1494

16 de Outubro de 2565, algures no Planeta Azul.

Hoje é dia do Mar. Sempre senti um fascínio inexplicável por este manto de água. Diz-se que outrora era azul, umas vezes turquesa, outras esmeralda. E que, espante-se, havia até criaturas capazes de nele viver. Nisso, nunca acreditei. Só há cinco espécies de seres vivos e todos morreriam mais de alguns minutos dentro de água. Olhei a janela. A cor sépia do céu reflectia-se no mar. E no chão, cinzento, de pó e pedras. Senti uma fraqueza nas pernas e decidi comer algo. Fui a sintetizador de alimentos e marquei o que precisava: DDR de vitamina D, carbono, açúcar, fibras, proteínas, água, etc. etc. etc. A maquineta pôs-se a trabalhar e saíu uma barra da cor daquele céu, que engoli. Não sei como vim parar a esta vila virada para o mar. Sei que, desde então, não vira vivalma. Nem de rato, nem de barata, nem de morcego. Bom, minto, uma gaivota pairou uma vez na minha paisagem e levou-me a minha barra de alimento daquele dia. Tudo aconteceu depois da grande conflagração dos povos. Ou, deverei dizer, da grande dizimação da vida. Eu salvei-me. E salvou-me a minha máquina de alimento.  E o facto de nenhum Bárbaro, Visigodo, Ostrogodo, Vândalo ou Alano ter sequer suspeitado que tal relíquia ainda existisse, ainda para mais nas mãos de uma criança. Decidi seguir o caminho até ao mar. Por causa do meu fascínio, que nasceu das estórias que me contava o meu Avô. Dizia-me ele que, há muito muito tempo atrás, no tempo em que os pássaros chilreavam, havia quem navegasse nos mares em pequenas casas flutuantes. Queriam descobrir o que havia depois do mar, depois do horizonte. Suspirei e dei uma volta pela casa. Parei em frente àquela roleta de manivela dourada que estava numa das divisões. Nunca me atrevi a dar à manivela, mas a verdade é que aquilo me fascinava. Havia o que parecia ser uma dessas casas flutuantes, havia Reis, havia Animais, Plantas, Palácios. Enfim, todos os personagens das fantásticas estórias do meu Avô. Arrebatado pela Saudade, girei a manivela, girei, girei, gritei, chorei, e de repente, as luzes da máquina acenderam e, no centro da roleta, apareceu “1494”. Senti tudo a girar à minha volta e devo ter desmaiado. Quando acordei, o céu era azul. Levantei-me a custo e quase fui de novo derrubado por alguém apressado, que me disse: “O que estás aqui a fazer, sai da frente, rapaz! Olha vai mas é ver se o rei precisa de préstimos!”, e apontou-me um palácio lindo, a recortar o céu em tons dourados. Belisquei-me. Entrei no palácio e procurei, silencioso, sinal de vida. O meu silêncio era a minha sobrevivência, como tinha aprendido durante a minha peregrinação para o mar. Por detrás de pesados cortinados vermelhos, estanquei. Ouvia vozes.

“… revistei todo o palácio, estamos sózinhos”. “Então debrucemo-nos sobre o mapa. O navegador da minha prima pensa que chegou a Calicut, mas os cálculos dos meus cientistas dizem algo bem diferente”, disse aquele homem de caracter imponente. “Sua Majestade, tem a certeza? Será que esses cálculos têm mesmo poder preditivo?”. “Têm mais que isso”, disse o rei, fixando o seu interlocutor. Ficaram um minuto em silêncio. “Sua Majestade, D. João II, então façamos o seguinte: tracemos uma linha imaginária no eixo longitudinal da Terra e dividamos com Espanha, deixando esta parte de “mar” do lado Português.

Voltei a beliscar-me. Um aroma inebriante chegou-me ao nariz. “Sua majestade, a ceia que pediu. Rojões de vaca com batatas”. De repente, comecei a salivar e dei por mim, hipnotizado, a seguir o cheiro. Deparei-me com o que deveriam ser “rojões de vaca com batatas” e o meu instinto foi mais forte, esquecendo que me tinha que esconder para não ser descoberto. Pus na boca, mastiguei, senti algo sensacional, engoli e comi, comi, até aparecer uma mulher gorda com uma vassoura na mão que me enxotou dali para fora, dizendo: “O que estás aqui a fazer petiz?? Vai já buscar os ovos às galinhas! Ai que levas já com a vassoura!!! Diabo do rapaz…. Ah, se te apanho!” Saí, sem conseguir descrever aquela sensação dos rojões e batatas na minha boca. A que sabe a carne frita lentamente em alho e azeite, temperada com louro? A que sabem batatas fritas? Não sei. A vida, talvez. Bordando o céu azul, um passarinho chlireava pousado num galho verdejante.

D. João II é o meu convidado Aristocrata, do Convidei para Jantar…, desta vez albergado na casa da Alice.

Almôndegas

Ontem, acompanhei um episódio da visita da Frau Merkel a Portugal no youtube. E reparei como a senhora franzia olho e sobrolho a olhar o mar naquele dia de verão de são martinho. Será muita luz para a sua menina do olho, habituada à escuridão do inverno bárbaro.

Aqui o sol está distante e sem brilho. E está frio. E, ainda por cima, não há verão de São Martinho. A minha filha disse-me: “Oh mãe vamos dormir e só acordamos quando formos para Portugal”, e eu concordei, obviamente, estimulando ainda mais a minha vontade de hibernar. Não podendo satisfazer este meu desejo, enrolo-me no conforto do lar com mantas, chá e almôndegas.

E faço-as assim: misturo 500 gr de carne picada com cerca de 4 colheres de sopa de flocos de aveia, 1 dL de natas, (muita) salsa picada, uma cebola picada, sal e pimenta. Misturo tudo e formo bolinhas, que reservo. Faço um molho de tomate bem apurado, com cebola e mais salsa e, quando este fervilha, junto as bolinhas de carne. Deixo cozinhar muito lentamente, em lume brando, por mais de uma hora. E sirvo-as enroladas em linguini.

Monte dos olivais

É um facto: as crianças têm um palato muito apurado. Por isso, rejeitam tudo o que tenha um sabor mais forte e menos doce. Às vezes, é complicado dar legumes, especialmente verdes, à minha filha. Da última vez, para contornar o facto, recorri ao outro sentido que também come e apelei à imaginação.

Fiz um refogado com cebola e alho francês. Juntei carne picada e deixei cozinhar, temperando com sal e pimenta. Cozi millet em caldo de legumes. Cozi bróculos, usando a técnica do Kuka: Mantive a couve intacta e coloquei-a de pé numa panela com dois ou três dedos de água.

Chamei a minha filha para almoçar e ela disse que não queria. Pedi-lhe para vir só ver o prato. Espalhei a carne picada por metade da área do prato fazendo montinhos e o millet pela outra metade. Em cada montinho, espetei um florete dos bróculos. Quando a minha filha chegou à mesa, apontei para o prato e disse: “Aqui é a terra, aqui estão as árvores e ali é a praia. Queres?”

O leitor não precisará adivinhar a resposta óbvia. Nem o estado do prato da pequenota no fim da refeição.

Pergunte ao seu filho: e agora, o que vem para a panela?

Hoje, depois do almoço, dei por mim a pensar na razão que me leva a alimentar o Reino da Prússia. Tudo começou com uma receita de migas e sem grande esperança na longevidade do blogue. Vou registando receitas que não quero esquecer e partilhando estórias que vivemos na nossa cozinha. Acho que é esta partilha o combustível que mantém o Reino da Prússia. Partilho hoje convosco o que se passa nesta cozinha a Leste e, amanhã, poderão as minhas filhas saber com mais pormenor o que lhes ponho hoje no prato. Por isso, decidi hoje passar à frente de todas as entradas que estão em lista de espera para ser publicadas e partilhar o nosso almoço de hoje. Perguntei à minha filha o que queria para o almoço: arroz ou massa? massa, das pequeninas, e tirou o pacote de fusili do armário. Carne, peixe ou vegetariano? vetaiano sem molho com cáne. Tirei meio quilo de carne picada do congelador. E mais? Tomate não. Estes, mamã. E tirou o pacote de pistácios do armário. Despi-me de preconceitos e acedi. E mais? E estes – vieram pinhões, pevides e sementes de girassol. Lentilhas cor de laranja. Vamos por o sal que fizemos ontem, amor? – Ontem fizemos sal aromatizado com tomilho. Sim, eu ponho. Cuidado, já chega! Disse-lhe à segunda colher de chá. Eu pus à minha conta dois cebolos picados porque não tinha cebola e dois tomates secos, para perceber se esta negação ao tomate em que a minha pequerrucha tanto insiste é real ou ficção. E pus um quarto de pimento vermelho, que ela adora crú ou cozinhado. Nóni não, disse-me ela apontando para as cenouras. Perguntei se ela queria pôr cacau. Sim, que pergunta! Pus tudo a cozinhar ao mesmo tempo (excepto as massas) regado com um fio de azeite durante uns cinco ou dez minutos. Juntei bastante água a ferver e deitei os fusili. Foi para a mesa e ela portou-se como uma dama – mas rejeitou o tomate seco.  A mim soube-me a felicidade. Deixo o testemunho desta receita e deixo-lhe a si, caro leitor, a decisão de querer arriscar ou não. Esta combinação de ingredientes ou a pergunta ao seu filho.

O almoço de Natal…

… foi feito com as sobras da noite de consoada. Tinha batatas com alho, tomate cherry assado com azeite e temperado com coentros, tinha carne com molho, muito molho, e tinha a crosta verde. Faltava, mesmo com esta crosta, mais verde. Comecei por suar um zucchini e os floretes de meio bróculo numa frigideira com um pequeno gole de água e só por 5 minutos. Numa forma de barro redonda, fiz uma cama com as fatias de batata e os alhos despidos de sua camisa. Dispus o zucchini, os bróculos e pouco tomate que sobrou por cima das batatas. Depois, foi a carne, cortada em pequenos pedacinhos, para esta cama verde. Reguei agora tudo com o seu consistente molho de legumes e espalhei a crosta verde por cima, qual um crumble verde. Foi ao forno por cerca de 15 minutos a 180 graus, até a crosta dourar e foi para a mesa. E soube tão bem prolongar desta maneira o jantar de consoada para o dia de Natal!

Lá fora, o Natal vestiu branco…

…mas cá dentro, o Natal fez-se de vermelho de calor, de magia e de desejos, fez-se de verde de pinheiro e de saudade. E fez-se de esperança, de felicidade e de descoberta.

Mas decidir o que comporia o jantar de consoada não foi assim tão fácil. O meu marido queria rouladen, eu queria uma receita nova. Depois de alguns argumentos e contra-argumentos, decidimo-nos por carne assada no forno com crosta verde e com batatas no forno. E foi um trabalho a quatro mãos. Era uma peça de carne para assar, com 1 kg. O meu marido selou-a em azeite bem quente e em todos os seus recantos e reservou. Na mesma gordura, refogou cebola com cenoura e alho francês, regou com vinho branco, temperou e deixou cozinhar. Entretanto eu fiz a crosta verde assim: desfolhei três raminhos de tomilho e dois de alecrim, juntei um ramo de salsa, um cebolo, uma fatia de pão duro, 100 gr de manteiga, sal e pimenta. Triturei tudo e juntei azeite até ligar bem. Entretanto já o forno estava a 200 graus e lá estava já a panela, tapada, com os legumes e outra vez com a carne. O meu marido espalhou a crosta em papel próprio para ir ao forno, numa área equivalente à área da carne que queria cobrir e reservou no frigorífico.

Eu comecei a tratar das batatas: descasquei-as e cortei em fatias, não deixando que perdessem a sua forma de batata. Pus numa forma de barro, reguei com azeite, salpiquei com sal e dispersei cerca de 12 dentes de alho com camisa entre uma batata e outra. Entretanto, reparo que o meu marido espreitava por detrás do meu ombro. Apesar de ser um jantar a quatro mãos, foi também por turnos, pois o meu marido já sabe bem o que penso, e o perigo que pode ser, quando alguém abre a porta da minha cozinha. E mesmo sabendo, não se coíbiu e, além de me espreitar por trás do ombro, ainda me disse que eu deveria deixar algum espaço entre as fatias de batata, para que cozinhassem melhor. Eu olhei para o bidente que estava na bancada, olhei para ele, peguei no bidente e dirigi-o às batatas para seguir a sua sugestão, picando e movimentando cada fatia de batata para a esquerda e direita para deixar circular algum ar pelas fatias, e disse-lhe que tinha razão. Bom, a sua sorte é ser assim, tão irresistível!… e a sugestão foi importante, caso contrário, as batatas demorariam muito mais que a hora que precisaram!  Com a carne no forno já há uma hora, juntei a forma de barro com as  batatas. A partir dos 15 minutos, comecei a regar as batatas com o seu próprio azeite.

Quarenta e cinco minutos depois, o meu marido retirou a panela com a carne e colocou-lhe a crosta por cima (o que não foi tarefa tão fácil, apesar de ter já a forma desejada), e eu pus em duas pequenas forminhas de barro, cerca de 10 tomate-cereja regados com azeite e flor de sal. E eu continuei a regar as batatas com o seu azeite. Já com a carne há duas horas a assar, desligámos o forno. O meu marido pôs a carne na travessa, triturou os legumes, rectificou os temperos, voltou a provar e a rectificar.

Levámos à mesa este jantar de consoada, acendemos as velas e deixámo-nos levar pelo  momento de uma noite muito especial e muito feliz, apesar de  faltarem algumas das nossas pessoas, umas por não estarem aqui, outras por já não serem agora. Mas essas e aquelas, fazem falta a qualquer dia, não só na noite de consoada.

Nota 1: a receita da carne foi adaptada de um receita de rosbife de uma compilação da Landlust, de onde também retirei a receita das batatas.

Nota 2: desta vez, até tinha algumas fotos interessantes sobre o jantar mas perderam-se no caminho entre um copy e um past. Peço desculpa aos meus queridos leitores e que apelem à vossa fantasia – e não é o natal uma época de fantasia e magia?

Tertúlia de sabores prussianos

É sempre assim quando tenho convidados. À hora marcada, ainda estou de avental e cabelos no ar e, quando toca a campaínha, não tenho outro remédio que não convidá-los a entrar na cozinha enquanto eu tento acabar tudo o que me tinha proposto fazer e os entretenho com um copo de vinho. Confesso que gosto de cozinhar assim, desde que o nariz dos convidados fique no vinho e não nas minhas panelas! Mas desta vez, tudo foi diferente. Primeiro, porque a minha convidada é virtual e, nestes convívios, o tempo e o espaço não impõem as mesmas restrições e segundo porque quem andou com o nariz nas panelas dos outros, descaradamente, fui eu. Isto tudo porque queria fazer uma refeição tipicamente germânica que relembrasse à minha tão querida convidada, a Moira, que todos nós conhecemos, os seus tempos pelo Sul da Alemanha! E quando se quer uma boa refeição germânica, pede-se a um germânico que a faça. Bom, neste caso, aproveitei a presença da minha Sogra cá em casa para fazer com o meu marido “Spätzle mit Rouladen”.  Spätzle é uma massa típica alemã, cuja tradução à letra, significa pardalinho. Qual a relação, não sei. Mas a verdade é que esta massa, no prato, parece um ninho! Pedi a receita à minha sogra e ela disse: ovos, farinha e água. E quantidades? Então, vês quando tiver uma boa consistência. Bom, esta estória já é velha, então o meu marido, prevenido e metódico, já tinha na sua história, a estória de tentativa e erro até chegar à consistência certa desta massa. Então ele fez assim: juntou 175 g de farinha, 2 ovos, 250 mL de água, sal e um gole de óleo. mexeu com a colher de pau, formando círculos e de cima para baixo. A massa fica com uma consistência muito forte e nada fluída.

Deixou a massa descansar durante 15 minutos. Entretanto, pôs muita água a ferver numa panela. Quando a água borbulhava fortemente pôs sal e óleo e encheu a máquina de pressionar o Spätzle.

Encaixou-a na panela, pressionou a massa para a água borbulhante e repetiu a operação enquanto houve massa.

Tapou bem a panela, pressionando a tampa e deixou cozinhar em lume alto durante 2 ou 3 minutos.  A massa está cozida quando vem ao de cima. Retirou para uma travessa.

Nesta altura já a minha sogra tinha os rolos de carne, ou rouladen, prontos. Que devem começar a preparar-se muito antes do Spaetzle – eu é que comecei a estória pela fim! Então ela fez assim: dispôs numa tábua os bifes finos e compridos. Barrou-os com mostarda em grão e recheou-os com cebola, salsa e bacon picados. Enrolou-os e prendeu-os com fio de cozinha. Marcou-os em azeite quente até dourarem. Retirou e juntou mais salsa, cebola e bacon picados e deixou refogar com cenoura, tomate e vinho tinto (e sal e pimenta). Deixou o molho apurar, reduziu a puré e voltou a juntar os bifes ao molho. Tapou a panela e levou-a ao forno durante uma hora. Levámos o “Spätzle mit Rouladen” à mesa e convidámos a Moira a sentar-se connosco. Moira, espero que tenhas gostado desta refeição, mas a noite ainda agora é uma criança. Depois do jantar, pomos os cachecóis e os gorros, as luvas e o casaco mais quente e acompanhamos o frio até ao Mercado de Natal no centro da cidade, para beber um Glühwein, que não deixa o frio entrar alma a dentro – até porque temos o coração quentinho com tão boa companhia para jantar!

(clique na imagem para os devidos créditos)

“food that celebrates life”

Para mim, qualquer motivo é um bom motivo para celebrar a vida. Mas quando há uma razão especial, a celebração adquire outro sabor. Especialmente se a ocasião for festejada com um belo petisco.

E hoje tenho uma, duas, três razões para celebrar o aniversário um, dois, três das Three (maybe not so) Fat Ladies. Conheci o blog através do Ardeu a Padaria e fui imediatamente cativada pelas pitadas de humor com que as Three Fat Ladies temperam as suas receitas.

Andei às voltas a pensar o que haveria de fazer e nada me ocorria. Tentei fazer um exercício mental, concentrando-me nas Three Fat Ladies e deixando sublimar o que gostariam as senhoras, à luz da construção da sua imagem que o meu subconsciente fez. Vi um pão-refeição, com bacon, cebola e alecrim, mas rejeitei. Vi um bolo merengado, mas levei-o para o desafio dos Ms. E rejeitei à partida saladas e sopas. Nao sei porquê, mas não me pareceu o melhor para festejar o aniversário das três senhoras roliças. Um truque do inconsciente, concerteza. Queria algo exótico e facilmente poderia ter construído uma sopa ou salada com este adjectivo. Mas às sopas e saladas faltava uma certa substância de presença obrigatória nesta celebração. A dúvida manteve-se, até que me lembrei de ter pedido ao meu marido para escolher uma receita de um livro que tinha acabado de chegar à caixa de correio. Era “Food that celebrates life”, da Nigella Lawson, e o título não poderia estar mais apropriado à ocasião.

E é com um “Saké steak”, versão adaptada,  que brindo a este terceiro aniversário das três senhoras redondinhas.


Saí do trabalho com a lista de ingredientes na agenda em direcção ao infantário, mas passando pelo supermercado primeiro. Para fugir a uma aventura radical na zona dos doces. Trouxe 3 bifes de vaca altos (c. 1,5 cm), coentros e cardamomo. Fiz uma marinada com uma colher de chá de mostarda de dijon em grão, 2 colheres de sopa de molho worcestershire, 1 c.s. de molho de soja, 1 c.s. de azeite e uma malagueta. Deixei os bifes a marinar por uma ou duas horas e, entretanto, fui  para a sala, onde a minha filha construía castelos, torres e estórias com a sua caixinha de fantasia e de legos. Viajámos por florestas em mundos distantes, visitámos princesas e regressámos a casa, directas à cozinha.

Comecei a fazer o arroz selvagem que acompanharia os bifes. Perguntei à minha filha se ela me queria passar o arroz. Ela mergulhou no chão e começou a bracejar e espernear como se estivesse a nadar em alta competição, mas com o exercício de choro acrescentado. Tomei esta atitude como um não e segui as instruções da embalagem, acrescentando uma colher de café de cardamomo em pó à água do arroz.

Entretanto chegou o meu marido, que levou a nossa pequena sereia de volta aos seus mundos fantásticos construídos a legos e eu fechei a porta da cozinha, pois prezo a minha intimidade quando estou atrás do avental.

Tirei os bifes da marinada e fritei-os em azeite bem quente, três minutos de cada lado. Embrulhei os bifes em papel de alumínio e deixei descansar por 15 minutos. Assim os bifes cozinham no seu próprio calor, não perdendo sabor. O tempo inicial de fritura e de repouso varia conforme o nível de cocção que se deseja para os bifes. Estes ficaram bem passados. Quem preferir bifes rosados por dentro, deverá diminuir os tempos de fritura e repouso, tendo sempre em conta a altura do bife.

Agora era hora de fazer o molho, cujo primeiro ingrediente seriam 60mL de saké. Não tinha, então pus um cálice de grappa numa panelinha pequena ao lume. E enquanto o alcool evaporava, eu é que comecei a sentir-me levitar para outros mundos, mas concerteza bem diferentes dos mundos por onde a minha filha e o meu marido andavam a esta hora. Já a cantarolar e na verdadeira “mood” para a celebração, apaguei o lume e juntei à grappa 1 c.s. de molho de soja, 3 gotas de molho de peixe nam pla, 1 colher de chá de molho worcestershire e mais uma colher de chá da mostarda em grão. Juntei a este molho os sucos que se formaram durante o repouso da carne no papel de alumínio e mexi. Pus os bifes num tabuleiro, reguei com este molho e salpiquei com os coentros picados.  Fui à mesa ainda enebriada com a grappa, e confesso que, neste caos de cheiros, sabores e grappa que me enebriaram os sentidos durante estes cozinhados à porta fechada, foram os coentros que sobressaíram e deram uma nota fresca e bastante positiva à mistura de sabores e tons que compuseram este prato. O meu marido, que mantinha o seu olfacto e paladar intactos, aprovou a combinação. A minha filha aprovou o bife simples temperado com alho e limão que lhe fiz e contou-me o seu dia em mundos que eu já não sabia existirem e numa linguagem que eu ainda desconheço.

Chicken bollywood

Há uns dias, uma amiga minha indiana apareceu cá em casa com umas pernas de frango em marinada e um filme indiano. A intenção era jantar e ver o filme de bollywood. Pusemos sem demora as pernas (do frango) no forno embrulhadas em papel de alumínio e deixámo-las bronzear. Enquanto as pernocas ganhavam cor, fizemos uma salada, receita de um outro amigo. Ralámos 3 cenouras e duas maçãs, regámos com óleo de sementes de abóbora e deixámos que folhas de frescas de oregãos pousassem. Por fim ralámos gengibre fresco, salpicamos com flor de  sal  e mexemos. Abrimos um Dão, brindámos e preparámo-nos para degustar as pernocas douradas do bicho. A marinada onde as pernas dormiram produziu um molho de sabor intenso onde se descobriu  o azeite, sal, alho e uma masala que só mesmo a minha amiga é que sabe o que contém. O Dão estava bom, a música pedia mais um copito, o frango foi sugado até ao tutano e não lhe sobraram sequer as peles e o fime de bollywood ficou no saco da minha amiga. Mas a nossa converseta que recheou o serão é que tinha dado um belo de um filme indiano!

Carne de porco à alentejana

Ontem eu e o meu marido comemorámos o nosso jubileu e vou contar-vos aqui a iguaria culinária com que festejámos mais um ano de amor. A ideia do prato veio do meu marido e a receita do Pantagruel. Comecei por deixar as ameijoas em água com bastante sal para sair a areia. Fiz uma marinada com vinho branco, vinagre, alho, pimentao doce e louro, mas nao deixei marinar por um dia como o pantagruel aconselha, apenas por meia hora. Descasquei batatas, cortei-as aos cubinhos e pus num pirex. Reguei com azeite e foi ao forno a 180 graus por 40 min. Volta e meia dei umas voltas às batatas. Entretanto, fritei levemente a carne em azeite e juntei a marinada, deixando cozinhar por meia hora na panela de pressao, o que foi tempo a mais e produziu muito caldo. Juntei entao as ameijoas e, assim que estas abriram, retirei do lume. Juntei coentros frescos picados e as batatas e reguei com sumo de 1 limao. Mexi tudo e a panela foi para a mesa. Abrimos uma garrafa de proseco, brindamos e fizemos mutuos votos de mais 100 anos de felicidade. Pelo menos. Bom, 50 ou 60 já não era nada mau. Limpámos a panela, esvaziámos a garrafa, queimámos as velas até ao fim e viajamos nas nossas palavras, enlevados no aroma do amor. E para o amor nao ha receita, nao e??