Prólogo

{Antes de entrar em palco, detenho-me. E penso como salto o hiato entre hoje e a última publicação. Assumo mea culpa e invento mil e um argumentos, dizendo que hibernei no inverno. Ou uso psicologia invertida e viro-me para os meus queridos leitores, perguntando: Então, onde é que vocês andam?!?!!?. Mas não me revejo e decido olhar em frente. O meu palco é o meu jardim e o resto é “neve de ontem”.}

Acto I

No Jardim. No ano passado nasceu algo com a folha parecida ao girassol. A esperança de ver uma flor girar para o sol foi adiada até cair na sombra da memória.

Acto II

No Jardim. A preparar a terra para novas plantações, o meu marido diz-me: temos a terra cheia da topinambur! E eu replico que eram os girassóis do ano passado. Nascem como loucos, diz-me ele. E eu sorrio.

Acto III

No Jardim. Os vizinhos do lado aparecem. Há uns anos, eu e o outro vizinho, fizemos uma limpeza geral a esses tubérculos, disse ele. Topinambur? são bons! Digo eu. São uma praga, diz ele. São bons, digo eu. E ele diz, pensávamos ter limpo tudo, mas afinal…, diz ele. São bons, digo eu, topinambur. Afinal não, são uma peste!, diz ele. Topinambur é bom, digo eu, e ele diz, É que nem sequer no lixo composto se pode pôr, até aí ele nasce! Entretanto, volta a vizinha e oferece-me um raminho de rúcula. E eu digo-lhe a ele, depois de agradecer (a ela). São bons. Os dois vizinhos voltam para o seu jardim.

Acto IV

Na cozinha. Os tobinambur estão na bancada. Descasco, corto às fatias. Salteio em azeite e sal. E alho. Deixo saltear mais uns dez minutos, sempre atenta à frigideira e até o dourado aparecer. Junto a rúcula, tapo e deixo suar. O meu marido diz que cheira bem a alho queimadinho.

Acto V

Na mesa. O meu marido diz: cheira bem. E continua. Tem bom aspecto. O trio fecha-se, dizendo, E sabe bem. E sabe mesmo. Tem um sabor quase doce, lembrei-me de tapioca frita.

Acto VI

Na lounge do meu Jardim, vou buscar o meu livro, a minha bebida, sento-me a apreciar o sol e o crr crr da brisa nas flores da cerejeira e procuro topinambur no índice remissivo. É a batata dos diabéticos.

Epílogo

As minhas princesas disseram em uníssono, queremos esparguete com ranhoca, queremos esparguete com molho de ranhoca!!!

E agora vou inspirar-me aqui em alcachofra de Jerusalém e pacientemente esperarei pelo próximo Outono.

A primavera vem duas vezes

Preparava-me, no jardim, para arrancar os pés secos das favas, quando reparo que por baixo nasce um novo pé. Deixei-os florir e apanhei esta segunda dose inesperada e menor de favas. Como um arco-íris e sua réplica num dia de chuva.
Com vontade de fazer algo mais fresco que a receita clássica, peguei na salada de grão escondida neste post e adaptei-a às favas. Cozi-as em vapor na panela de pressão e temperei-as com cebola roxa picadinha, coentros, azeite, vinagre, flor de sal e pimenta. E foi um ver se t´avias.

Conversas de vizinhas

Quero escrever no blog e dou por mim a repetir-me sobre os prazeres do meu éden. Por isso, poupo os meus caros leitores aos meus devaneios e vou directa ao assunto:
– E então, já tens courgettes?
– Ainda são pequenas.
– Olha, eu já não sei o que hei-de fazer às minhas. Toma lá umas quantas.
– Pois, temos que comer o que há. Quando a terra te dá courgettes…
– … tu fazes???
– Olha, faço “ketschup”!
– Ahn? Quero a receita.

Esta foi a surpresa de ontem, e não perdi tempo. Descasquei uma courgette gigante, retirei o meio, cujas sementes já estão demasiado duras para ignorar, seleccionei 750 gr e pus mão à obra. Gostei – adorei – o resultado e por isso partilho aqui convosco.
Refoguei a courgette com uma cebola em 4 colheres de sopa de azeite. Entretanto, pesei 100 gr de açúcar e medi 100 mL de vinagre de vinho. Limpei dois talos de lemongrass e cortei-os em quartos. Piquei 50 gr. de gengibre fresco e misturei tudo com mais duas colheres de chá de caril. Foi tudo para a panela de pressão. Enquanto ela não apitava, limpei dois ramos de manjericão e cortei-os aos pedacinhos. Peguei em 3 chillis, um de cada cor, e cortei-os muito fininho. Quando apitou, desliguei, abri a panela e retirei os talos de lemongrass. Juntei o manjericão e triturei tudo com a varinha mágica. Achei demasiado chilli, portanto fiquei-me pela metade. Juntei à massa amarela e deixei dar mais uma fervidela, mexendo sempre. I can´t get enough of it.

curgete – meatless monday

O que fazer com 3 curgetes de 2 kilos cada? Foi o que trouxe hoje do jardim, mais uma barrigada de cerejas.

Dei uma à minha vizinha da horta, ela deu-me ideias de como “esconder” a curgete das crianças e disse: “temos que comer o que há!”. É daquelas verdades. Mas eu hoje não quis esconder a nossa primeira curgete. Virei-lhe todos os holofotes, exacerbando a sua simplicidade. Cortei-a em fatias grossas e fritei-as em azeite. Depois, temperei com sumo de limão e flor de sal.

Na mesa: A minha filha mais velha diz que não quer com voz enjoada e a mais nova imita a irmã sem perceber sequer o que está a dizer. A refeição chega ao fim e apesar dos exagerados “mmm, que bom” que eu insisti em dizer, nada as demove. No fim, a minha filha quer sobremesa. “Sem teres acabado de comer tudo?!?!”. “Prova só, sabe a bife.”, “e podes por sal e limão”. Assentiu, pedindo a fatia mais pequena. Flor de sal. Limão. Comeu e eu perguntei: “Então, sabe a bife grelhado ou não sabe??”. Ela confirmou e pediu outra fatia, a maior. A minha filha mais nova disse: “I au, a maió!!”, e dei-lhe a outra fatia.  Mas, apesar da vontade de imitar a irmã mais velha, a fatia de curgete a saber a bife não entrou no portão, nem com a irmã a dizer “olha o aviãozinho”. 

Favas com chouriço

1. Favas

A Natureza é mãe. Hoje, ao regressarmos ao jardim, fomos recebidos de braços abertos. Favas, curgetes gigantes, mais groselhas, mais cerejas, mais framboesas, outros frutos silvestres que só aqui conheci. 

É das favas que falo hoje, e conto o conto desde o início. Ao planearmos o que semear, o meu marido perguntou-me: “e favas?”, “favas, achas que crescem aqui? Nunca as vi sequer à venda!”. Estava céptica. Ele tratou de investigar e encomendou as sementes. Acho que ele traz também consigo a saudade. Semeou-as em Abril e hoje foi o dia de colher os frutos. Apanhei um balde delas. Fui muita vez à fava com a minha Avó. Trazíamos sempre um balde para casa, que descascávamos no quintal e dava uma panelada de favas. Estas, descasquei-as com a minha filha mais nova, que me dizia: “Sou fóte!!” e abria a vagem, partindo-a entre as suas mãozinhas. E a cada vagem aberta, um ah! de surpresa pelas sementes que aí encontrava. “Um doix tex catu xinco”. E perguntava insistentemente se podia provar. “sim, prova, mas olha que cruas não prestam”. Uma dentada, uma careta. 

Cheguei a casa e dirigi-me ao fogão com o alguidar de favas e um ramo de cebolinho. Lavei-as, seleccionei duas mãos cheias das maiores a pensar já nas sementeiras do próximo ano e pus o resto na panela de pressão, que ficou a dois terços cheia. Reguei com um copo de água e um fio de azeite e temperei com sal, um dente de alho, o ramo de cebolinho e outro de salsa. Deixei dar um apito e desliguei.

2.  Chouriço

O chouriço deu-me a minha mãe e eu guardei religiosamente para a ocasião. Bom quase, que fui-lhe dando umas falhinhas com a minha filha mais velha. Descasquei-o, parti-o em pedaços e fritei-o. Reguei as favas com o chouriço. Isto é saudade. Sabe bem fazer aqui o que fazia em Portugal. Sabe melhor ainda comer o que semeámos. E a frescura é … sem palavras. Mas, ao provar, não senti aquele sabor bom das favas da minha Avó. Explico-o por ter estado a cozinhar e o meu olfacto se ter adaptado. Depois lembrei-me. “Ah, o açúcar!”. A minha Avó põe “açúcar” nas favas. 

Mais estórias do meu jardim

Queria começar por falar sobre o nosso jardim, mas não encontro palavras. Talvez se contextualizar o caro leitor, a inspiração flua. Estão 30 graus à noite, troveja e, na televisão, passa um programa sobre LSD. Descrevem experiências de alucinações. E ao pensar como hei-de descrever o que se está a passar no jardim, no auge da primavera, não posso deixar de estabelecer um paralelo entre as alucinações de formas e cores que descrevem na TV e a explosão de cores, cheiros, sabores e formas confinados naquele quintal de poucos metros quadrados. Se no jardim tenho cogumelos psicadélicos? Não. E se o jardim é o meu LSD? Também não, claro que não. Mas se alguém anda a pensar ou a dar em drogas – legais ou ilegais –  só tenho isto a dizer:  – deixa-te de tretas e dedica-te à jardinagem. É que para além da parte das alucinações, há também o efeito terapêutico de “arrancar o mal pela raíz“, quando  se trata das ervas daninhas e a recompensa que é, literalmente, “colher os frutos do teu trabalho“. Tenho andado a trazer morangos e ruibarbo, ruibarbo e morangos. Então, fiz compota de ruibarbo e morango, receita da minha sogra. Um terço de ruibarbo, dois terços de morango e um terço do peso em açúcar gelificante são os ingredientes. Lava-se a fruta, tiram-se os pés aos morangos e corta-se o ruibarbo em pequenos troços. Misturam-se os ingredientes, e deixa-se a fruta a macerar no açúcar durante cerca de meia hora ou até criar líquido. Depois, leva-se  a lume médio, mexendo sempre até levantar fervura. Depois de levantar fervura, mexer durante mais um minuto, conforme as instruções do pacote de açúcar, e apagar o lume. Distribuir por frascos esterilizados com tampa de enroscar, fechá-los e dar-lhes a volta à cabeça para criar vácuo. Também fiz compota de morango com tomilho – same procedure as before. E agora tenho groselhas brilhantes que parecem rubis – não, não estou a alucinar – e ando a pensar o que hei-de fazer. Quem tem ideias?

 

A primavera é um fogo de artifício

1. Hoje é meatless monday e como tal trago uma receita vegetariana, com espargos,  que está no tempo deles. É tão simples que se descreve em três passos: Faça um molho de tomate em azeite com salsa e cebola; dê uma fervura aos espargos até atingirem o ponto; numa travessa, distribua o molho de tomate pelos espargos. Para concluir, diz a minha mãe que em tempo de tomate não há más cozinheiras, e eu acrescento, em tempo de espargos. 

Imagem

2. Para os meus queridos leitores, não tenho segredos nestas questões e confesso: hoje a minha monday não foi nada meatless. Quando cheguei a casa com as crianças, estava já o meu marido na cozinha e disse-me: hoje fazemos bifanas, ok? Concordei, claro, que a minha carne é fraca, um jantar de bifanas sabe bem e traz-me boas memórias de Portugal. Inventei uma marinada com vinagre, alho, sal, pimenta e pimentão doce, mas a receita precisa de afinar. Entalei a carne no papo-seco e gostaram os adultos e as crianças.

3. O nosso jardim floresce. Parece um fogo de artificio de cores, cheiros… Hoje, explodem as tulipas, amanhã as rosas, e depois outras flores de que nem sei o nome, mas que me agrado por não ter confundido com ervas daninhas antes do florescer. As favas estão também em flor, as cenouras já dão sinal de vida (mas quem sabe o que se passa por baixo da terra), as cerejas estão verdes e as maçãs já despontaram. Mas hoje foi o dia de apanhar os espinafres, antes que espigassem. Foram duas linhas de cerca de 3 metros cada, que deram em folhas de espinafre cerca de 1,5 kg. Em casa, preparei-os para congelar: dei uma fervura em vapor para os murchar e congelar. Foram quatro panelas de pressão de 4,5 L em serie. 150 mL de água, encher com espinafre até acima, deixar ferver, abrir a panela, tirar os espinafres e coar. Repetir a sequência. No fim, os espinafres reduziram-se a um terço do seu  tamanho mas perderam apenas 10% do seu peso, que foram os 300 mL de caldo que daí resultou e aos quais se deverá retirar os 150 mL de água que juntei inicialmente. Congelei metade e com os outros 675 gr farei amanhã um esparregado, fritando dois ou três dentes de alho em azeite, depois vem o espinafre e um gole de leite. Deixo fervilhar e tempero com sal, pimenta e noz moscada…

Aqui há peixe

Aqui na Prússia também há bacalhau. Compro-o fresco congelado. Se os prussianos pudessem caracterizar esta receita, chamar-lhe-iam “peixe à mediterrâneo”. Para mim, os pratos mediterrâneos são diferentes e este é apenas peixe com legumes. Refoguei curgete em azeite, com cebola e pimentos vermelhos numa frigideira. Noutra, fritei a posta congelada do bacalhau – este foi um prato espontâneo, sem tempo de descongelar o peixe – em azeite, até ficar dourado por fora e suave por dentro. Acompanhei com pão numa refeição solitária que me fez indagar o porquê de peixe+curgete=mediterrâneo na linguagem prussiana. Fiquei sem resposta mas apreciei o prato que, no fundo, acaba sempre por me levar a Portugal.

Aqui há carne (I)

O nosso carneiro de domingo de Páscoa foi frango assado no forno. Tenho que confessar: refeições sem carne ou sem peixe têm escasseado na nossa mesa. E por uma boa razão. De todos os modos, frango assado é o prato favorito das minhas princesas. A minha filha mais velha (ou maior, como ela faz questão de frisar. “Eu não sou “véi-a”, mamã,”) pede a pernoca do bicho, embrulha o osso visível em guardanapo e delicia-se a morder a carne. A minha filha mais nova, diz-me “I-au”, que traduzindo de “bebês” para Alemão para Português, significa: “eu também”. E esta receita de frango é mesmo para comer à mão e molhar muito pão no molho. E lamber os dedos a seguir. Sim, uma decadência. Das boas. 

Comecei por ligar o forno a 200 graus. Depois, fiz o molho que iria temperar o frango. Misturei sal e pimenta com azeite, oregãos e pimentão doce. Pincelei o frango. Cortei em oitavos quatro cebolas. Pus o frango num tabuleiro pincelado com azeite e distribui um limão também em oitavos, guardando duas partes do citrino dentro do frango. Reguei com cerveja. Foi ao forno. Meia hora passada, virei o frango e juntei as cebolas, dentes de alho com e sem camisa, e batatas cortadas em longitude. Mais meia hora, e foi para a mesa. As batatas revelaram-se supérfluas. O ponto máximo da decadência atinge-se apenas com o frango e o pão no molho. Bom, a minha filha deu um passo ainda mais à frente e quis comer o molho à colher. 

Uma mensagem de parabéns

Querida Moira,

É verdade que tenho andado um pouco afastada da blogosfera e em modo “atitude passiva”. Mas o aniversário do Tertúlia em boa hora me fez arrancar do “sofá” da passividade e abraçar este desafio. Que iria participar não tinha dúvidas, mas confesso que eu própria me rodeei de obstáculos imaginários. Um deles, foi o bem conhecido argumento “Não sei enrolar tortas.” Mas os obstáculos servem para ser contornados ou ultrapassados, então foi com prazer que este serão, depois das pequenotas irem para a cama, me dirigi ao forno para fazer uma torta.

Já tinha tudo preparado. Receita estudada e ingredientes a postos. Coincidindo a data com uma meatless monday, faria uma torta vegetariana, salgada, inspirada numa receita de um livro vegetariano. Nada poderia falhar.  Há anos que marquei esta receita e, ao pensar que finalmente a conseguiria por em prática, senti um certo prazer. Abro o livro na bancada na página indicada, giro 180º sob mim própria, vou ao meu caderno de receitas, e abro na página: “Torta de laranja da Avó”. Não sei o que me fez fazer isto, mas acho que tal como tudo o que tem que acontecer, acontece, também o que tem que não acontecer, não acontecerá. Ficam assim, a receita e sua marca, presas entre as folhas de um livro vegetariano espanhol por mais uma outra eternidade.

Comecei por ligar o forno a 150º e forrei uma forma redonda, porque não tenho nenhuma rectangular pequena, com papel vegetal. A receita original pedia 8 ovos, mas tendo apenas cinco, escalei a receita usando o olhómetro, De 450 de açúcar (integral) pus apenas 200, de 2 colheres de sopa de farinha, pus apenas 1 e meia e pus o sumo e raspa de uma laranja, tal como pedia a receita original. Bati os ovos, adicionei o açúcar misturado com a farinha e continuei a bater e, finalmente, juntei o sumo e raspa da laranja. Levei ao forno durante cerca de 20 minutos. Depois, estendi um pano húmido na bancada, retirei a massa da forma, mantendo o papel vegetal, e pu-la por cima do pano, calcei as luvas-pega do forno e comecei a enrolar. Desta vez sem partir. Afinal, não foi assim tão difícil.

Querida Moira, espero que gostes desta torta. Eu adorei participar. Confesso que já sentia saudades de um desafio.  Ao Tertúlia e a ti, um grande beijinho de parabéns pelo sexto aniversário. O Tertúlia, foi um dos primeiros food blogs que conheci. O primeiro foi o Ardeu a Padaria em 2004 e depois o teu e o da Pipoka.  :)

Um grande beijinho vindo do frio da Prússia.

PS1: reparo agora que já houve várias participações com tortas de laranja. Agora mais uma! ;). PS2: os 200 gr de açúcar podem ser ainda mais reduzidos. A torta ficou tão doce que me fez pensar que os 450 gr que a receita original dita não são mais que o erro tipográfico.

DSC_0024