The white Tiger

São poucos os livros que me prendem. Na verdade, cada vez menos. Na minha infância, qualquer livro de aventuras ou de banda desenhada me fazia viajar sentada no sofá. Hoje, a maior parte dos livros que leio são o meu soporífero. Viajo, sim, mas para o mundo dos sonhos.

Numa viagem a Londres, comprei este romance de Aravind Adiga e, no vôo de regresso, não estava sentada num lugarzinho apertado de um avião  low cost, mas totalmente submersa na estória do Tigre Branco. Gosto de livros assim, que me acompanham quando os não leio. Gosto quando os seus personagens entram no meu dia a a dia e caminham comigo lado a lado. Compram comigo o jornal e dizem-me o que devo fazer para o jantar. Gosto desta ilusão de misturar a realidade com a ficção, de ir até ao limite e pisar a fronteira, deixando os personagens entrar no meu dia a dia.  E gosto de entrar eu, por vezes, na sua pele.

Por este livro ser tudo isso, decidi convidar espontaneamente o seu autor para jantar. Não conhecendo a sua casta ou religião, não tinha ideia de quais os seus hábitos alimentares. Então decidi fazer legumes aromatizados com bela luísa e acompanhados com esparguete. Salteei tirinhas de pimento vermelho, cebola roxa e alho francês em azeite e juntei uns raminhos de bela luísa. Expliquei-lhe por que me tinha decidido por uma refeição vegetariana e ele riu-se. Depois perguntei-lhe se aquele expressão de “half-baked” era mesmo verdadeira. E até que ponto o setting do seu romance era real. No final da refeição, dirigiu-se à estante onde estão os livros e comentou que não encontrava ali a razão pela qual tinha sido convidado. “Emprestei-o”, expliquei-lhe, “tal como faço com todos os meus livros preferidos…”. Ele voltou a rir-se e disse-me: “Fizeste bem. Assim puseste o meu livro em viagem e não o deixaste morrer empoeirado numa estante.” Torci o nariz à parte do empoeirado, mas gostei da sua visão positiva. Se há objectos com personalidade, com alma e sem dono, são os livros. São eles os meus mestres, que comandam o meu pensamento enquanto os leio. Assim, há que deixá-los seguir o seu caminho e cumprirem o seu karma.

Assim participo na edição de Maio/Junho do CPJ, desta vez na cozinha da Carla.

Um prato de cogumelos e os telhados da Prússia

Há dias assim: acordei a meio do meu sono de beleza, graças à minha princesa da Prússia, que me arrastou para um pequeno almoço antes do seu tempo. Tentei jogar  o jogo do silêncio, mas ela não gostou lá muito da regra essencial: quem falar, perde. E eu, ao pequeno almoço, preciso do meu silêncio. Para mim, o pequeno almoço é o prolongamento do sono. O cérebro continua a dormir e eu arrasto o corpo para a minha chávena de café. Gosto de tomá-la sem conversa, sem decisões, sem pressa. Não foi o caso.

E o almoço não correu melhor: fiz uma omelete de cebola e azeitonas, boa, mas a confecção foi um desastre, com direito a ovos no chão e cozinha de pernas para o ar. Decidi fazer a sesta. Boa decisão. No café, depois,  pedi um paraíso na terra (hei-de pôr aqui a receita). Má decisão… Sentada na esplanada aproveitando o sol, pensei que agora, só mesmo ao pôr do sol me poderia reconciliar com a noite, já que o dia…

Pensei no que me apeteceria comer para dar a volta a este dia. Pensei. Veio-me à memória os bolinhos de batata num prato de cogumelos que a Suzana trouxe a uma festa do reino da Prússia.

E foi mesmo isso. Olhei os céus mutantes lá fora, rasgados por telhados, chaminés e antenas, e propus-me a seguir a receita. Abri o frigorífico e reparei num resto de chucrute com puré de batata. Era mesmo assim que iria fazer os bolinhos da Suzana.

Deixei fervilhar o puré com o chucrute, juntando um alho como diz a receita. Entretanto, cortei os cogumelos  e uma cebola. Voltei ao puré: verifiquei a consistência e juntei alguma farinha para poder formar bolinhos. Aqueci azeite numa frigideira anti aderente e fui colocando os bolinhos, até alourarem. Quando ficaram prontos, fritei a cebola na mesma frigideira e, já transparente, juntei os cogumelos. Temperei com sal e oregãos. Servi com uma salada do meu Chef.

E assim me conciliaria com os céus mutantes, rasgados, não fosse a minha filha estar constantemente a perguntar-me: “óh mãe, onde está a Cinderella? Posso ver a Cinderella??” Foi assim que decidi, à última, que haveria de trazê-la para jantar. Com sorte, a Gata Borralheira oferecer-se-ia para lavar a loiça… Mas, infelizmente, não. Fez as alegrias da minha filha e abalou no seu coche para um palácio qualquer num mundo das nuvens. E assim acabou direito um dia do avesso…

Onde estás, Lua?

Foi alegre que hoje voltei a tirar a bicicleta da garagem. A neve desapareceu na noite e, ao amanhecer, um Sol de 6 graus brilhava num céu azul. Ao regressarmos a casa, com uma leve brisa de lusco fusco, e um céu onde começavam a chegar as primeiras estrelas, a minha filha perguntou-me: “mamã, on’e xtá a Lua”, “está ali, no céu, amor”, respondi, apontando para o satélite. “on’e xtá? on’e xtá?”, entre árvores e casas, a Lua cheia brincava connosco às escondidas. “Onde estás, Lua? Luuuuaaaa!! Onde estás?”, chamei, “Luuuuaaa, ‘xtamos ‘qui”, reforçou a minha filha, “a’na cá!!”. Ao avistar a Lua a espreitar por detrás de um prédio, disse: ” ’tá ‘qui, Lua, Lua bola, né mamã?”, “A Lua está cheia, amor, fica assim com a forma de uma bola”. E ao chegarmos a casa, a minha filha despediu-se da sua nova amiguinha de rua. “Casa ’tá aqui, adeus Lua!…”, “Até amanhã, Lua”, disse eu. A Lua banhou-nos com o seu luar e trouxemos para casa a brisa da Primavera. Que inspirou o jantar.

Cortei 3 batatas grandes em cruz e às fatias fininhas e pus numa frigideira com azeite. Cortei uma cebola aos cubinhos e meio pimento vermelho às tirinhas. Juntei e mexi tudo. Cortei meia curgete aos cubinhos e voltei a misturar. Temperei com sal, oregãos e sementes de coentro. Juntei um gole de água, baixei o lume e tapei. Ao fim de 5 minutos, as batatas estavam cozinhadas. Pus num prato de servir e voltei a por mais um fio de azeite na frigideira. Juntei algumas amêndoas picadas (inspirada pela Filipa) e meia dúzia de tomate-cereja. Fui agitando a frigideira até as amêndoas dourarem uniformemente. Misturei com os legumes, levei à mesa e disse à minha filha: “vamos para a mesa, querida, hoje a primavera vem jantar.”