Onde estás, Lua?

Foi alegre que hoje voltei a tirar a bicicleta da garagem. A neve desapareceu na noite e, ao amanhecer, um Sol de 6 graus brilhava num céu azul. Ao regressarmos a casa, com uma leve brisa de lusco fusco, e um céu onde começavam a chegar as primeiras estrelas, a minha filha perguntou-me: “mamã, on’e xtá a Lua”, “está ali, no céu, amor”, respondi, apontando para o satélite. “on’e xtá? on’e xtá?”, entre árvores e casas, a Lua cheia brincava connosco às escondidas. “Onde estás, Lua? Luuuuaaaa!! Onde estás?”, chamei, “Luuuuaaa, ‘xtamos ‘qui”, reforçou a minha filha, “a’na cá!!”. Ao avistar a Lua a espreitar por detrás de um prédio, disse: ” ‘tá ‘qui, Lua, Lua bola, né mamã?”, “A Lua está cheia, amor, fica assim com a forma de uma bola”. E ao chegarmos a casa, a minha filha despediu-se da sua nova amiguinha de rua. “Casa ‘tá aqui, adeus Lua!…”, “Até amanhã, Lua”, disse eu. A Lua banhou-nos com o seu luar e trouxemos para casa a brisa da Primavera. Que inspirou o jantar.

Cortei 3 batatas grandes em cruz e às fatias fininhas e pus numa frigideira com azeite. Cortei uma cebola aos cubinhos e meio pimento vermelho às tirinhas. Juntei e mexi tudo. Cortei meia curgete aos cubinhos e voltei a misturar. Temperei com sal, oregãos e sementes de coentro. Juntei um gole de água, baixei o lume e tapei. Ao fim de 5 minutos, as batatas estavam cozinhadas. Pus num prato de servir e voltei a por mais um fio de azeite na frigideira. Juntei algumas amêndoas picadas (inspirada pela Filipa) e meia dúzia de tomate-cereja. Fui agitando a frigideira até as amêndoas dourarem uniformemente. Misturei com os legumes, levei à mesa e disse à minha filha: “vamos para a mesa, querida, hoje a primavera vem jantar.”

o processo no castelo

A burocracia prussiana é, no mínimo, kafkiana. Sempre que com ela me confronto, não posso deixar de pensar em Kafka e em como fui injusta em julgar a sua condição mental, não conhecendo os meandros desta complicada senhora do Leste. Todo o processo parece ter saído do processo de Kafka e, quando se pensa que já se preencheram todos os formulários e todos os campos, aparece mais um que não existia. À entrada do “castelo”  onde o processo lentamente se digere, o aviso é claro: depois de aqui entrar, para sair é preciso contar com a ajuda de uma entidade mística. Portas escondem escadas, existem meios andares, que ficam algures entre o primeiro e o segundo andar e – a cereja em cima deste bolo que evito sempre trincar – os gabinetes muitas vezes não estão ordenados sequencialmente. Quem vai a procura da porta 123, encontra a porta 122, talvez encontre a 124, mas no lugar da 123 há… uma parede! Quando finalmente se encontra o gabinete e se acerta na irregular hora de atendimento, vem a grande confrontação com o burocrata propriamente dito e, tal como Kafka nao queria sair do seu quarto, parece que o burocrata não quer sair do seu escritorio desde 1989. E este sim, precisaria de uma metamorfose. Óculos fundos e embaciados, roupas sépia, papéis do chão ao tecto compõem o burocrata e seu escritório.

Num dia cinzento e de chuva miudinha, vi-me confrontada com a impossibilidade de fugir a um processo burocrata. Depois de três horas a percorrer corredores infinitos e preencher formulários intermináveis, cheguei a casa a precisar de algo que me confortasse o corpo e a alma, algo facilmente digerível. Trouxe o Sol a casa com uma sobremesa fresca de laranja e bela luísa, adaptação de uma receita do pingo doce. Levei 2.5 dL de leite a ferver com uma casca de laranja e um ramo de bela luísa. Deitei num pequeno tacho, 50 g de açúcar, 30 g de maisena e 70 g de amêndoa moída. Misturei e juntei 3 gemas, continuando a mexer. Retirei a casca da laranja e o ramo de bela luísa do leite fervido e deitei lentamente em fio sobre a mistura anterior, sem parar de mexer. Levei o pequeno tacho a lume brando e mexi continuamente até engrossar. Retirei do lume quando atingiu a consistência de creme. Entretanto, bati as 3 claras em castelo com mais 50 g de açúcar (que adicionei quando as claras ficaram brancas) e espremi uma laranja. Juntei o sumo ao creme, mexi e envolvi esta mistura nas claras. Pus numa taça de servir, polvilhei com mais amêndoa moída e levei ao frio. Ao provar, não consegui conter-me na primeira tacinha e repeti, esquecendo o frio lá fora e o pó de lá dentro da casa do burocrata.


ps: a receita original não inclui bela luísa, mas alegro’me em ter arriscado, pois tornou-se um elemento essencial pela frescura que confere.

Na linha do tesouro

Linha de Tunes. Saio do comboio no cruzamento das linhas e poderia sair de olhos cegos e ouvidos surdos, saberia que estou no Reino do Algarve. Há um odor no ar que é só deste céu, deste Sol e desta gente, habitantes no Algarve e na minha alma. É um odor a alfarrobeiras, a figos a secar nas açoteias e a amêndoas no chão acabadas de varejar, escondidas nas cardas que já não picam as mãos sapientes e calejadas de quem trata a terra. É tudo isto misturado com a maresia que faz este ar tão fácil de respirar…E tudo isto trouxe eu, ontem, ao Reino da Prússia, ao cozinhar um pão doce que me levou à confluência das linhas do Algarve com a tríade Alfarroba-Figo-Amêndoa.

Numa manhã solarenga de Sábado, a minha filha arrastou-me da cama e eu, ao avistar um céu tão azul lá fora, arrastei-a à cozinha. De uma receita básica de pão, fizemos um pão doce de alfarroba, amêndoa e figos secos. Em 125 mL de água morna, desfiz 12 g de fermento fresco de padeiro e 2 colheres de sopa de mel. A mistura das farinhas ficou a cargo da minha filha: 50 g de farinha de alfarroba, 200 g de farinha de espelta, 125 g de farinha de trigo com uma colher de chá de sal. Juntei a água com o fermento às farinhas, com 100 g de amêndoa moída e cerca de 6 figos secos picados em bocadinhos pequenos. Raspei um limão e trouxe um aroma a canela a este pão. Mexemos até a massa se separar das bordas da taça. Cerca de uma hora depois, fizémos bolinhas da massa e pusémos no forno. O perfume deste Algarve espalhou-se pela casa e misturou-se com o Sol que inundou toda a sala e nos inundou a nós enquanto esperávamos que o pão saísse do forno. Comi os pãezinhos simples, comi-os com o doce de tomate da minha Avó, comi com queijo de cabra fresco e polvilhado com ervas provençais e voltei a comê-lo só, só por gulodice, só para o meu comboio parar mais uma vez naquela confluência de linhas a Sul.

E o meu comboio continua a sua viagem, por estradas de terra e alcatrão, por estradas de gelo e pó, de Sol e Lua, na senda de um Tesouro que eu sei onde está, mas não sei quando está. Avista-se no infinito das linhas de comboio que rasgam em latitude o meu Reino a Sul.  Mas o destino do meu comboio, agora, é a viagem com os meus dois Grandes Tesouros.

Caíu que nem ginjas

A noite caíu, a pequenina adormeceu. E eu teria caído no sofá sem me querer mexer mais, se  três ingredientes não estivessem em órbita no meu pensamento: mascarpone, vinho do porto e chocolate. Caí na cozinha. Pus numa taça 200 g de mascarpone, 1 c.s. de açúcar baunilhado e 2 c.s. de açúcar. Bati com a vara de arames. Num cálice, pus 2 colheres de chá de chocolate e enchi com vinho do Porto. Misturei, mexi bem e salpiquei com amêndoas picadas. Provei e levitei.

Torta direita de amêndoa

Quando vi o convite da Margarida para celebrar o segundo aniversário do Figo Lampo, pensei que esta era a ocasião perfeita para preparar uma receita algarvia. Em casa, enquanto me dedicava às tarefas do costume, duas ou três receitas vagas deambulavam pelos meus pensamentos. Pus a minha filha na cama, fui buscar um livro com receitas do Algarve e sentei-me na varanda, na esperança que uma brisa fresca acalmasse os 35 graus deste verão prussiano. Apesar do lusco-fusco, não havia qualquer brisa e a pedra do chão exalava ainda o calor que acumulou durante o dia. Lembrei-me das tardes quentes de verão que passávamos na casa dos meus Avós, nos meus tempos de infância. Depois da sesta, íamos para a zona fresca do pátio, que esteve à sombra durante o dia e comíamos figos secos com nozes ou amêndoas. É uma combinação divina! Ou íamos apanhar pêssegos ou ameixas. Ou então, com sorte, a minha Avó lavava o quintal e lá íamos nós em delírio a correr atrás da mangueira! Que belos tempos! Regressei desta viagem ao passado, fechei o tal livro de receitas que afinal nem folheei e fui buscar o meu caderno de receitas. Folheei para a frente e para trás, e ali estava ela, a torta de amêndoa da Avó. “É esta torta que levo à comemoração dos 2 anos do Figo Lampo”, pensei, “afinal, a Margarida tirou a toalha de crochet da Avó, e uma toalha destas pede um bolo da Avó, nem mais!”
A receita era de uma torta e eu não a enrolei para voltar a desenrolar, como a imagem poderia sugerir. A verdade é que ainda não domino a técnica de enrolar e é das tais coisas que só faço na presença da Avó!

Comecei por misturar 175 gr de açúcar amarelo (metade da receita original) a 6 gemas e 7 claras até ficar bem homogéneo e juntei a raspa de um limão. Misturei 150 gr de amêndoa moída com 2 colheres de sopa de farinha com fermento e envolvi suavamente com a mistura dos ovos e açúcar, intercalando com sumo de meio limão (a receita dizia sumo de 1 laranja mas não tinha). Untei uma forma de 18 cm com manteiga e farinha e pus no forno a 150 graus. Entretanto, fiz doce de ovos. Pus um tachinho pequeno ao lume com 2 colheres de sopa de açúcar e outras 2 de água. Quando atingiu o ponto pérola, retirei do lume, juntei a gema que sobrou, mexi rapidamente e voltou ao lume até levantar fervura, mexendo sempre. Tirei o bolo do forno quando o palito saiu seco e fui buscar ao armário a louça prussiana de outra Avó. Dispus o doce de ovos por todo o bolo e lembrei-me que na casa da minha Avó, acompanhamos sempre os bolos com chá de Bela Luísa e limão. Mas o calor pedia um chá fresco, e como estamos na onda das Avós,  fui buscar uma chávena que era da minha Bisavó e fiz um chá frio de menta. A fatia que me era destinada voou sem eu dar por isso e pensei que da próxima vez hei-de também rechear o bolo com o doce de ovos. E foi assim que eu dei a volta a esta torta!