A primavera vem duas vezes

Preparava-me, no jardim, para arrancar os pés secos das favas, quando reparo que por baixo nasce um novo pé. Deixei-os florir e apanhei esta segunda dose inesperada e menor de favas. Como um arco-íris e sua réplica num dia de chuva.
Com vontade de fazer algo mais fresco que a receita clássica, peguei na salada de grão escondida neste post e adaptei-a às favas. Cozi-as em vapor na panela de pressão e temperei-as com cebola roxa picadinha, coentros, azeite, vinagre, flor de sal e pimenta. E foi um ver se t´avias.

Queijo para esquecer e para um aniversário

Tinha uma reunião muito importante. Pela qual esperei anos. Comecei a preparar-me no dia anterior, comendo um leve jantar. Fiz uma salada salada com canónigos,  queijo de nisa cortado em quadradinhos muito pequenos, pevides tostadas, óleo de pevide e maçã ralada.

No dia seguinte, acordei, dei os bons dias ao céu cinzento e frio que ameaçava lá fora, bebi um copo de água gigante, espreguicei-me longamente e, continuando a preparar-me para o grande dia, até uma sessão de yoga  na sala eu fiz.

Meia hora depois, estava à mesa para tomar o pequeno almoço lentamente: pão de centeio com sementes, tostado, barrado com mel, com queijo de cabra cremoso, quase a roçar o brie, e com pinhões por cima. A acompanhar, chá verde.

Fui para o trabalho. Às nove em ponto, bati à porta. A secretária disse-me: “entra”. Estranhei a pontualidade, mas quando vi o escritório vazio, compreendi. Ficámos à conversa, passaram 5, 10, 15, 20 minutos. Ela telefonou para o chefe.” A Sofia está aqui à tua espera”, ao que o chefe responde  “Ah, era hoje a reunião com a Sofia?! Esqueci-me completamente!!”. E eu pensei cá para comigo: “eu comi o queijo e tu é que esqueceste, ó chefe!”

Pois eu comi o queijo e não me esqueci nem da reunião nem do quinto aniversário do Cinco quartos de laranja!  Para a Laranjinha, aqui vai um jantar e um pequeno almoço com cinco ingredientes!

Salada acalma-bebés-a-chorar

Hoje, quando fui fazer o jantar, a minha filha não achou muita graça e começou a chorar. Queria chocolate. Sumos. Bolos. Bolachas. Enfim, queria tudo o que tinha a bolinha vermelha no canto superior direito à hora do jantar. Preparei o esparguete à bolonhosa e entretanto comecei a fazer a salada de alface e a pensar que uma tarefa tão fácil como rasgar folhas de alface se pode tornar tão difícil quando acompanhada por uma orquestra de lágrimas de crocodilo, soluços e uma poderosa voz. Foi então que se fez luz e eu descobri que o que a minha filha queria não eram bolos nem bolachas, mas um bocadinho de interacção e descoberta. Dei-lhe as folhas da alface já lavada e perguntei se queria ser ela a fazer hoje o jantar. Ela olhou para mim e o seu olhar disse-me que sim, dando ordem à sua orquestra do choro para parar. Dei-lhe as folhas para rasgar e disse-lhe para as por na taça das saladas, tarefa que cumpriu com aprimo. Quando terminou, disse-me “já ’tá mamã”. Depois, passei-lhe os oregãos e perguntei se ela queria salpicá-los pela sua salada. À sua resposta óbvia, comecei a fazer o molho da salada. Numa tacinha, juntei azeite, flôr de sal e vinagre balsâmico. Mexi e passei-lhe a tacinha com uma colher para ela ir pondo o molho na salada. Revelando habilidade e espírito prático, rejeitou a colher e despejou o molho na salada, sem entornar um pingo. Depois, com entusiasmo, mexeu a salada, e fê-lo fazendo jus ao ditado do meu bisavô, que dizia que uma salada deve ser temperada por um cego e mexida por um louco. Nesta altura, vi folhinhas verdes a voarem pela cozinha e aterrarem no chão. Eu fiz um exercício zen e pensei que mais valem 2 salpicos verdes a voar do que um lago de lágrimas no chão e uma osquestra desafinada no ar. Limpámos o chão e fomos para a mesa. Aproveitei a onda do entusiasmo e servi directamente a salada. A minha filha pegou numa folha e cheirou. Pôs na boca a singela folhinha de alface e comeu. Depois apontou para o esparguete e pediu-me: “Comida, mamã? Sim?”.

Chicken bollywood

Há uns dias, uma amiga minha indiana apareceu cá em casa com umas pernas de frango em marinada e um filme indiano. A intenção era jantar e ver o filme de bollywood. Pusemos sem demora as pernas (do frango) no forno embrulhadas em papel de alumínio e deixámo-las bronzear. Enquanto as pernocas ganhavam cor, fizemos uma salada, receita de um outro amigo. Ralámos 3 cenouras e duas maçãs, regámos com óleo de sementes de abóbora e deixámos que folhas de frescas de oregãos pousassem. Por fim ralámos gengibre fresco, salpicamos com flor de  sal  e mexemos. Abrimos um Dão, brindámos e preparámo-nos para degustar as pernocas douradas do bicho. A marinada onde as pernas dormiram produziu um molho de sabor intenso onde se descobriu  o azeite, sal, alho e uma masala que só mesmo a minha amiga é que sabe o que contém. O Dão estava bom, a música pedia mais um copito, o frango foi sugado até ao tutano e não lhe sobraram sequer as peles e o fime de bollywood ficou no saco da minha amiga. Mas a nossa converseta que recheou o serão é que tinha dado um belo de um filme indiano!