A primavera é um fogo de artifício

1. Hoje é meatless monday e como tal trago uma receita vegetariana, com espargos,  que está no tempo deles. É tão simples que se descreve em três passos: Faça um molho de tomate em azeite com salsa e cebola; dê uma fervura aos espargos até atingirem o ponto; numa travessa, distribua o molho de tomate pelos espargos. Para concluir, diz a minha mãe que em tempo de tomate não há más cozinheiras, e eu acrescento, em tempo de espargos. 

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2. Para os meus queridos leitores, não tenho segredos nestas questões e confesso: hoje a minha monday não foi nada meatless. Quando cheguei a casa com as crianças, estava já o meu marido na cozinha e disse-me: hoje fazemos bifanas, ok? Concordei, claro, que a minha carne é fraca, um jantar de bifanas sabe bem e traz-me boas memórias de Portugal. Inventei uma marinada com vinagre, alho, sal, pimenta e pimentão doce, mas a receita precisa de afinar. Entalei a carne no papo-seco e gostaram os adultos e as crianças.

3. O nosso jardim floresce. Parece um fogo de artificio de cores, cheiros… Hoje, explodem as tulipas, amanhã as rosas, e depois outras flores de que nem sei o nome, mas que me agrado por não ter confundido com ervas daninhas antes do florescer. As favas estão também em flor, as cenouras já dão sinal de vida (mas quem sabe o que se passa por baixo da terra), as cerejas estão verdes e as maçãs já despontaram. Mas hoje foi o dia de apanhar os espinafres, antes que espigassem. Foram duas linhas de cerca de 3 metros cada, que deram em folhas de espinafre cerca de 1,5 kg. Em casa, preparei-os para congelar: dei uma fervura em vapor para os murchar e congelar. Foram quatro panelas de pressão de 4,5 L em serie. 150 mL de água, encher com espinafre até acima, deixar ferver, abrir a panela, tirar os espinafres e coar. Repetir a sequência. No fim, os espinafres reduziram-se a um terço do seu  tamanho mas perderam apenas 10% do seu peso, que foram os 300 mL de caldo que daí resultou e aos quais se deverá retirar os 150 mL de água que juntei inicialmente. Congelei metade e com os outros 675 gr farei amanhã um esparregado, fritando dois ou três dentes de alho em azeite, depois vem o espinafre e um gole de leite. Deixo fervilhar e tempero com sal, pimenta e noz moscada…

(*Meatless Monday*) Enquanto há espargos, há primavera

Não vale a pena relembrar que este ano a Primavera chegou atrasada. E os espargos seguiram o seu exemplo. Mas mais vale tarde do que nunca e, nas últimas semanas, celebramos os espargos no seu apogeu. Brancos ou verdes, grelhados ou cozidos, com azeite e vinagre ou com bacon, são inúmeras as formas como eles nos chegam à mesa. Mas hoje é Meatless Monday, por isso reservo a receita de espargos com bacon para outra oportunidade. Quando descasco os espargos, reservo as cascas para fazer sopa.

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E esta sopa não poderia ser mais fácil: Deixei as cascas cozerem em água e sal, retirei as cascas e juntei aletria. Quando esta cozeu, esfarelei uma gema de ovo cozido e juntei salsa picada.

(*Meatless Monday*) Só para adultos

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As crianças estão na cama? Então relaxe, sente-se no sofá e leia este post. Este post é um post picante. Não precisa de bolinha vermelha no canto superior direito do ecrã, mas não é para meninos. É picante, porque hoje a malagueta é rainha e o pão seu rei, num prato de migas. E antes de lhe apresentar a receita, deixe-me dizer-lhe já as reacções dos comensais aqui em casa. A princesa foi clara: “Eu não quero migas, quero espargueeeeeeete!!”. A princesinha, clara foi, “Dá, dá, nein, dá!!”, apontando para o ovo. Ao meu marido, perguntei: “Então, amor, gostas das migas?”. Seguindo-se um longo silêncio, repeti a pergunta. “Ah, mmm, sim, são boas, mas com o pão português são melhores”. Argumento redutor. Segue-se então a receita: ponha o pão duro de molho. Refogue uma cebola em azeite e louro. Quando a cebola estiver mole e transparente, junte o pão também já mole. Tempere com sal, pimenta, uma bela malagueta e paprica, muita paprica (quem é que se lembra disto?). Mexa lentamente em lume brando até adquirir a consistência necessária. Eu gosto delas com uma leve crosta dourada.

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Servi as migas com espargos brancos temperados com azeite e vinagre e com ovo, que ferveu 3.5 minutos.

Com esta refeição. gostaria de iniciar-me no movimento “meatless monday”. Isto, por uma vida mais sustentável.

Chucrute sem salsicha

Eu confesso: o título que eu queria dar a este post era “restos de couve fermentada”, mas depois pensei que poderia causar náuseas ao leitor mais sensível e eu não quero que os meus queridos leitores padeçam de qualquer maleita por visitarem o Reino da Prússia. Depois pensei num título como “bulgur em arte de risotto, com calda de chucrute e aroma de zimbro”. Mas… não este título não faz a minha praia. Depois, inspirada no blogue da Fer, dei então o título a este prato que reciclou o caldo de uma refeição de chucrute, não com salsicha, mas com algo como costeletas de porco fumadas. Esta receita é do meu marido e eu confesso que ele teve que fazê-la várias vezes até eu saltar a barreira psicológica de comer couve fermentada. Bom, na verdade, teve que dizer-me que esta couve fermentada, sauerkraut, em português, é chucrute. A provar que os rótulos importam nos complexos esquemas de selecção do cérebro humano.

O meu marido cozinhou o chucrute como a receita dita (bom, quase!) e o seu caldo tão aromático iria para o lixo se eu não tivesse ouvido um apelo, um chamamento ou uma voz do além a dizer “risooootto… riiiiiiiisotto!”. Bom, mas o risotto não estava no meu armário. Então tirei o pacote de bulgur e cozinhei-o como risotto. Fritei uma cebola e um dente de alho em azeite e, ao saltitarem, juntei uma medida de bulgur, mexi e juntei uma colher de concha do caldo de chucrute a ferver. Juntei meia dúzia de bagas de zimbro e deixei que o bulgur absorvesse o caldo. Repeti o processo até que o bulgur absorvesse as duas medidas de caldo e, com a última dose, juntei um frasco de espargos em conserva. Mexi, desliguei o bico do fogão, juntei um queijo feta desfeito, pimenta e um pouco de tomilho e salsa.

Provámos o prato, provando que a reciclagem de alimentos produz pratos de grande qualidade – basta olhar para pratos tradicionais portugueses como as migas e açordas, os rissóis e pastéis de bacalhau, a roupa velha, que são deliciosos e resultam da reciclagem de outros pratos ou ingredientes.

Com este prato, participo no desafio do Delícias e Talentos, desafio de culinária reciclada. Considero este desafio de grande valor, porque a reciclagem de alimentos diminui o consumo desnecessário de alimentos, poupando a natureza e a carteira. Como omnívora, tenho um grande respeito pelos alimentos, diria mesmo um respeito “divino”. E já que para sobrevivermos temos que nos alimentar de outras vidas, que o façamos com respeito e utilizemos os ingredientes até ao seu tutano. Quando deitamos comida ao lixo, na perspectiva ambiental e económica, estamos a estimular a economia alimentar de grande escala, que é extremamente poluente em várias vertentes:  no uso desenfreado da terra com produções intensivas de monocultura, no abuso de pesticidas, no tratamento e embalamento desnecessários… e estamos a gastar mais dinheiro; na perspectiva humana, acho que deitar comida fora é uma falta de respeito por aqueles que não a têm. Eu sei que as sobras do meu jantar não vão matar a fome de quem a realmente tem, mas com a atitude “reciclagem” em mente, o saldo “comida” torna-se mais positivo e, quem sabe se a comida que nós não comprámos numa grande cadeia de supermercados, não irá parar às mãos de alguém com fome? (se bem que há comida suficiente no mundo para não haver fome, simplesmente está mal distribuída). E a “grande cadeia de supermercado” leva-me a outro ponto de extrema importância – felizmente, hoje, damos mais valor ao comércio tradicional e aos produtos regionais e sazonais, de preferência da horta. Espero que a ideia de hortas e quintas comunitárias cresça entre os habitantes das cidades ao ponto de fazer impacto na nossa vida do dia a dia.

Por isso, caro leitor, se quiser aumentar a sua qualidade de vida, opte por reciclar as sobras dos seus alimentos, opte pelo comércio tradicional bem como pelos produtos regionais e sazonais e, caso não tenha acesso a produtos hortícolas directamente do produtor, informe-se sobre as hortas comunitárias. Apanha três coelhos com uma cajadada: gasta menos, polui menos e aumenta o contacto com a natureza e com a sua vizinhança.

nota: visite a tag reciclagem e migas e açordas para ver outras refeições que fiz a partir de anteriores.

Da tertúlia para a minha mesa

Os couscous doces que a Moira trouxe do Maghreb para a sobremesa viajaram de tapete mágico da Tertúlia para a minha mesa! Há aquelas receitas que me caem no goto e só me saem da cabeça quando ponho o avental, pego no rolo da massa e lhes digo: “hoje não me escapas!” E assim teve que ser com a sobremesa de couscous da Moira, que brilharam no jantar de Sábado com amigos.

E comecei por fazer exactamente a sobremesa. Aqueci 500 mL de água e, antes desta ferver, juntei duas colheres de chá Daarjeeling hand rolled, que encontrei perdido no armário e adocei com 2 colheres de mel da Serra do Portel. Cortei aos cubinhos 10 alperces secos de Marrocos e 10 figos secos da horta da minha Avó. A metade do chá, juntei os alperces, os figos e uma mão cheia de passas. Deixei esta mistura em paz durante duas horas. Entretanto virei-me para Sua Majestade, o Espargo Branco, que seria o prato principal, e descasquei uma montanha deste vegetal. Pus as cascas a cozer numa panela com água e reservei os espargos sem camisa para mais tarde.

Agora, voltei a concentrar-me na sobremesa: Juntei 2 chávenas de café de couscous ao resto do chá adoçado e deixei descansar 10 minutos, enquanto aloirava duas mãos cheias de pinhões numa frigideira antiaderente. Parti avelãs e nozes pecãs e juntei aos couscous demolhados com a fruta macerada e os pinhões alourados. Piquei um raminho de hortelã, juntei, mexi tudo, juntei canela, mexi, provei, fechei os olhos e à minha frente apareceram o Alibábá e o Aladim num festim de cores doces e sabores quentes dignos das mil e uma noites.

Entretanto tive que sair do meu transe pois os convidados estavam aí a chegar. Dediquei-me agora a fazer as pizzas de lilliput e o meu marido dedicou-se aos espargos. Deixou as cascas ferverem durante cerca de uma hora, rejeitou-as deixando o caldo, juntou caldo de legumes, farinha para engrossar, vinho branco, sal e pimenta e mexeu. Numa panela à parte, pôs os espargos a cozer durante vinte minutos e preparou o vinagrete que viria acompanhar parte dos espargos: azeite, vinagre branco balsamico, cebolo, flôr de sal e pimenta.

Desliguei o forno, tocou a campaínha, vieram os convidados, abrimos uma garrafa de Casal Garcia fresquinha, apesar do frio lá fora e os nossos amigos disseram: “vinô vêrrrdê, mmmm!” Fomos à mesa, começámos pelas mini pizzas que foram logo aprovadas, passámos à sopa e vieram os espargos temperados com o vinagrete ou com azeite e limão. Comentámos como um tempero tão simples realça o sabor delicado dos espargos. Mas chegaram os couscous mágicos das Arábias, que destronaram por completo o rei Espargo, brilhando e aquecendo a noite fria prussiana. Deliciosos!

Resta-me agora agradecer à Moira a partilha desta receita e a sua dedicação (e a do seu provador) na criação desta sobremesa de couscous doces tããão saborosa!

“Asparagus and crumbles”

Aqui na Prússia, um dos sinais de que a Primavera está finalmente a instalar-se, é a chegada dos espargos. Este vegetal é por aqui bastante apreciado e, quando chega, tem uma recepção digna de Rei. Quando convidei a Sua Majestade para privar connosco à mesa, ainda não sabia como havia de cozinhá-lo. Lembrei-me do Crumble de Vegetais que a Moira publicou no Tertúlia de Sabores e pensei em fazer crumble de espargos. Depois, vi o Jamie Oliver a fazer um empadão de puré de batata e espargos algures no youtube e pensei que também não seria má ideia. Quando olhei para o armário, vi uma carcaça seca e decidi que não iria fazer empadão de espargos nem crumble de espargos, mas sim “asparagus with crumbles”, no sentido literal da expressão, ou seja, espargos com migalhas. Triturei a carcaça com a varinha mágica, enquanto os espargos cozinhavam lentamente na frigideira com manteiga. Quando os espargos ficaram tenrinhos, reservei e pus mais um pouco de manteiga na frigideira. Juntei a carcaça triturada, juntei sal e pimenta e ralei parmesão. Dei umas mexidelas e deixei que os ingredientes se envolvessem uns nos outros. Voltei a juntar os espargos, temperei com flôr de sal e pimenta e dei mais umas voltas aos espargos e às migalhas. Acompanhámos os espargos com uma salada verde com Feta e oregãos frescos. Ficou de comer mais e mais, mesmo depois de já estar cheia. Aquele parmesão com as migalhas na manteiga é pecado. Tive que pedir ao meu marido para os retirar da minha frente, pois longe da vista, longe da boca. Ou será que o ditado não é bem assim?