Mais estórias do meu jardim

Queria começar por falar sobre o nosso jardim, mas não encontro palavras. Talvez se contextualizar o caro leitor, a inspiração flua. Estão 30 graus à noite, troveja e, na televisão, passa um programa sobre LSD. Descrevem experiências de alucinações. E ao pensar como hei-de descrever o que se está a passar no jardim, no auge da primavera, não posso deixar de estabelecer um paralelo entre as alucinações de formas e cores que descrevem na TV e a explosão de cores, cheiros, sabores e formas confinados naquele quintal de poucos metros quadrados. Se no jardim tenho cogumelos psicadélicos? Não. E se o jardim é o meu LSD? Também não, claro que não. Mas se alguém anda a pensar ou a dar em drogas – legais ou ilegais –  só tenho isto a dizer:  – deixa-te de tretas e dedica-te à jardinagem. É que para além da parte das alucinações, há também o efeito terapêutico de “arrancar o mal pela raíz“, quando  se trata das ervas daninhas e a recompensa que é, literalmente, “colher os frutos do teu trabalho“. Tenho andado a trazer morangos e ruibarbo, ruibarbo e morangos. Então, fiz compota de ruibarbo e morango, receita da minha sogra. Um terço de ruibarbo, dois terços de morango e um terço do peso em açúcar gelificante são os ingredientes. Lava-se a fruta, tiram-se os pés aos morangos e corta-se o ruibarbo em pequenos troços. Misturam-se os ingredientes, e deixa-se a fruta a macerar no açúcar durante cerca de meia hora ou até criar líquido. Depois, leva-se  a lume médio, mexendo sempre até levantar fervura. Depois de levantar fervura, mexer durante mais um minuto, conforme as instruções do pacote de açúcar, e apagar o lume. Distribuir por frascos esterilizados com tampa de enroscar, fechá-los e dar-lhes a volta à cabeça para criar vácuo. Também fiz compota de morango com tomilho – same procedure as before. E agora tenho groselhas brilhantes que parecem rubis – não, não estou a alucinar – e ando a pensar o que hei-de fazer. Quem tem ideias?

 

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(*Meatless Monday*) na fava

1. Semeámos favas no jardim comunitário. Na comunidade prussiana, esta vagem gerou burburinho. Tal, que nos chegou aos ouvidos que as nossas favas eram soja! Ighh! <Rewind>:  ontem, foi o dia de colher os primeiros frutos e foi com alegria que trouxemos para casa uma (pequena) mão cheia destas vagens que são viagens a Portugal.

Mas, neste caso, traçou o meu marido um caminho imaginário até à Índia com a fava. Tendo sido ele mais rápido que eu, cheguei a tempo apenas de rectificar os temperos e era então tarde demais. Consumara-se a heresia. Lá estavam as minhas pequenas favas, desfeitas, entre batatas e caril.

Acreditando numa certa transmissão do meu pensamento até às suas acções, enquanto ele cozinhava, alinhei-me mentalmente na fava e na cozinha e previ um alho frito em azeite, as favas ali suadas e temperadas com hortelã e rama de cebola. Saíu uma carilada e, rompendo com as minhas expectativas, estava boa.

2. Não consigo contornar esta minha compulsão em fazer experiências culinárias quando temos convidados. Da última vez, decidi fazer “falafel“. Sem receita.

Demolhei grão, cozi-o sob pressão, juntei caril e sementes de coentros. Triturei e juntei farinha até ficar com a consistência de argamassa. Fiz bolinhas do tamanho de nozes, panei em mais farinha e fritei em azeite quente. A primeira dose ficou em papa. A segunda, murcha. À terceira viagem, desisti da frigideira e pus as bolinhas no forno.

A emenda foi melhor que o soneto, mas longe do resultado que esperava. Servi com quark temperado com sal, pimenta, ervas aromáticas frescas e sumo de limão. “Estão murchas mas saborosas”, foi a apreciação final.

No dia seguinte, fui à biblioteca e trouxe um livro com receitas do mundo e lá estava o falafel que, nessa receita, era feito com grão demolhado, cru e triturado. Não sei se arriscarei esta versão.

3. E, finalmente, a sobremesa: durante o fim de semana, fiz com as minhas princesas um crumble de ruibarbo. Elas trataram da massa e eu do ruibarbo. Cortei-o em troços e cozinhei-o com três colheres de açúcar integral e um gole de extracto de baunilha, que não é mais que uma vagem raspada e fechada num frasco de vodka por um mês no escuro. Servi com iogurte de baunilha.

E foi assim que se fez hoje o meatless monday, recheado de desastres, onde até a própria fava foi à fava mas salvou-se milagrosamente a sobremesa.

Gelado de ruibarbo

Quando comprei ruibarbo pela primeira vez nesta primavera, sabia que não era para fazer um bolo. Saber o que não se quer é para mim tão importante como saber o que se quer. Esta negação do bolo veio da necessidade de experimentar algo novo, de sair da minha “rota do ruibarbo” habitual. Foi ao sair do supermercado e sentir um sol bom e quentinho, que decidi fazer um gelado. A ideia de experimentar fazer gelados já andava em órbita há algum tempo, e este era o enlace ideal. Fui ao Pantagruel. Escolhi a receita de sherbet de limão por me parecer a mais simples, mas fiz as minhas alterações. Comecei por deixar 450 gr de ruibarbo já descascado e cortado em troços em 140 gr de açúcar. 2 horas depois, tinha-se formado um líquido guloso e pus tudo em lume brando durante 15 minutos. Entretanto, bati três ovos com 10 gr de açúcar baunilhado. Misturei os ovos com 500gr de iogurte e, finalmente, adicionei a compota de ruibarbo. Misturei bem e levei ao congelador. Também ao congelador levei uma vara de arames, como aconselha o Pantagruel, se bem que este livro aconselha as varas de arames de uma batedeira eléctrica. Passou-se uma hora e fui bater o meu gelado. Ainda não tinha adquirido consistência. Então decidi esperar pela manhã seguinte. Estava duro como pedra e rendi-me à batedeira eléctrica que, depois de alguma luta, o bateu e transformou num gelado cremoso, apesar de se notarem algumas pequenas falhas de gelo. Mas ficou muito saboroso e vou voltar a experimentar a receita, batendo o gelado – com a batedeira eléctrica – de hora a hora.

A importância da comunicação no casal

Voltámos a comprar ruibarbo no mercado. Quando cheguei a casa, preparei-me para descascar e cortar em troços este vegetal da terra do sol nascente. Ao ver-me com um quilo de talos rosa no colo, o meu marido mostrou satisfação e perguntou como é que ia fazer o bolo. Perante as minhas dúvidas e indecisões, sugeriu um curto telefonema à sua mãe a pedir outra receita de bolo de ruibarbo. Acedi e tentei seguir a conversa telefónica nos primeiros minutos, mas quando vi o meu marido a escrevinhar no bloco de notas, desliguei-me da comunicação em prussiano que, de todos os modos, estava a passar por mim a uma certa distância. Quando todo o ruibarbo ficou em pequeninos troços de 1 cm, juntei 2 colheres de sopa de açúcar, meia dúzia de morangos e deixei repousar durante a noite.

No dia seguinte, pus a cozinhar em lume brando o ruibarbo e os morangos na água produzida pela reacção do açúcar. Entretanto, abri o caderno onde estava a receita da sogra e pensei: “ai… acho que conseguiria perceber melhor uma receita passada à mão por um médico egípcio! como é que vou sair desta?”. Chamei pelo meu marido, que me respondeu algo da outra ponta da casa cujo conteúdo linguístico não consegui decifrar, mas cujo conteúdo para-linguístico, tendo em conta o choro de bebé em ruído de fundo, era claro e traduzir-se-ia em algo como: “ai… agora nããããõoooo!…” . A minha voz interior disse-me que o que tem que ser, sê-lo-á, então arregacei as mangas e dispus-me a analisar os materiais e métodos da receita.

Um traço horizontal dividia a folha onde estava a receita da sogra. Acima deste equador, alguns ingredientes intercalados por palavras chave e, abaixo, 4 ingredientes e um título formavam o quebra cabeças daquela tarde de sábado.

Ignorei os elementos que à partida não consegui decifrar e concentrei-me nos elementos mais claros da lista. Então, na “lista norte” tínhamos: ovos e açúcar, 1/4 L de natas, uma palavra concerteza chave que não me dirigiu palavra à primeira, continuei, 2 colheres de sopa de … quê? …, continuei, e o fim da lista “Norte” era raspa de limão.

Desci para a lista “Sul”, onde claramente li o verbo “juntar” e pensei: “finalmente, temos a acção deste problema culinário! Será “juntar” a lista norte com a lista sul?”. O processo de investigação e decifração ainda não tinha terminado, então guardei a pergunta para mais tarde. A seguir ao verbo, deparei-me com o subtítulo que era “massa de …. de …”  de quê? passei ao próximo ponto e, a partir daqui, a lista de ingredientes era clara: 200gr de farinha, 100gr de manteiga, açúcar, 2 ovos. Tinha então a receita para uma massa cujo conteúdo conhecia e nome desconhecia. Ingenuamente, pensei: “sabendo o conteúdo, o que interessa o nome?”. Pus mãos à obra: juntei 200 gr de farinha de trigo a 100 gr de manteiga amolecida, 2 colheres de sopa de açúcar e 2 ovos. Bati a massa na máquina e, observando a consistência, pensei: “ah, isto deve ser um crumble, mas diferente do que conheço, deve ser um crumble prussiano!”. Para passar desta observação e hipótese à conclusão de que era um crumble prussiano não foi preciso qualquer teste e senti-me satisfeita por ter encontrado uma solução para a zona sul do quebra cabeças.

Reservei esta massa e voltei à zona norte. O meu marido veio à cozinha com a pequerrucha, que agora se estava a portar como um anjinho, e eu limitei-me a pedir-lhe para ele me ler o que não tinha percebido na lista norte. Então, a receita desta massa era: 3 ovos, 1/4 L de natas, importante, 2 colheres de sopa de maizena, canela, raspa de limão. Assumi que esta era a massa base, apesar de achar estranho ser tão fluída. Pus no forno aquecido a 180 graus por 10 minutos, depois adicionei a compota de ruibarbo e morango e dispus-me a dispor o “crumble prussiano” por cima da compota. Confesso que nunca fiz crumble e não faço ideia qual a sua consistência em crú, então voltei a improvisar, fazendo pequenas bolinhas e espalmando-as. Ao sentir a massa na minha mão, fez-se então luz e num ápice solucionei todas as questões que tinha deixado em aberto durante a análise da lista!  Ah, este “crumble prussiano” não era afinal crumble nenhum mas a massa de base!!! E este era o título da lista sul! … e exactamente por isso a outra massa era tão fluída! E o que era para juntar era o ruibarbo à massa mais líquida e não a massa base por cima do ruibarbo! Tapei todo o bolo com bolinhas espalmadas de massa, deixando umas frestazinhas entreabertas, que permitiam vislumbrar o rosa da compota de ruibarbo e morango.

Desolada, dirigi-me ao meu marido e disse-lhe que as minhas conclusões precipitadas tinham deixado tudo de pernas para o ar e que, só quando era tarde demais, percebi o segredo da receita. “Segredo?! Qual segredo?”, perguntou, “então, a segunda receita era afinal a massa base, e eu usei-a como crumble…”, expliquei. “crumble?!?!?, mas desde o início que estava claríssimo que esta não era uma receita de crumble!”, disse-me em prussiano, ao que repliquei em português:”diz?! crumble claro no início??”. Entretanto, fomos salvos pelo gongo do forno que nos avisou que o bolo estava pronto.

Provámos, regalámos os sentidos e não foi preciso trocar uma palavra para adivinhar que pensámos em uníssono: “pode ser um bolo ao revés, feito de pernas para o ar, mas ficou delicioso!”

E com esta receita aprendi que, mesmo que a comunicação no casal se faça a duas línguas, mesmo que o ruído ambiente não deixe perceber as palavras chave, é possível comunicar claramente. Desde que não se siga “o bom conselho” dum poeta cuja música me toca na alma e me diz sempre “aja duas vezes antes de pensar” e se pense várias vezes em prussiano antes de agir em português.

Ruibarbo

No outro dia comprei ruibarbo no mercado. Queria fazer bolo de ruibarbo, muito comum por aqui na primavera. Não querendo destronar sua majestade, o espargo, digamos que o ruibarbo é como o “regente” da Primavera prussiana e, enquanto as abelhinhas andam de flor em flor, por todas as padarias se vêem bolos do pecíolo desta planta. Trouxe mais uma vez o Sr. regente para a minha cozinha sem ainda ele saber que destino o esperava. De conversa com a minha sogra, disse-lhe que queria fazer um bolo de ruibarbo e não sabia como. De uma assentada, ela deu-me logo duas soluções para o problema. Entretanto, o vegetal ficou esquecido no frigorífico por uns dias. Hoje, a minha sogra cortou os caules em troços, fez compota e disse: “temos que comer o ruibarbo hoje”. Ao serão, depois da diabin… ah… pequerrucha adormecer, pus mãos à obra, seguindo uma das sugestões da sogra. Separei 4 gemas das suas claras. A máquina bateu as claras e eu bati as gemas com 4 colheres sopa de açúcar. Quando as claras ficaram brancas, juntei as mesmas colheres de açúcar e deixei montar o castelo. Verifiquei o castelo virando o recipiente 180 graus. Não cairam, então continuei, dando agora atenção às gemas. Juntei 4 colheres de óleo. Comecei a juntar farinha e leite. Nisto, ouço alguém bater à porta da cozinha. Era a minha sogra. Espantada, perguntou: ” o que estás a fazer?!?!?!?”, “um bolo de ruibarbo”, “agora?? já é tão tarde! não estás cansada? é melhor ires relaxar.” nesta altura, pensei: tão querida a minha sogra, preocupa-se com o bem estar da nora, e disse: “eu relaxo a cozinhar. podes tu relaxar no sofá enquanto eu faço o bolo” mas ela não se demoveu e voltou a dizer que o melhor era comer o ruibarbo assim e eu disse-lhe que se ela quisesse podia comer o ruibarbo e eu fazia bolo de maçã, mas a ideia não a cativou. nesta altura já os seus óculos estavam a 45 graus do recipiente da massa. Após três perguntas seguidas, que eu nem sequer tive oportunidade de compreender o profundo significado, vejo a minha sogra pegar na farinha e começar a pôr na minha massa. As minhas mãos voaram para a minha cabeça, deixando o fermento cair no chão e pensei que cozinhar com a minha filha é bastante simples, pois basta dar-lhe um bocadinho de massa para brincar. E confesso que a ideia de lhe perguntar se ela queria um bocadinho da minha massa me ocorreu como um relâmpago, mas felizmente a ideia desapareceu tão rapidamente como apareceu…

A minha sogra continuou a inquirir sobre o procedimento de confecção e eu tentei convecê-la de que a receita da massa era boa, argumentando que era a receita da avó e receita da avó nunca falha. Mas nem reparei na grande falha do meu argumento, pois ela também é avó, logo…  entretanto ela virou-se para as claras em castelo e eu apanhei a massa outra vez, mexi e verifiquei a fluidez. A minha sogra há uns tempos ensinou-me um truque para verificar se a massa está no ponto: levantar a colher de pau e deixar escorrer; se escorrer finamente, está boa. Então, coloquei a massa numa forma redonda untada e, quando me preparava para dispôr o ruibarbo cozido e escorrido, ela disse: “espera, tens que cozinhar a base primeiro”. nesta altura, compreendi que afinal a intervenção da sogra na confecção do bolo o salvou de um destino fatal. Deixei a base cozinhar 12 min em forno aquecido a 150 graus. Retirei do forno, dispus então o ruibarbo, bebi o sumo que escorreu da cozedura do talo do vegetal e, finalmente, dispus as claras em castelo. Foi ao forno até as claras em castelo dourarem e saíu de lá um belo bolo. Deixámos arrefecer, cortámos uma fatia para cada, cruzámos um olhar quase a roçar a cumplicidade, dissemos: “mmmm!…”, entre um sorriso e um gole de chá.

E foi assim que, com as “dicas” da sogra este bolo saíu tão bem e confirmou que, mais uma vez, a receita de uma avó nunca falha, mesmo quando a avó também é sogra! 😉