Sonhos para a Maria

Maria:

Ainda que silenciosamente, tenho seguido as tuas aventuras (e do gato) na conquista dos teus sonhos. Confesso que desde que conheci o Take us to Bruges que achei admirável como deste vida a este teu sonho aqui na blogosfera, e como conseguiste atingir o desprendimento suficiente para ficares longe da tua família e deixares os teus bens para trás. Agora em Timor, as aventuras deverão ser outras. Especialmente na cozinha, com tal limitação de ingredientes e utensílios. Quando vi o (verdadeiro) desafio  que a Moira lançou, decidi sair do silêncio e dizer-te o que faria eu para o jantar se estivesse no teu lugar. E o que eu fiz foi frango de fricassé (receita da minha avó) e sonhos de abóbora.

Comecei pelo frango: cozi o frango em água e sal (se tiveres condimentos e ervas aromáticas, junta a gosto), deixando ferver cerca de 10 minutos. Depois fiz um refogado com uma cebola e um dente de alho, fritando primeiro o alho e juntando a cebola a seguir. Quando a cebola ficou transparente, juntei o frango desfiado e deixei alourar. À parte, bati um ovo e juntei sumo de meio limão e um pouco do caldo onde o frango cozeu. Mexi bem. Quando o frango já estava bem lourinho, desliguei o lume e juntei em fio o ovo com o limão, misturando bem ao frango. Se tiveres salsa, podes juntar ao frango na hora de servir. E para acompanhar o frango, fiz arroz  com o caldo onde a ave cozeu. Juntei uma chávena de arroz a duas de caldo e deixei cozinhar em panela tapada até a água ter evaporado.

E os sonhos fiz assim: misturei uma chávena de farinha, uma pitada de fermento, um ovo, uma chávena de abóbora cozida, escorrida e esmagada com um garfo, duas colheres de sopa de  açúcar e canela qb. Misturei tudo. Pus óleo a aquecer num tacho e deitei colheradas de massa quando o óleo ficou bem quente. Em lume médio, deixei os sonhos virem ao de cima e dourarem. Depois passei por açúcar e canela. Ficaram leves e fofinhos como se nuvens fossem…

Maria, espero que estas receitas (e todas as outras que vão chegando ao Tertúlia) te agradem e te inspirem na hora de fazer o jantar! Boa estadia em Timor!

Sofia

PS: Ao escorrer a abóbora para os sonhos, lembrei-me que talvez não tenhas um escorredor. Nesse caso, podes colocar a abóbora cozida no meio de um pano de cozinha fininho, atar e pendurar, por exemplo, na torneira do lavatório na cozinha.

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Massacre na neve

Hoje, dia de Reis, a romã é Rainha. Sempre tive um fascínio por este fruto, com sua coroa no topo e recheado de rubis de carne saborosa, sumarenta. E no dia de Reis, faço questão de comer uma romã, conforme a tradição que se celebra na casa dos meus avós. Retirei uma cinta da pele da romã a toda a sua volta. Comecei a cortar em volta da coroa. Puxei-a, tentado arrastar três bagos, que simbolizam a saúde, a paz e o amor. Veio apenas um agarrado, então tirei eu dois bagos e coloquei-os na coroa, pensando para com o destino que, se ele não nos bafeja com a sorte, somos nós a bafejar a própria sorte no nosso destino. Voltei a cortar uma cinta a toda a volta da romã, mas desfazada em 90 graus da que já tinha feito. Abri a romã, concentrada no próximo passo da tradição, que dita não se poder deixar cair nenhum bago para o chão para garantir que o vil metal chegue a casa durante todo o ano. Dividi em cachos, com alguma ginástica apanhando com a palma da mão, os bagos a quererem soltar-se. Até agora, tudo bem. Dei um cachinho ao meu marido e outro à minha filha e disse-lhe que comesse a romã, fruto que ela adora, sem deixar cair nenhum bago. Vi-a começar a retirar com cuidado os baguinhos para o prato e concentrei-me no meu cacho, tentando apanhar os bagos que teimavam em saltar, como se tivessem um trampolim nos pés. Quando voltei a olhar para a minha filha, a maior parte dos bagos estavam no seu prato (é melhor não referir os outros…)  e ela estava a regar a romã com o seu sumo de maçã e a explicar-me algo numa linguagem que ainda não domino. Talvez me explicasse a supremacia da combinação romã-maçã. Ou então que as tradições… enfim, talvez não precisem ser sempre seguidas.

E para quem não quiser seguir esta tradição, deixo uma sobremesa com o fruto Rainha para o dia de Reis. O nome é de uma sobremesa da Nigella e esta receita é adaptação minha de incontáveis receitas que li e fiz de cheesecake. Triturei umas bolachinhas de Natal já duras com um nico de manteiga, até ficar uma mistura coesa e distribui esta massa pela base de uma forma de 18 cm. Por cima desta base, pus um creme de chocolate, que fiz derretendo alguns quadradinhos de chocolate em leite e juntando algum açúcar e cacau. Sobre este creme, não tenho quantidades precisas. Se o caro leitor não quiser seguir o seu instinto, pode usar uma qualquer receita de ganache de chocolate, ou simplesmente suprimir este passo. Depois, bati 250 g de mascarpone com o sumo e polpa de uma laranja e 4 colheres de sopa de açúcar, usando a máquina com o gancho para bater claras em castelo. Por fim, dispus este creme em cima da base de bolacha e espalhei baguinhos de romã por cima do creme de mascarpone. Para simular o massacre, pressionei uns quantos baguinhos entre o polegar e o indicador, deixando o sumo púrpura macular este creme branco, a evocar a neve lá fora.

E agora vou para a cozinha fazer estas bolachinhas-estrela da Pipoka, para que os Reis Magos saibam que astro devem seguir!

O almoço de Natal…

… foi feito com as sobras da noite de consoada. Tinha batatas com alho, tomate cherry assado com azeite e temperado com coentros, tinha carne com molho, muito molho, e tinha a crosta verde. Faltava, mesmo com esta crosta, mais verde. Comecei por suar um zucchini e os floretes de meio bróculo numa frigideira com um pequeno gole de água e só por 5 minutos. Numa forma de barro redonda, fiz uma cama com as fatias de batata e os alhos despidos de sua camisa. Dispus o zucchini, os bróculos e pouco tomate que sobrou por cima das batatas. Depois, foi a carne, cortada em pequenos pedacinhos, para esta cama verde. Reguei agora tudo com o seu consistente molho de legumes e espalhei a crosta verde por cima, qual um crumble verde. Foi ao forno por cerca de 15 minutos a 180 graus, até a crosta dourar e foi para a mesa. E soube tão bem prolongar desta maneira o jantar de consoada para o dia de Natal!

Correr atrás do tempo…

…é coisa que desisti de fazer, porque é uma batalha perdida. Não tenho hipótese: hei-de sempre estar atrasada. Já me conformei com este meu predicado e o meu maior desejo é que os meus amigos assim continuem mesmo quando têm que esperar mais “uns minutos” por mim. Mas parece-me que não há nada a fazer. As minhas tentativas de acelerar o meu ritmo de vida foram todas falhadas. Habituei-me a pensar que tenho simplesmente um tique mais longo e demorado do que seria normal. E depois penso no reverso da medalha: se o meu ritmo é mais lento, significa que demoro mais tempo a envelhecer, não é? 😉

Isto tudo para dizer que os meus postais de Natal continuam na prateleira. A alguns só falta o código postal, a outros o selo e a mais alguns falta um pouco mais. À interrogação do meu marido, se ainda os mandaria para o Natal deste ano, disse que sim, que quando chegam entre o Natal e o Ano Novo, está bem. Mas desta vez…. o correio vai ter que esperar mais um bocadinho. Mas a sorte é que posso mandar à velocidade “do electrão” os meus votos.

Envio a todos vós, os meus sinceros desejos que o Natal tenha sido delicioso e que o Ano Novo seja próspero!

Lá fora, o Natal vestiu branco…

…mas cá dentro, o Natal fez-se de vermelho de calor, de magia e de desejos, fez-se de verde de pinheiro e de saudade. E fez-se de esperança, de felicidade e de descoberta.

Mas decidir o que comporia o jantar de consoada não foi assim tão fácil. O meu marido queria rouladen, eu queria uma receita nova. Depois de alguns argumentos e contra-argumentos, decidimo-nos por carne assada no forno com crosta verde e com batatas no forno. E foi um trabalho a quatro mãos. Era uma peça de carne para assar, com 1 kg. O meu marido selou-a em azeite bem quente e em todos os seus recantos e reservou. Na mesma gordura, refogou cebola com cenoura e alho francês, regou com vinho branco, temperou e deixou cozinhar. Entretanto eu fiz a crosta verde assim: desfolhei três raminhos de tomilho e dois de alecrim, juntei um ramo de salsa, um cebolo, uma fatia de pão duro, 100 gr de manteiga, sal e pimenta. Triturei tudo e juntei azeite até ligar bem. Entretanto já o forno estava a 200 graus e lá estava já a panela, tapada, com os legumes e outra vez com a carne. O meu marido espalhou a crosta em papel próprio para ir ao forno, numa área equivalente à área da carne que queria cobrir e reservou no frigorífico.

Eu comecei a tratar das batatas: descasquei-as e cortei em fatias, não deixando que perdessem a sua forma de batata. Pus numa forma de barro, reguei com azeite, salpiquei com sal e dispersei cerca de 12 dentes de alho com camisa entre uma batata e outra. Entretanto, reparo que o meu marido espreitava por detrás do meu ombro. Apesar de ser um jantar a quatro mãos, foi também por turnos, pois o meu marido já sabe bem o que penso, e o perigo que pode ser, quando alguém abre a porta da minha cozinha. E mesmo sabendo, não se coíbiu e, além de me espreitar por trás do ombro, ainda me disse que eu deveria deixar algum espaço entre as fatias de batata, para que cozinhassem melhor. Eu olhei para o bidente que estava na bancada, olhei para ele, peguei no bidente e dirigi-o às batatas para seguir a sua sugestão, picando e movimentando cada fatia de batata para a esquerda e direita para deixar circular algum ar pelas fatias, e disse-lhe que tinha razão. Bom, a sua sorte é ser assim, tão irresistível!… e a sugestão foi importante, caso contrário, as batatas demorariam muito mais que a hora que precisaram!  Com a carne no forno já há uma hora, juntei a forma de barro com as  batatas. A partir dos 15 minutos, comecei a regar as batatas com o seu próprio azeite.

Quarenta e cinco minutos depois, o meu marido retirou a panela com a carne e colocou-lhe a crosta por cima (o que não foi tarefa tão fácil, apesar de ter já a forma desejada), e eu pus em duas pequenas forminhas de barro, cerca de 10 tomate-cereja regados com azeite e flor de sal. E eu continuei a regar as batatas com o seu azeite. Já com a carne há duas horas a assar, desligámos o forno. O meu marido pôs a carne na travessa, triturou os legumes, rectificou os temperos, voltou a provar e a rectificar.

Levámos à mesa este jantar de consoada, acendemos as velas e deixámo-nos levar pelo  momento de uma noite muito especial e muito feliz, apesar de  faltarem algumas das nossas pessoas, umas por não estarem aqui, outras por já não serem agora. Mas essas e aquelas, fazem falta a qualquer dia, não só na noite de consoada.

Nota 1: a receita da carne foi adaptada de um receita de rosbife de uma compilação da Landlust, de onde também retirei a receita das batatas.

Nota 2: desta vez, até tinha algumas fotos interessantes sobre o jantar mas perderam-se no caminho entre um copy e um past. Peço desculpa aos meus queridos leitores e que apelem à vossa fantasia – e não é o natal uma época de fantasia e magia?

Chocolate quente para o frio

Como se distingue um prusso de um russo, quando as suas cabeleiras são ambas russas?

Um prusso, aos -4 º C, põe uma carapuça. Um russo não põe carapuça, abanando a cabeleira russa! E esta lusa que vos fala, enfia literalmente duas carapuças. Mas uma delas, enfiei-a ao próprio frio! Isto, fazendo um chocolate quente, adaptado da Laranjinha.

Num pequeno almoço longo de Sábado, sem vontade de café nem chá, decidi fazer chocolate quente e espesso. E decidi não adiar mais o inevitável, fazendo esta receita da Laranjinha que, quando vi, soube que tinha que fazer! Mas adaptei, porque era de manhã e não me apetecia começar o dia com um gole de conhaque e piripiri, mesmo que escondido no chocolate.


Comecei aquecer o 200 mL de leite, aromatizado com açúcar baunilhado, cardamomo, canela e uma pitada de noz moscada. Ao levantar fervura, baixei a temperatura do bico do fogão e juntei 50 gramas de chocolate negro com 85% de cacau, partido em pedacinhos. Mexi até incorporar bem e deixei cozinhar mais um pouco, mexendo sempre. Pus numa chávena, e antevendo um dia enérgico, juntei uma colher de sopa de leite em espuma e um shot de espresso. E ficou delicioso! O meu marido, que rejeitou a ideia de chocolate quente, provou e disse que sabia a Natal.