Uma mensagem de parabéns

Querida Moira,

É verdade que tenho andado um pouco afastada da blogosfera e em modo “atitude passiva”. Mas o aniversário do Tertúlia em boa hora me fez arrancar do “sofá” da passividade e abraçar este desafio. Que iria participar não tinha dúvidas, mas confesso que eu própria me rodeei de obstáculos imaginários. Um deles, foi o bem conhecido argumento “Não sei enrolar tortas.” Mas os obstáculos servem para ser contornados ou ultrapassados, então foi com prazer que este serão, depois das pequenotas irem para a cama, me dirigi ao forno para fazer uma torta.

Já tinha tudo preparado. Receita estudada e ingredientes a postos. Coincidindo a data com uma meatless monday, faria uma torta vegetariana, salgada, inspirada numa receita de um livro vegetariano. Nada poderia falhar.  Há anos que marquei esta receita e, ao pensar que finalmente a conseguiria por em prática, senti um certo prazer. Abro o livro na bancada na página indicada, giro 180º sob mim própria, vou ao meu caderno de receitas, e abro na página: “Torta de laranja da Avó”. Não sei o que me fez fazer isto, mas acho que tal como tudo o que tem que acontecer, acontece, também o que tem que não acontecer, não acontecerá. Ficam assim, a receita e sua marca, presas entre as folhas de um livro vegetariano espanhol por mais uma outra eternidade.

Comecei por ligar o forno a 150º e forrei uma forma redonda, porque não tenho nenhuma rectangular pequena, com papel vegetal. A receita original pedia 8 ovos, mas tendo apenas cinco, escalei a receita usando o olhómetro, De 450 de açúcar (integral) pus apenas 200, de 2 colheres de sopa de farinha, pus apenas 1 e meia e pus o sumo e raspa de uma laranja, tal como pedia a receita original. Bati os ovos, adicionei o açúcar misturado com a farinha e continuei a bater e, finalmente, juntei o sumo e raspa da laranja. Levei ao forno durante cerca de 20 minutos. Depois, estendi um pano húmido na bancada, retirei a massa da forma, mantendo o papel vegetal, e pu-la por cima do pano, calcei as luvas-pega do forno e comecei a enrolar. Desta vez sem partir. Afinal, não foi assim tão difícil.

Querida Moira, espero que gostes desta torta. Eu adorei participar. Confesso que já sentia saudades de um desafio.  Ao Tertúlia e a ti, um grande beijinho de parabéns pelo sexto aniversário. O Tertúlia, foi um dos primeiros food blogs que conheci. O primeiro foi o Ardeu a Padaria em 2004 e depois o teu e o da Pipoka.  🙂

Um grande beijinho vindo do frio da Prússia.

PS1: reparo agora que já houve várias participações com tortas de laranja. Agora mais uma! ;). PS2: os 200 gr de açúcar podem ser ainda mais reduzidos. A torta ficou tão doce que me fez pensar que os 450 gr que a receita original dita não são mais que o erro tipográfico.

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No bake cake for world baking day

Celebro o “World Baking Day” com salame de chocolate. Trouxe a receita da casa da Helena e desde já aconselho o caro leitor a seguir com especial atenção as notas adicionais do autor. Apesar de ser um bolo (será que se pode definir como bolo?) que não entra na prateleira do forno, mas sim na prateleira do frigorífico, pensei que talvez nem coubesse num desafio que nos convida a usar o forno. Num segundo pensamento, relativizei tudo em torno da temperatura. Voltei a vacilar com a receita do salame porque este desafio nos pede para sair da zona de conforto. Assim surgiu mais um obstáculo, porque para mim chocolate é conforto. E depois esta receita é canja. A minha filha fá-la-ia  sozinha, decerto, não fosse o derreter o chocolate. Embrulhada nestes pensamentos, decidi olhar o problema numa outra perspectiva e argumentei comigo mesma que a minha experiência com bolos tão fáceis que até uma criança os faria não é exactamente a melhor. Então, estava decidido. Fiz a receita a dobrar, mas em vez de chocolate de leite, usei chocolate a 70% e bolachas de manteiga a 13% em vez de bolacha maria. Reduzi então a quantidade total de manteiga em 13% usando o olhómetro e acabei por manter a quantidade de manteiga para uma dose nas duas doses.

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Pus 400 gr. de bolacha num saco, fechei-o e dei-lhe umas belas pancadas secas até as bolachas ficarem em pedacinhos. Derreti 220 gr. de chocolate com 75 gr. de manteiga em banho maria. Entretanto, bati 2 ovos com 120 gr. de açúcar integral. Misturei tudo e dividi em dois “chouriços”, que embrulhei em papel de alumínio. Levei ao frio. Aqui em casa, todos gostaram, da mais pequenina ao maior. Outros prussianos provaram o salame e as reacções foram engraçadas. “Salame? Com chocolate? É doce ou salgado?”, ou “Ah, ah, ah. é duro como um salami de verdade!”. Para finalizar, devo relembrar o caro leitor, caso queira seguir a receita, de não se esquecer que as importantes notas do autor não são de desprezar.

O poema possível

Para mim, os poemas não pertencem em livros. Aí, estão estrangulados, presos entre páginas e pó. Os poemas, são para ser cantados e gritados. E, hoje, só há um poema possível*:

Grândola, vila morena
Terra da fraternidade
O povo é quem mais ordena
Dentro de ti, ó cidade
Dentro de ti, ó cidade
O povo é quem mais ordena
Terra da fraternidade
Grândola, vila morena
Em cada esquina um amigo
Em cada rosto igualdade
Grândola, vila morena
Terra da fraternidade
Terra da fraternidade
Grândola, vila morena
Em cada rosto igualdade
O povo é quem mais ordena
À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade
Jurei ter por companheira
Grândola a tua vontade
Grândola a tua vontade
Jurei ter por companheira
À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade
 Para jantar, fiz coelho na panela – e: qualquer relação entre este coelho e qualquer outro roedor é pura coincidência!
Do bicho já esquartejado no talho, trouxe três pernas. Afoguei-as em muito vinho tinto, louro e alho e deixei marinar três horas. Aqueci azeite numa panela resistente ao forno e selei-as. A minha filha perguntou: “Ó mãe, vais matar o coelho na panela?” Eu disse-lhe que não, que quando comprei o coelho, ele já vinha morto. E decidi não alongar mais a conversa. Com as pernocas bem tostadas, juntei vegetais de todas as cores. O laranja da cenoura, o vermelho da beterraba e o amarelo da batata. Juntei duas cebolas em quartos.
Quando os vegetais ficaram tão bem misturados com o coelho que já não era possível distinguir a cor de cada vegetal, a única coisa a fazer foi juntar a marinada de vinho. Levei ao forno cerca de 40 minutos.
Depois, no prato, completei com a cor esperança da salada e cantei o poema à minha mesa sentado.

1494

16 de Outubro de 2565, algures no Planeta Azul.

Hoje é dia do Mar. Sempre senti um fascínio inexplicável por este manto de água. Diz-se que outrora era azul, umas vezes turquesa, outras esmeralda. E que, espante-se, havia até criaturas capazes de nele viver. Nisso, nunca acreditei. Só há cinco espécies de seres vivos e todos morreriam mais de alguns minutos dentro de água. Olhei a janela. A cor sépia do céu reflectia-se no mar. E no chão, cinzento, de pó e pedras. Senti uma fraqueza nas pernas e decidi comer algo. Fui a sintetizador de alimentos e marquei o que precisava: DDR de vitamina D, carbono, açúcar, fibras, proteínas, água, etc. etc. etc. A maquineta pôs-se a trabalhar e saíu uma barra da cor daquele céu, que engoli. Não sei como vim parar a esta vila virada para o mar. Sei que, desde então, não vira vivalma. Nem de rato, nem de barata, nem de morcego. Bom, minto, uma gaivota pairou uma vez na minha paisagem e levou-me a minha barra de alimento daquele dia. Tudo aconteceu depois da grande conflagração dos povos. Ou, deverei dizer, da grande dizimação da vida. Eu salvei-me. E salvou-me a minha máquina de alimento.  E o facto de nenhum Bárbaro, Visigodo, Ostrogodo, Vândalo ou Alano ter sequer suspeitado que tal relíquia ainda existisse, ainda para mais nas mãos de uma criança. Decidi seguir o caminho até ao mar. Por causa do meu fascínio, que nasceu das estórias que me contava o meu Avô. Dizia-me ele que, há muito muito tempo atrás, no tempo em que os pássaros chilreavam, havia quem navegasse nos mares em pequenas casas flutuantes. Queriam descobrir o que havia depois do mar, depois do horizonte. Suspirei e dei uma volta pela casa. Parei em frente àquela roleta de manivela dourada que estava numa das divisões. Nunca me atrevi a dar à manivela, mas a verdade é que aquilo me fascinava. Havia o que parecia ser uma dessas casas flutuantes, havia Reis, havia Animais, Plantas, Palácios. Enfim, todos os personagens das fantásticas estórias do meu Avô. Arrebatado pela Saudade, girei a manivela, girei, girei, gritei, chorei, e de repente, as luzes da máquina acenderam e, no centro da roleta, apareceu “1494”. Senti tudo a girar à minha volta e devo ter desmaiado. Quando acordei, o céu era azul. Levantei-me a custo e quase fui de novo derrubado por alguém apressado, que me disse: “O que estás aqui a fazer, sai da frente, rapaz! Olha vai mas é ver se o rei precisa de préstimos!”, e apontou-me um palácio lindo, a recortar o céu em tons dourados. Belisquei-me. Entrei no palácio e procurei, silencioso, sinal de vida. O meu silêncio era a minha sobrevivência, como tinha aprendido durante a minha peregrinação para o mar. Por detrás de pesados cortinados vermelhos, estanquei. Ouvia vozes.

“… revistei todo o palácio, estamos sózinhos”. “Então debrucemo-nos sobre o mapa. O navegador da minha prima pensa que chegou a Calicut, mas os cálculos dos meus cientistas dizem algo bem diferente”, disse aquele homem de caracter imponente. “Sua Majestade, tem a certeza? Será que esses cálculos têm mesmo poder preditivo?”. “Têm mais que isso”, disse o rei, fixando o seu interlocutor. Ficaram um minuto em silêncio. “Sua Majestade, D. João II, então façamos o seguinte: tracemos uma linha imaginária no eixo longitudinal da Terra e dividamos com Espanha, deixando esta parte de “mar” do lado Português.

Voltei a beliscar-me. Um aroma inebriante chegou-me ao nariz. “Sua majestade, a ceia que pediu. Rojões de vaca com batatas”. De repente, comecei a salivar e dei por mim, hipnotizado, a seguir o cheiro. Deparei-me com o que deveriam ser “rojões de vaca com batatas” e o meu instinto foi mais forte, esquecendo que me tinha que esconder para não ser descoberto. Pus na boca, mastiguei, senti algo sensacional, engoli e comi, comi, até aparecer uma mulher gorda com uma vassoura na mão que me enxotou dali para fora, dizendo: “O que estás aqui a fazer petiz?? Vai já buscar os ovos às galinhas! Ai que levas já com a vassoura!!! Diabo do rapaz…. Ah, se te apanho!” Saí, sem conseguir descrever aquela sensação dos rojões e batatas na minha boca. A que sabe a carne frita lentamente em alho e azeite, temperada com louro? A que sabem batatas fritas? Não sei. A vida, talvez. Bordando o céu azul, um passarinho chlireava pousado num galho verdejante.

D. João II é o meu convidado Aristocrata, do Convidei para Jantar…, desta vez albergado na casa da Alice.

Stockbrot vira “pão de queijo”

Para comemorar a sétima edição do World Bread Day, eu queria falar sobre uma engraçada maneira que os prussianos têm de comer pão em comunidade. Tudo começa por um passeio à floresta para apanhar paus, que devem ser longos e compridos, tal como um cajado. Depois, chegando a casa, faz-se a massa. Misturei 400 gr de farinha com 40 de manteiga derretida e água tépida e bati até ter uma massa suave. Juntei à massa sal e tomilho seco.  Levei a massa para o quintal onde a festa já decorria. Ao por do sol, fez-se uma fogueira e cada um pegou numa bolinha de massa e esticou até que a bolinha parecesse uma cobra. Depois, enrola-se a cobra, em forma de espiral, no pau. E leva-se ao fogo, virando e revirando o pau na mão, até que a cobra de massa fique dourada. Na hora de provar, fiquei contente por ter feito também uma massa doce, porque a salgada ficou salgada demais e ficou assim no alguidar em vez de seguir o seu destino até à fogueira. E no alguidar esquecida ficou durante um dia e duas noites, quando comecei a sentir um cheiro azedo. Ia deitá-la fora quando, ao destapar, verifiquei que a massa tinha crescido para mais do dobro. Não, não ia deitá-la fora, mas bati-a mais uma vez, estiquei-a tal como se massa de pizza fosse e pu-la em forno quente e pincelada com azeite. Deixei-a assar bem, até ficar dourada e estaladiça. Foi para a mesa de jantar e perguntei ao meu marido se gostava: “mmm, que boa… mmm, estaladiça, e com queijo fica tão boa, nham nham”.

A luz trespassava por entre as brechas das persianas, deixando vislumbrar partículas de pó que pairavam no ar daquela sala de jantar fechada há décadas. Um zumbido estridente, de uma mosca oportunista, cortou o silêncio da tarde de verão. O chão de pedra e o o mobiliário austero iriam assistir, agora, a um jantar que acomodava mentes brilhantes, transversais ao espaço e ao tempo.

Ouviu-se um pequeno rangido. Seria homem, seria rato? O vento não era, certamente. Seguiu-se o silêncio. Uma sombra e o esvoaçar de um cortinado cortaram o espaço mais uma vez. Seria o primeiro convidado?

Lá fora, os cães começaram a ladrar nervosamente e, aos seus latidos, juntaram-se miados estridentes. De quatro gatos. Fedorentos.  O silêncio deu agora lugar à galhofa!  As gargalhadas quase que abafaram o toque da campainha. Um dos gatos abriu a porta e os braços ao próximo convidado! “Marcel! Também estás cá! Então, que espécie de não-arte é que vais fazer hoje??” Entre gargalhadas, boas conversas e petiscos, Marcel Duchamp desconstruía e construía a sala de jantar, à procura de um novo conceito. Até que o filho de Flor chegou e lhe mostrou, sem palavras, que agora o conceito era “comer a sopa”. Pessoa e suas pessoas observam, enternecidos, as crianças a brincar. Enquanto isso, Gaudi tenta captar a atenção dos presentes, falando da Sagrada Família. Apenas Parvus lhe dá atenção. Por entre duas baforados do seu Montecristo, interrompe-o: “António, importa-se de trocar de cadeira comigo?”

A noite avança e a mesa vai-se enchendo de petiscos e convidados. Agora é tempo para uma pausa na risota e conversa, para um momento musical com o Maestro Armand Diangienda e a orquestra que ele dirige em Kinshasa.

Foi então que uma onda de luz e calor inundou a sala. Era Madre Teresa de Calcutá. Um coração brilhante, no meio de mentes brilhantes.

Guida dirigiu-se à porta. Foi ela a única a ouvir uma leve pancada. “Sabia que a sua campainha está avariada?” Era Leonardo da Vinci. Entra na sala de jantar e sorri, agradado, com tamanha confusão que se vive neste jantar. “Ah! Madame Curie! Que alegria ver-te aqui! Tenho que dar-te os parabéns pelo teu grande contributo à ciência!”, “Oh, Leonardo, que charmante!”, respondeu Marie Curie com um sorriso. Embrenharam-se os dois numa conversa sobre ciência, enquanto saboreavam um bolo de nozes e courgette. Enquanto Leonardo e Madame Curie discutiam a ciência de ontem e a ciência de hoje, Guttenberg e Jobs, discutiam tecnologias de ontem e de hoje.

Eu observava, contente, todos os meus convidados enquanto bebericava um copo de tinto e petiscava um lombo recheado. Alheei-me por uns instantes e refugiei-me no vazio. Ao olhar para a parede, pisquei os olhos, voltei a olhar, confusa. “Mas… eu tinha a certeza que o quadro na parede era a última ceia!…”. “E tinhas razão. Mas eu troquei-o pelo meu beijo.” Ouvi alguém dizer-me, como se tivesse adivinhado os meus pensamentos. Pus o copo de tinto de lado e decidi ir apanhar ar lá fora. No terraço, deitei-me no telhado, fechei os olhos por instantes. Para deixar as estrelas entrar, tal como fazia na adolescência. Ao olhar a imensidão do céu, voltei a compreender que não somos mais que um grão de areia no universo. Um grão significante no Cosmos. E pensei em Erastotenes e sua experiência simples e genial. “PENG! PENG! PENG!”, ouvi, e alguém disse que estava na hora do churrasco. Depois, uma gargalhada: “AHAHAH, o homem do churrasco foi o verdadeiro homem que mordeu o cão!

A aurora rompia quando chegou o último convidado. Trouxe uma fatia de bolo de mirtilos com formigas e disse que, a caminho do jantar, foi parar a um piquenique bastante animado. Ao ver a fogueira crepitante, dissertou sobre o amor.

A um canto da sala, sentava-se Freud, de sobrolho franzido e braços cruzados, pensado … sabe-se lá em quê, enquanto Marx dormitava sossegadamente.

Assim encerra mais uma sessão do Convidei para Jantar, que entra agora de férias e volta em Setembro. 

Convidei para jantar …

Cheguei a casa com os sacos das compras e pronta para preparar o jantar de hoje. Desta vez, tinha tudo organizado: a ementa apontada num rascunho, todos os ingredientes na bancada da cozinha e ainda bastante tempo até à hora marcada. Comecei pela sobremesa: bolo de chocolate e beterraba. Adaptei a receita da Leonor, reduzindo a quantidade de açúcar, manteiga e farinha e aumentando a quantidade de chocolate.

Bati três ovos com 125 g de açúcar amarelo até ficar uma espuma volumosa e esbranquiçada. Derreti uma barra de chocolate de 200g com  uma colher de sopa de manteiga e outra de leite. Entretanto, misturei os secos: 125 g de açúcar amarelo, 3 colheres de sopa de farinha e 50 g de cacau em pó com 50 g de chocolate em pó. Triturei 200 g de beterraba cozida e juntei aos ovos. A esta mistura, juntei o chocolate derretido e, finalmente, envolvi os secos suavemente. Distribuí a massa pela forma e, ao por o bolo em forno aquecido a 180 graus, toca a campaínha.

“Quem será?”. Pensei nem abrir a porta, mas em boa hora fui, pois foi o meu convidado que chegou. Convidei um prussiano de gema, uma mente brilhante capaz de prever o sistema capitalista que vivemos hoje, 150 anos antes. Era Karl Marx que estava à minha porta. Dei-lhe as boas vindas e recolhi o casaco pesado deste velhote de barbas brancas. Também lhe disse que não o esperava tão cedo. “Ah, já estou muito velho… e, desde que cheguei ao mundo dos mortos, que perdi um pouco a noção do tempo. Mas cheira muito bem!”.

Desliguei o forno e servi-lhe uma fatia de bolo. Perguntei se preferia acompanhar com chá ou café. Pediu-me um café forte, preto. Fiz, e arrisquei a piada fácil: “Aqui está, capaz de acordar um morto!”. Ele, riu-se. Entretanto, o meu marido perguntou-lhe como é que ele foi capaz de prever o sistema capitalista em que vivemos com tal precisão. Embrenhámo-nos na conversa e ele pergunta-nos: “E vocês, o que fazem para fugir a esse tal sistema capitalista em que vivem?”.

Ao terminar a pergunta, tocou a campaínha. Noto uma certa agitação em Marx. Ao abrir, outro senhor de barba branca. “Sigmund Freud”, apresentou-se. “Sei que o meu amigo Marx está aqui”. Assenti e convidei-o a entrar. Marx e Freud cruzaram olhares e logo Marx nos disse: “Peço desculpa… mas sabem, no mundo dos mortos pouco se passa, e quando há um acontecimento como este Convidei para Jantar, há sempre um burburinho…” Eu disse-lhe que fiquei contente com a surpresa e servi uma fatia de bolo e uma chávena de café a Freud. Ele provou e comentou sobre a consistência do bolo e logo eu, sem que ninguém me perguntasse, revelei o segredo do vegetal de vermelho vibrante, disfarçado pelo castanho do chocolate.  Logo Freud, de olhar intenso, me perguntou: “Como é que você se sentiu quando viu as suas mãos manchadas de sangue?!?!?”, ao que lhe respondi: “É, realmente, assombrante, o que nos acontece ao tocarmos na beterraba.”, “Ao tocar na beterraba?!?!”, ripostou Marx, “vocês têm a noção da pressão que vocês, consumidores, impõem aos produtores de café e chocolate para estarmos aqui e agora a apreciar este bolo e este café?!”. Dei-lhe razão e perguntei-lhe porque vivemos num sistema de mercado livre. Acho que o preço de um produto deveria reflectir o trabalho do produtor e deveria haver uma margem fixa de lucro, definida em percentagem sobre o preço efectivo de produção – para que não se caísse na tentação de diminuir o custo de produção para aumentar o lucro – e era nesta margem que entrariam as comissões dos intermediários. Acrescentei que isto era o que os políticos deveriam fazer e todos se riram com a minha ingenuidade. Pode ser que, por detrás de um pequeno político esteja um grande capitalista, mas à volta do político e do capitalista está o povo.

Assim, depois de receber o testemunho da Carla, abro a edição de Junho/Julho da iniciativa “Convidei para Jantar”, iniciada pela Ana.

Proponho-vos o tema “Mentes brilhantes” e digam-me quem vocês admiram, quem é que vocês acham que tem a centelha da genialidade.

Para participar, basta responder a este post com a vossa participação até ao dia 16 de Julho.

The white Tiger

São poucos os livros que me prendem. Na verdade, cada vez menos. Na minha infância, qualquer livro de aventuras ou de banda desenhada me fazia viajar sentada no sofá. Hoje, a maior parte dos livros que leio são o meu soporífero. Viajo, sim, mas para o mundo dos sonhos.

Numa viagem a Londres, comprei este romance de Aravind Adiga e, no vôo de regresso, não estava sentada num lugarzinho apertado de um avião  low cost, mas totalmente submersa na estória do Tigre Branco. Gosto de livros assim, que me acompanham quando os não leio. Gosto quando os seus personagens entram no meu dia a a dia e caminham comigo lado a lado. Compram comigo o jornal e dizem-me o que devo fazer para o jantar. Gosto desta ilusão de misturar a realidade com a ficção, de ir até ao limite e pisar a fronteira, deixando os personagens entrar no meu dia a dia.  E gosto de entrar eu, por vezes, na sua pele.

Por este livro ser tudo isso, decidi convidar espontaneamente o seu autor para jantar. Não conhecendo a sua casta ou religião, não tinha ideia de quais os seus hábitos alimentares. Então decidi fazer legumes aromatizados com bela luísa e acompanhados com esparguete. Salteei tirinhas de pimento vermelho, cebola roxa e alho francês em azeite e juntei uns raminhos de bela luísa. Expliquei-lhe por que me tinha decidido por uma refeição vegetariana e ele riu-se. Depois perguntei-lhe se aquele expressão de “half-baked” era mesmo verdadeira. E até que ponto o setting do seu romance era real. No final da refeição, dirigiu-se à estante onde estão os livros e comentou que não encontrava ali a razão pela qual tinha sido convidado. “Emprestei-o”, expliquei-lhe, “tal como faço com todos os meus livros preferidos…”. Ele voltou a rir-se e disse-me: “Fizeste bem. Assim puseste o meu livro em viagem e não o deixaste morrer empoeirado numa estante.” Torci o nariz à parte do empoeirado, mas gostei da sua visão positiva. Se há objectos com personalidade, com alma e sem dono, são os livros. São eles os meus mestres, que comandam o meu pensamento enquanto os leio. Assim, há que deixá-los seguir o seu caminho e cumprirem o seu karma.

Assim participo na edição de Maio/Junho do CPJ, desta vez na cozinha da Carla.

Um prato de cogumelos e os telhados da Prússia

Há dias assim: acordei a meio do meu sono de beleza, graças à minha princesa da Prússia, que me arrastou para um pequeno almoço antes do seu tempo. Tentei jogar  o jogo do silêncio, mas ela não gostou lá muito da regra essencial: quem falar, perde. E eu, ao pequeno almoço, preciso do meu silêncio. Para mim, o pequeno almoço é o prolongamento do sono. O cérebro continua a dormir e eu arrasto o corpo para a minha chávena de café. Gosto de tomá-la sem conversa, sem decisões, sem pressa. Não foi o caso.

E o almoço não correu melhor: fiz uma omelete de cebola e azeitonas, boa, mas a confecção foi um desastre, com direito a ovos no chão e cozinha de pernas para o ar. Decidi fazer a sesta. Boa decisão. No café, depois,  pedi um paraíso na terra (hei-de pôr aqui a receita). Má decisão… Sentada na esplanada aproveitando o sol, pensei que agora, só mesmo ao pôr do sol me poderia reconciliar com a noite, já que o dia…

Pensei no que me apeteceria comer para dar a volta a este dia. Pensei. Veio-me à memória os bolinhos de batata num prato de cogumelos que a Suzana trouxe a uma festa do reino da Prússia.

E foi mesmo isso. Olhei os céus mutantes lá fora, rasgados por telhados, chaminés e antenas, e propus-me a seguir a receita. Abri o frigorífico e reparei num resto de chucrute com puré de batata. Era mesmo assim que iria fazer os bolinhos da Suzana.

Deixei fervilhar o puré com o chucrute, juntando um alho como diz a receita. Entretanto, cortei os cogumelos  e uma cebola. Voltei ao puré: verifiquei a consistência e juntei alguma farinha para poder formar bolinhos. Aqueci azeite numa frigideira anti aderente e fui colocando os bolinhos, até alourarem. Quando ficaram prontos, fritei a cebola na mesma frigideira e, já transparente, juntei os cogumelos. Temperei com sal e oregãos. Servi com uma salada do meu Chef.

E assim me conciliaria com os céus mutantes, rasgados, não fosse a minha filha estar constantemente a perguntar-me: “óh mãe, onde está a Cinderella? Posso ver a Cinderella??” Foi assim que decidi, à última, que haveria de trazê-la para jantar. Com sorte, a Gata Borralheira oferecer-se-ia para lavar a loiça… Mas, infelizmente, não. Fez as alegrias da minha filha e abalou no seu coche para um palácio qualquer num mundo das nuvens. E assim acabou direito um dia do avesso…

Olha que Portugal não é a Grécia

Estava num dia não. Cansada de um longo dia de trabalho, esperava o eléctrico atrasado. Não fosse a barriga de 7 meses, a fome e aquela chuva miudinha irritante, faria a colina a pé. E ainda tinha que passar pelo supermercado, pois tinha hoje uma convidada para jantar e nada preparado. Subiu o 28 apinhado e alguém prontamente lhe ofereceu um lugar para se sentar. Fechou os olhos e começou a pensar o que haveria de fazer para o jantar. Nada lhe ocorria. Mas sabia de antemão que não se conteria e confrontaria a sua convidada com uma sua receita que experimentou e ficou aquém do esperado. A paragem do supermercado passou e ela não se apeou. “Que se lixe”, pensou. Alguma coisa hei-de ter no frigorífico.

Em casa, reinava o caos. Brinquedos espalhados, roupa para dobrar (já há muito que tinha desistido de engomar) e frigorífico vazio. Aliás, este caos fazia parte da alma da casa. Muitas vezes, dizia ao seu marido, jocosa, “é no meu deste caos que vive o nosso Amor”. Sorriam e abraçavam-se, sentindo a vida a pulsar neles. E ele rematava, “as casas são para se viver, não para se arrumar!”. Já se sentia melhor.

Na cozinha, o frigorífico vazio e a loiça acumulada ainda do almoço deixaram-na a pensar que a única alternativa para o jantar era ir ao “Franganotas”. Decidiu fazer um arroz de grelos. Prontamente, fritou um alho em azeite e colocou arroz carolino, uma mão cheia por adulto, meia por criança. Envolveu o arroz no azeite e juntou água. Quando ia juntar os grelos, reparou que não os tinha. Então juntou uma couve verde frisada e mandou vir os frangos de churrasco. Fez uma salada de alface, tomate e cebola, temperada com azeite, sal e oregãos. 

Toca a campainha, chegam os convidados. A sua convidada chega com o marido e filhos e rapidamente se põem à vontade. As crianças brincam juntas enquanto os adultos conversam animadamente. A dada altura, ela diz-lhe, “Gostei muito do teu livro sobre Portugal. Belíssimas imagens e receitas que fazem parte do meu imaginário infantil. Mas olha que experimentei a tua receita de pastéis de nata e não me saiu nada bem!”, “E o que estavas à espera quando uma Grega a cozinha especialidades Portuguesas???” Todos riram e, à sobremesa, ela disse a Tessa Kyros: “Então experimenta agora este pastéis de nata”, passando-lhe um prato com queijadinhas de leite (cuja receita vai chegar no próximo post).