Aqui há carne (II)

Esta é outra receita favorita das minhas pequenotas. Aparentemente, são várias as receitas a ocupar o pódio e a nova vencedora é “schpáguét com ursinhos de gomas” que eu, obviamente, ignoro. Mas obviamente não é dessa que vou falar. Aqui em casa, esta receita é conhecida como a sopa da Avó, mas para o caro leitor é canja. A canja. É das tais receitas que requer esforço mínimo (não tendo que matar o frango), mas tempo de preparação (mesmo não matando o frango). Ponho um frango dentro da panela de pressão, encho com água até dois terços, e tempero com um ramo de salsa, sal, pimenta, uma cebola picada, meia folha de louro e uma cenoura inteira mas descascada. Espero até a panela apitar e, depois, ponho o fogão no mínimo. Deixo cozinhar durante uma hora no total. Depois, desfaço o frango, tento cortar em pedacinhos a cenoura hiper cozida, que já serviu o seu papel – dar mais gosto ao caldo – mas que ponho na mesa para quem quiser juntar à canja. Volta o caldo à fervura, junto o frango desfeito e massinhas. É daquelas refeições que, salpicada com limão e hortelã, é só conforto e saudade.

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Aqui há peixe

Aqui na Prússia também há bacalhau. Compro-o fresco congelado. Se os prussianos pudessem caracterizar esta receita, chamar-lhe-iam “peixe à mediterrâneo”. Para mim, os pratos mediterrâneos são diferentes e este é apenas peixe com legumes. Refoguei curgete em azeite, com cebola e pimentos vermelhos numa frigideira. Noutra, fritei a posta congelada do bacalhau – este foi um prato espontâneo, sem tempo de descongelar o peixe – em azeite, até ficar dourado por fora e suave por dentro. Acompanhei com pão numa refeição solitária que me fez indagar o porquê de peixe+curgete=mediterrâneo na linguagem prussiana. Fiquei sem resposta mas apreciei o prato que, no fundo, acaba sempre por me levar a Portugal.

Aqui há carne (I)

O nosso carneiro de domingo de Páscoa foi frango assado no forno. Tenho que confessar: refeições sem carne ou sem peixe têm escasseado na nossa mesa. E por uma boa razão. De todos os modos, frango assado é o prato favorito das minhas princesas. A minha filha mais velha (ou maior, como ela faz questão de frisar. “Eu não sou “véi-a”, mamã,”) pede a pernoca do bicho, embrulha o osso visível em guardanapo e delicia-se a morder a carne. A minha filha mais nova, diz-me “I-au”, que traduzindo de “bebês” para Alemão para Português, significa: “eu também”. E esta receita de frango é mesmo para comer à mão e molhar muito pão no molho. E lamber os dedos a seguir. Sim, uma decadência. Das boas. 

Comecei por ligar o forno a 200 graus. Depois, fiz o molho que iria temperar o frango. Misturei sal e pimenta com azeite, oregãos e pimentão doce. Pincelei o frango. Cortei em oitavos quatro cebolas. Pus o frango num tabuleiro pincelado com azeite e distribui um limão também em oitavos, guardando duas partes do citrino dentro do frango. Reguei com cerveja. Foi ao forno. Meia hora passada, virei o frango e juntei as cebolas, dentes de alho com e sem camisa, e batatas cortadas em longitude. Mais meia hora, e foi para a mesa. As batatas revelaram-se supérfluas. O ponto máximo da decadência atinge-se apenas com o frango e o pão no molho. Bom, a minha filha deu um passo ainda mais à frente e quis comer o molho à colher. 

Grünkohl é a (minha) nova couve galega

Hoje, o post é especialmente dedicado à comunidade portuguesa em terras prussianas, que sofre com as saudades do belo caldo verde. Quando o inverno se instala e a terra nos dá as típicas couves de inverno, Grünkohl a minha favorita, o caldo verde é presença constante na nossa mesa. Cozo na panela de pressão as batatas e uma cebola em bastante água com um chouriço e as couves cortadas o mais fino possível e cozinhadas a vapor, também na panela de pressão. Ao primeiro apito, desligo o fogão e separo couves e chouriço das batatas, que trituro. Corto o chouriço e volto a misturar tudo. É agora a minha sopa favorita e satisfaz também o resto da família.

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Mas, hoje é meatless monday, por isso o chouriço está fora de questão. Não, caro leitor, não sou apologista de que o chouriço não é carne! Se bem que…, mas bom, hoje, meatless monday, com o frigorífico cheio desta parente prussiana da couve galega, e estando o caldo verde tal como o descrevi fora de questão, questionei-me como cozinharia a couve. Não perguntei à minha filha o que queria para o jantar por saber que a resposta era “espargueeeeete!!” e decidi antecipar-me à sua vontade.

Quanto às couves, cozinhei-as como se fossem espinafre e fiz um esparregado. Fritei 5 dentes de alho e uma cebola em azeite e, quando a cebola ficou transparente, juntei as couves rasgadas em pedacinhos. Deixei-as cozinhar durante certa de 20 minutos e, de vez em quando, juntei alguma água da cozedura do esparguete, para não secar demasiado. Temperei com sal e pimenta.

No fim, juntei, sumo de um limão e mais um gole de azeite e misturei bem. Na mesa, a minha princesa disse: “Oh, esparguete! obrigada, mamã!”. A minha princesinha, que só queria o esparguete, rendeu-se à couve quando lhe dei meio limão para ela espremer no seu prato.

Sopas

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Mentalizo o próximo post e dou por mim a “falar do tempo”. Recuo, mas não consigo evitar o pensamento fatídico: “Será mau sinal? Quando já só se fala do tempo…”. Mas recuso o sinal e entrego-me às sopas. 

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Penso em sopa e salivo. Esta é a fase em que estou. Vou arrastando o resto da família comigo. As princesinhas do Reino comem-na, sôfregas, diminuindo até ao limite, espaço e tempo entre colheres. A minha sogra comeu e não comentou – isto porque nem conseguiu proferir palavra perante tal maravilha culinária que saíu da minha panela de pressão! O meu marido juntou sal, pimenta, provou, mais sal e, respondendo à minha pergunta, disse “muito bom”. Eu não sei quantas vezes voltei à panela de pressão, mas nesse serão fiz da sopa entrada, sopa, prato principal e sobremesa.

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 E como fiz a sopa: demolhei cerca de 150 gr. de grão durante o dia e cozi-o sobre pressão. Cortei 2 batatas, uma cebola, 4 ou 5 cenouras e a parte branca de um alho francês em cubos ou tiras e atirei tudo para a panela de pressão. Juntei o caldo e reservei o grão. Sal e azeite. Entretanto, num tachinho, cozi espinafres e massinhas de letras. Quando a panela deu os devidos apitos, triturei tudo a preceito e juntei os espinafres e massinhas. 

Mas há outra “summer queen” no reino das sopas da prússia. Com uma base parecida à anterior, mas sem grão e com 2 tomates no puré, e com feijão verde em vez de espinafres. E muita hortelã no fim, a temperar.

Assim se fez o mês de Agosto, não só com sopas, mas também com muito mar do Norte, muito sol, vento e cabelos a voar. E com a inevitável pergunta dos prussianos a quem vem do outro extremo da Europa: “Então, isto é melhor que o Algarve?” E eu dou a vaga resposta “Não é possível comparar”. E como poderei eu comparar a solidão das praias do Norte com o barulho das praias de Agosto no Sul. As dunas do Norte com as minhas falésias ou a areia prateada com a areia dourada. Mas tenho que aqui afirmar que as gaivotas do norte são mais atrevidas. Se eu deixar, vão-se com o bico ao meu farnel. 

O poema possível

Para mim, os poemas não pertencem em livros. Aí, estão estrangulados, presos entre páginas e pó. Os poemas, são para ser cantados e gritados. E, hoje, só há um poema possível*:

Grândola, vila morena
Terra da fraternidade
O povo é quem mais ordena
Dentro de ti, ó cidade
Dentro de ti, ó cidade
O povo é quem mais ordena
Terra da fraternidade
Grândola, vila morena
Em cada esquina um amigo
Em cada rosto igualdade
Grândola, vila morena
Terra da fraternidade
Terra da fraternidade
Grândola, vila morena
Em cada rosto igualdade
O povo é quem mais ordena
À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade
Jurei ter por companheira
Grândola a tua vontade
Grândola a tua vontade
Jurei ter por companheira
À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade
 Para jantar, fiz coelho na panela – e: qualquer relação entre este coelho e qualquer outro roedor é pura coincidência!
Do bicho já esquartejado no talho, trouxe três pernas. Afoguei-as em muito vinho tinto, louro e alho e deixei marinar três horas. Aqueci azeite numa panela resistente ao forno e selei-as. A minha filha perguntou: “Ó mãe, vais matar o coelho na panela?” Eu disse-lhe que não, que quando comprei o coelho, ele já vinha morto. E decidi não alongar mais a conversa. Com as pernocas bem tostadas, juntei vegetais de todas as cores. O laranja da cenoura, o vermelho da beterraba e o amarelo da batata. Juntei duas cebolas em quartos.
Quando os vegetais ficaram tão bem misturados com o coelho que já não era possível distinguir a cor de cada vegetal, a única coisa a fazer foi juntar a marinada de vinho. Levei ao forno cerca de 40 minutos.
Depois, no prato, completei com a cor esperança da salada e cantei o poema à minha mesa sentado.

Sopa de pastinaca

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Nada como a sopa para combater o frio que cai nos dias. Esta sopa, com pastinaca e queijo curado dos Alpes é uma boa surpresa. É quente e suave, é doce e forte. Gostei especialmente do contraste entre o sabor forte do queijo e a doçura e suavidade da pastinaca.

Tudo ao mesmo tempo na panela de pressão: uma pastinaca grande, 1 batata, uma cebola, a parte branca do alho francês e uma mão cheia de arroz. Depois de cozido, triturar, temperar com sal e pimenta e, no prato, polvilhar com o queijo ralado, salsa picado e um fio de azeite.

Almôndegas

Ontem, acompanhei um episódio da visita da Frau Merkel a Portugal no youtube. E reparei como a senhora franzia olho e sobrolho a olhar o mar naquele dia de verão de são martinho. Será muita luz para a sua menina do olho, habituada à escuridão do inverno bárbaro.

Aqui o sol está distante e sem brilho. E está frio. E, ainda por cima, não há verão de São Martinho. A minha filha disse-me: “Oh mãe vamos dormir e só acordamos quando formos para Portugal”, e eu concordei, obviamente, estimulando ainda mais a minha vontade de hibernar. Não podendo satisfazer este meu desejo, enrolo-me no conforto do lar com mantas, chá e almôndegas.

E faço-as assim: misturo 500 gr de carne picada com cerca de 4 colheres de sopa de flocos de aveia, 1 dL de natas, (muita) salsa picada, uma cebola picada, sal e pimenta. Misturo tudo e formo bolinhas, que reservo. Faço um molho de tomate bem apurado, com cebola e mais salsa e, quando este fervilha, junto as bolinhas de carne. Deixo cozinhar muito lentamente, em lume brando, por mais de uma hora. E sirvo-as enroladas em linguini.

Abóbora no dia mundial das massas

Porque hoje é o dia mundial das massas, foi fácil decidir o que seria o jantar. Combinando os elementos da estação com o frio que faz lá fora, deixei-me inspirar por uma sugestão do meu marido. 

Cortei meia abóbora hokkaido em cubinhos, uma cebola aos pedacinhos e pus num tacho cerca de 200 gr. de bacon cortado aos pedacinhos. Deixei o bacon frigir na sua própria gordura e juntei a cebola até amolecer. Juntei os cubinhos de abóbora e alguma água onde o esparguete fervia. Deixei cozinhar até que a abóbora ficasse desfeita e juntei um ramo de salsa picada. Finalizei com duas colheres de sopa de crème fraîche. Misturei com o esparguete al dente e servi este prato de consolo de uma noite de Outono.