favas e um ramo de cebolinho. Lavei-as, seleccionei duas mãos cheias das maiores a pensar já nas sementeiras do próximo ano e pus o resto na panela de pressão, que ficou a dois terços cheia. Reguei com um copo de água e um fio de azeite e temperei com sal, um dente de alho, o ramo de cebolinho e outro de salsa. Deixei dar um apito e desliguei.

2.  Chouriço

O chouriço deu-me a minha mãe e eu guardei religiosamente para a ocasião. Bom quase, que fui-lhe dando umas falhinhas com a minha filha mais velha. Descasquei-o, parti-o em pedaços e fritei-o. Reguei as favas com o chouriço. Isto é saudade. Sabe bem fazer aqui o que fazia em Portugal. Sabe melhor ainda comer o que semeámos. E a frescura é … sem palavras. Mas, ao provar, não senti aquele sabor bom das favas da minha Avó. Explico-o por ter estado a cozinhar e o meu olfacto se ter adaptado. Depois lembrei-me. “Ah, o açúcar!”. A minha Avó põe “açúcar” nas favas. 

Mais estórias do meu jardim

Queria começar por falar sobre o nosso jardim, mas não encontro palavras. Talvez se contextualizar o caro leitor, a inspiração flua. Estão 30 graus à noite, troveja e, na televisão, passa um programa sobre LSD. Descrevem experiências de alucinações. E ao pensar como hei-de descrever o que se está a passar no jardim, no auge da primavera, não posso deixar de estabelecer um paralelo entre as alucinações de formas e cores que descrevem na TV e a explosão de cores, cheiros, sabores e formas confinados naquele quintal de poucos metros quadrados. Se no jardim tenho cogumelos psicadélicos? Não. E se o jardim é o meu LSD? Também não, claro que não. Mas se alguém anda a pensar ou a dar em drogas – legais ou ilegais –  só tenho isto a dizer:  – deixa-te de tretas e dedica-te à jardinagem. É que para além da parte das alucinações, há também o efeito terapêutico de “arrancar o mal pela raíz“, quando  se trata das ervas daninhas e a recompensa que é, literalmente, “colher os frutos do teu trabalho“. Tenho andado a trazer morangos e ruibarbo, ruibarbo e morangos. Então, fiz compota de ruibarbo e morango, receita da minha sogra. Um terço de ruibarbo, dois terços de morango e um terço do peso em açúcar gelificante são os ingredientes. Lava-se a fruta, tiram-se os pés aos morangos e corta-se o ruibarbo em pequenos troços. Misturam-se os ingredientes, e deixa-se a fruta a macerar no açúcar durante cerca de meia hora ou até criar líquido. Depois, leva-se  a lume médio, mexendo sempre até levantar fervura. Depois de levantar fervura, mexer durante mais um minuto, conforme as instruções do pacote de açúcar, e apagar o lume. Distribuir por frascos esterilizados com tampa de enroscar, fechá-los e dar-lhes a volta à cabeça para criar vácuo. Também fiz compota de morango com tomilho – same procedure as before. E agora tenho groselhas brilhantes que parecem rubis – não, não estou a alucinar – e ando a pensar o que hei-de fazer. Quem tem ideias?

 

A primavera é um fogo de artifício

1. Hoje é meatless monday e como tal trago uma receita vegetariana, com espargos,  que está no tempo deles. É tão simples que se descreve em três passos: Faça um molho de tomate em azeite com salsa e cebola; dê uma fervura aos espargos até atingirem o ponto; numa travessa, distribua o molho de tomate pelos espargos. Para concluir, diz a minha mãe que em tempo de tomate não há más cozinheiras, e eu acrescento, em tempo de espargos. 

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2. Para os meus queridos leitores, não tenho segredos nestas questões e confesso: hoje a minha monday não foi nada meatless. Quando cheguei a casa com as crianças, estava já o meu marido na cozinha e disse-me: hoje fazemos bifanas, ok? Concordei, claro, que a minha carne é fraca, um jantar de bifanas sabe bem e traz-me boas memórias de Portugal. Inventei uma marinada com vinagre, alho, sal, pimenta e pimentão doce, mas a receita precisa de afinar. Entalei a carne no papo-seco e gostaram os adultos e as crianças.

3. O nosso jardim floresce. Parece um fogo de artificio de cores, cheiros… Hoje, explodem as tulipas, amanhã as rosas, e depois outras flores de que nem sei o nome, mas que me agrado por não ter confundido com ervas daninhas antes do florescer. As favas estão também em flor, as cenouras já dão sinal de vida (mas quem sabe o que se passa por baixo da terra), as cerejas estão verdes e as maçãs já despontaram. Mas hoje foi o dia de apanhar os espinafres, antes que espigassem. Foram duas linhas de cerca de 3 metros cada, que deram em folhas de espinafre cerca de 1,5 kg. Em casa, preparei-os para congelar: dei uma fervura em vapor para os murchar e congelar. Foram quatro panelas de pressão de 4,5 L em serie. 150 mL de água, encher com espinafre até acima, deixar ferver, abrir a panela, tirar os espinafres e coar. Repetir a sequência. No fim, os espinafres reduziram-se a um terço do seu  tamanho mas perderam apenas 10% do seu peso, que foram os 300 mL de caldo que daí resultou e aos quais se deverá retirar os 150 mL de água que juntei inicialmente. Congelei metade e com os outros 675 gr farei amanhã um esparregado, fritando dois ou três dentes de alho em azeite, depois vem o espinafre e um gole de leite. Deixo fervilhar e tempero com sal, pimenta e noz moscada…