(*Meatless Monday*) Enquanto há espargos, há primavera

Não vale a pena relembrar que este ano a Primavera chegou atrasada. E os espargos seguiram o seu exemplo. Mas mais vale tarde do que nunca e, nas últimas semanas, celebramos os espargos no seu apogeu. Brancos ou verdes, grelhados ou cozidos, com azeite e vinagre ou com bacon, são inúmeras as formas como eles nos chegam à mesa. Mas hoje é Meatless Monday, por isso reservo a receita de espargos com bacon para outra oportunidade. Quando descasco os espargos, reservo as cascas para fazer sopa.

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E esta sopa não poderia ser mais fácil: Deixei as cascas cozerem em água e sal, retirei as cascas e juntei aletria. Quando esta cozeu, esfarelei uma gema de ovo cozido e juntei salsa picada.

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Onde estás, Lua?

Foi alegre que hoje voltei a tirar a bicicleta da garagem. A neve desapareceu na noite e, ao amanhecer, um Sol de 6 graus brilhava num céu azul. Ao regressarmos a casa, com uma leve brisa de lusco fusco, e um céu onde começavam a chegar as primeiras estrelas, a minha filha perguntou-me: “mamã, on’e xtá a Lua”, “está ali, no céu, amor”, respondi, apontando para o satélite. “on’e xtá? on’e xtá?”, entre árvores e casas, a Lua cheia brincava connosco às escondidas. “Onde estás, Lua? Luuuuaaaa!! Onde estás?”, chamei, “Luuuuaaa, ‘xtamos ‘qui”, reforçou a minha filha, “a’na cá!!”. Ao avistar a Lua a espreitar por detrás de um prédio, disse: ” ’tá ‘qui, Lua, Lua bola, né mamã?”, “A Lua está cheia, amor, fica assim com a forma de uma bola”. E ao chegarmos a casa, a minha filha despediu-se da sua nova amiguinha de rua. “Casa ’tá aqui, adeus Lua!…”, “Até amanhã, Lua”, disse eu. A Lua banhou-nos com o seu luar e trouxemos para casa a brisa da Primavera. Que inspirou o jantar.

Cortei 3 batatas grandes em cruz e às fatias fininhas e pus numa frigideira com azeite. Cortei uma cebola aos cubinhos e meio pimento vermelho às tirinhas. Juntei e mexi tudo. Cortei meia curgete aos cubinhos e voltei a misturar. Temperei com sal, oregãos e sementes de coentro. Juntei um gole de água, baixei o lume e tapei. Ao fim de 5 minutos, as batatas estavam cozinhadas. Pus num prato de servir e voltei a por mais um fio de azeite na frigideira. Juntei algumas amêndoas picadas (inspirada pela Filipa) e meia dúzia de tomate-cereja. Fui agitando a frigideira até as amêndoas dourarem uniformemente. Misturei com os legumes, levei à mesa e disse à minha filha: “vamos para a mesa, querida, hoje a primavera vem jantar.”

Ruibarbo

No outro dia comprei ruibarbo no mercado. Queria fazer bolo de ruibarbo, muito comum por aqui na primavera. Não querendo destronar sua majestade, o espargo, digamos que o ruibarbo é como o “regente” da Primavera prussiana e, enquanto as abelhinhas andam de flor em flor, por todas as padarias se vêem bolos do pecíolo desta planta. Trouxe mais uma vez o Sr. regente para a minha cozinha sem ainda ele saber que destino o esperava. De conversa com a minha sogra, disse-lhe que queria fazer um bolo de ruibarbo e não sabia como. De uma assentada, ela deu-me logo duas soluções para o problema. Entretanto, o vegetal ficou esquecido no frigorífico por uns dias. Hoje, a minha sogra cortou os caules em troços, fez compota e disse: “temos que comer o ruibarbo hoje”. Ao serão, depois da diabin… ah… pequerrucha adormecer, pus mãos à obra, seguindo uma das sugestões da sogra. Separei 4 gemas das suas claras. A máquina bateu as claras e eu bati as gemas com 4 colheres sopa de açúcar. Quando as claras ficaram brancas, juntei as mesmas colheres de açúcar e deixei montar o castelo. Verifiquei o castelo virando o recipiente 180 graus. Não cairam, então continuei, dando agora atenção às gemas. Juntei 4 colheres de óleo. Comecei a juntar farinha e leite. Nisto, ouço alguém bater à porta da cozinha. Era a minha sogra. Espantada, perguntou: ” o que estás a fazer?!?!?!?”, “um bolo de ruibarbo”, “agora?? já é tão tarde! não estás cansada? é melhor ires relaxar.” nesta altura, pensei: tão querida a minha sogra, preocupa-se com o bem estar da nora, e disse: “eu relaxo a cozinhar. podes tu relaxar no sofá enquanto eu faço o bolo” mas ela não se demoveu e voltou a dizer que o melhor era comer o ruibarbo assim e eu disse-lhe que se ela quisesse podia comer o ruibarbo e eu fazia bolo de maçã, mas a ideia não a cativou. nesta altura já os seus óculos estavam a 45 graus do recipiente da massa. Após três perguntas seguidas, que eu nem sequer tive oportunidade de compreender o profundo significado, vejo a minha sogra pegar na farinha e começar a pôr na minha massa. As minhas mãos voaram para a minha cabeça, deixando o fermento cair no chão e pensei que cozinhar com a minha filha é bastante simples, pois basta dar-lhe um bocadinho de massa para brincar. E confesso que a ideia de lhe perguntar se ela queria um bocadinho da minha massa me ocorreu como um relâmpago, mas felizmente a ideia desapareceu tão rapidamente como apareceu…

A minha sogra continuou a inquirir sobre o procedimento de confecção e eu tentei convecê-la de que a receita da massa era boa, argumentando que era a receita da avó e receita da avó nunca falha. Mas nem reparei na grande falha do meu argumento, pois ela também é avó, logo…  entretanto ela virou-se para as claras em castelo e eu apanhei a massa outra vez, mexi e verifiquei a fluidez. A minha sogra há uns tempos ensinou-me um truque para verificar se a massa está no ponto: levantar a colher de pau e deixar escorrer; se escorrer finamente, está boa. Então, coloquei a massa numa forma redonda untada e, quando me preparava para dispôr o ruibarbo cozido e escorrido, ela disse: “espera, tens que cozinhar a base primeiro”. nesta altura, compreendi que afinal a intervenção da sogra na confecção do bolo o salvou de um destino fatal. Deixei a base cozinhar 12 min em forno aquecido a 150 graus. Retirei do forno, dispus então o ruibarbo, bebi o sumo que escorreu da cozedura do talo do vegetal e, finalmente, dispus as claras em castelo. Foi ao forno até as claras em castelo dourarem e saíu de lá um belo bolo. Deixámos arrefecer, cortámos uma fatia para cada, cruzámos um olhar quase a roçar a cumplicidade, dissemos: “mmmm!…”, entre um sorriso e um gole de chá.

E foi assim que, com as “dicas” da sogra este bolo saíu tão bem e confirmou que, mais uma vez, a receita de uma avó nunca falha, mesmo quando a avó também é sogra! 😉

“Asparagus and crumbles”

Aqui na Prússia, um dos sinais de que a Primavera está finalmente a instalar-se, é a chegada dos espargos. Este vegetal é por aqui bastante apreciado e, quando chega, tem uma recepção digna de Rei. Quando convidei a Sua Majestade para privar connosco à mesa, ainda não sabia como havia de cozinhá-lo. Lembrei-me do Crumble de Vegetais que a Moira publicou no Tertúlia de Sabores e pensei em fazer crumble de espargos. Depois, vi o Jamie Oliver a fazer um empadão de puré de batata e espargos algures no youtube e pensei que também não seria má ideia. Quando olhei para o armário, vi uma carcaça seca e decidi que não iria fazer empadão de espargos nem crumble de espargos, mas sim “asparagus with crumbles”, no sentido literal da expressão, ou seja, espargos com migalhas. Triturei a carcaça com a varinha mágica, enquanto os espargos cozinhavam lentamente na frigideira com manteiga. Quando os espargos ficaram tenrinhos, reservei e pus mais um pouco de manteiga na frigideira. Juntei a carcaça triturada, juntei sal e pimenta e ralei parmesão. Dei umas mexidelas e deixei que os ingredientes se envolvessem uns nos outros. Voltei a juntar os espargos, temperei com flôr de sal e pimenta e dei mais umas voltas aos espargos e às migalhas. Acompanhámos os espargos com uma salada verde com Feta e oregãos frescos. Ficou de comer mais e mais, mesmo depois de já estar cheia. Aquele parmesão com as migalhas na manteiga é pecado. Tive que pedir ao meu marido para os retirar da minha frente, pois longe da vista, longe da boca. Ou será que o ditado não é bem assim?