(*Meatless Monday*) Albricoques

Imagem

Nigel Slater, Ripe. Aqui fui buscar esta receita, hipnotizante, agora em repeat na minha cozinha. Sempre que os albricoques ou nectarinas não são doces como gostaria, trato-os com açúcar e bela luísa. 

Faço um chá de bela luísa em meio litro de água, ao qual junto 2 colheres de sopa de açúcar integral. Num pirex, distribuo meio quilo de albricoques abertos ao meio e descaroçados. Mas deixo um ou dois caroços, seguindo a sugestão de Nigel Slater, para um toque de magia. Levo ao forno a 180 graus durante meia hora ou até os frutos ficarem suaves. Sirvo frio com iogurte de baunilha.

Imagem

“Whenever possible, I keep the pit in. (…) The stone is the heart and soul of the fruit and its faint almond note seems (…) to work a little magic.”, in Nigel Slater, Ripe

The white Tiger

São poucos os livros que me prendem. Na verdade, cada vez menos. Na minha infância, qualquer livro de aventuras ou de banda desenhada me fazia viajar sentada no sofá. Hoje, a maior parte dos livros que leio são o meu soporífero. Viajo, sim, mas para o mundo dos sonhos.

Numa viagem a Londres, comprei este romance de Aravind Adiga e, no vôo de regresso, não estava sentada num lugarzinho apertado de um avião  low cost, mas totalmente submersa na estória do Tigre Branco. Gosto de livros assim, que me acompanham quando os não leio. Gosto quando os seus personagens entram no meu dia a a dia e caminham comigo lado a lado. Compram comigo o jornal e dizem-me o que devo fazer para o jantar. Gosto desta ilusão de misturar a realidade com a ficção, de ir até ao limite e pisar a fronteira, deixando os personagens entrar no meu dia a dia.  E gosto de entrar eu, por vezes, na sua pele.

Por este livro ser tudo isso, decidi convidar espontaneamente o seu autor para jantar. Não conhecendo a sua casta ou religião, não tinha ideia de quais os seus hábitos alimentares. Então decidi fazer legumes aromatizados com bela luísa e acompanhados com esparguete. Salteei tirinhas de pimento vermelho, cebola roxa e alho francês em azeite e juntei uns raminhos de bela luísa. Expliquei-lhe por que me tinha decidido por uma refeição vegetariana e ele riu-se. Depois perguntei-lhe se aquele expressão de “half-baked” era mesmo verdadeira. E até que ponto o setting do seu romance era real. No final da refeição, dirigiu-se à estante onde estão os livros e comentou que não encontrava ali a razão pela qual tinha sido convidado. “Emprestei-o”, expliquei-lhe, “tal como faço com todos os meus livros preferidos…”. Ele voltou a rir-se e disse-me: “Fizeste bem. Assim puseste o meu livro em viagem e não o deixaste morrer empoeirado numa estante.” Torci o nariz à parte do empoeirado, mas gostei da sua visão positiva. Se há objectos com personalidade, com alma e sem dono, são os livros. São eles os meus mestres, que comandam o meu pensamento enquanto os leio. Assim, há que deixá-los seguir o seu caminho e cumprirem o seu karma.

Assim participo na edição de Maio/Junho do CPJ, desta vez na cozinha da Carla.

o processo no castelo

A burocracia prussiana é, no mínimo, kafkiana. Sempre que com ela me confronto, não posso deixar de pensar em Kafka e em como fui injusta em julgar a sua condição mental, não conhecendo os meandros desta complicada senhora do Leste. Todo o processo parece ter saído do processo de Kafka e, quando se pensa que já se preencheram todos os formulários e todos os campos, aparece mais um que não existia. À entrada do “castelo”  onde o processo lentamente se digere, o aviso é claro: depois de aqui entrar, para sair é preciso contar com a ajuda de uma entidade mística. Portas escondem escadas, existem meios andares, que ficam algures entre o primeiro e o segundo andar e – a cereja em cima deste bolo que evito sempre trincar – os gabinetes muitas vezes não estão ordenados sequencialmente. Quem vai a procura da porta 123, encontra a porta 122, talvez encontre a 124, mas no lugar da 123 há… uma parede! Quando finalmente se encontra o gabinete e se acerta na irregular hora de atendimento, vem a grande confrontação com o burocrata propriamente dito e, tal como Kafka nao queria sair do seu quarto, parece que o burocrata não quer sair do seu escritorio desde 1989. E este sim, precisaria de uma metamorfose. Óculos fundos e embaciados, roupas sépia, papéis do chão ao tecto compõem o burocrata e seu escritório.

Num dia cinzento e de chuva miudinha, vi-me confrontada com a impossibilidade de fugir a um processo burocrata. Depois de três horas a percorrer corredores infinitos e preencher formulários intermináveis, cheguei a casa a precisar de algo que me confortasse o corpo e a alma, algo facilmente digerível. Trouxe o Sol a casa com uma sobremesa fresca de laranja e bela luísa, adaptação de uma receita do pingo doce. Levei 2.5 dL de leite a ferver com uma casca de laranja e um ramo de bela luísa. Deitei num pequeno tacho, 50 g de açúcar, 30 g de maisena e 70 g de amêndoa moída. Misturei e juntei 3 gemas, continuando a mexer. Retirei a casca da laranja e o ramo de bela luísa do leite fervido e deitei lentamente em fio sobre a mistura anterior, sem parar de mexer. Levei o pequeno tacho a lume brando e mexi continuamente até engrossar. Retirei do lume quando atingiu a consistência de creme. Entretanto, bati as 3 claras em castelo com mais 50 g de açúcar (que adicionei quando as claras ficaram brancas) e espremi uma laranja. Juntei o sumo ao creme, mexi e envolvi esta mistura nas claras. Pus numa taça de servir, polvilhei com mais amêndoa moída e levei ao frio. Ao provar, não consegui conter-me na primeira tacinha e repeti, esquecendo o frio lá fora e o pó de lá dentro da casa do burocrata.


ps: a receita original não inclui bela luísa, mas alegro’me em ter arriscado, pois tornou-se um elemento essencial pela frescura que confere.