Na linha do tesouro

Linha de Tunes. Saio do comboio no cruzamento das linhas e poderia sair de olhos cegos e ouvidos surdos, saberia que estou no Reino do Algarve. Há um odor no ar que é só deste céu, deste Sol e desta gente, habitantes no Algarve e na minha alma. É um odor a alfarrobeiras, a figos a secar nas açoteias e a amêndoas no chão acabadas de varejar, escondidas nas cardas que já não picam as mãos sapientes e calejadas de quem trata a terra. É tudo isto misturado com a maresia que faz este ar tão fácil de respirar…E tudo isto trouxe eu, ontem, ao Reino da Prússia, ao cozinhar um pão doce que me levou à confluência das linhas do Algarve com a tríade Alfarroba-Figo-Amêndoa.

Numa manhã solarenga de Sábado, a minha filha arrastou-me da cama e eu, ao avistar um céu tão azul lá fora, arrastei-a à cozinha. De uma receita básica de pão, fizemos um pão doce de alfarroba, amêndoa e figos secos. Em 125 mL de água morna, desfiz 12 g de fermento fresco de padeiro e 2 colheres de sopa de mel. A mistura das farinhas ficou a cargo da minha filha: 50 g de farinha de alfarroba, 200 g de farinha de espelta, 125 g de farinha de trigo com uma colher de chá de sal. Juntei a água com o fermento às farinhas, com 100 g de amêndoa moída e cerca de 6 figos secos picados em bocadinhos pequenos. Raspei um limão e trouxe um aroma a canela a este pão. Mexemos até a massa se separar das bordas da taça. Cerca de uma hora depois, fizémos bolinhas da massa e pusémos no forno. O perfume deste Algarve espalhou-se pela casa e misturou-se com o Sol que inundou toda a sala e nos inundou a nós enquanto esperávamos que o pão saísse do forno. Comi os pãezinhos simples, comi-os com o doce de tomate da minha Avó, comi com queijo de cabra fresco e polvilhado com ervas provençais e voltei a comê-lo só, só por gulodice, só para o meu comboio parar mais uma vez naquela confluência de linhas a Sul.

E o meu comboio continua a sua viagem, por estradas de terra e alcatrão, por estradas de gelo e pó, de Sol e Lua, na senda de um Tesouro que eu sei onde está, mas não sei quando está. Avista-se no infinito das linhas de comboio que rasgam em latitude o meu Reino a Sul.  Mas o destino do meu comboio, agora, é a viagem com os meus dois Grandes Tesouros.

11 thoughts on “Na linha do tesouro

  1. Ás vezes é bom viajar de volta às raizes nem que seja só com os sentidos🙂

    Nunca experimentei muito com farinha de alfarroba. Encontra-se facilmente pela Alemanha?

    Bj
    Rute

  2. Para mim, conhecer esse Reino a Sul foi das melhores surpresas que tive na vida🙂 Esta postagem levou-me lá novamente… só falta o pão à minha frente!

  3. Até consegui sentir o cheiro desse pão através das linhas que escreveste. O Algarve é realmente terra de muitos encantos e não sei se alguma vez conseguirei separar-me deles ou viver longe como tu.
    beijinhos quentes do Sul para ti!

    • Margarida,
      Eu senti esta necessidade de viagem, tal como o alquimista, ja por duas vezes na minha vida, e fi-lo sempre tendo o regresso como destino final. Mas por agora continuo nesta aprendizagem, nesta viagem!🙂
      Beijinhos
      Sofia

  4. Minha querida Sofia,

    Não ando de comboio há tanto tempo que me parecia impossível encontrar a porta e o ritmo dos carris assim tão facilmente! Obrigada por esta voltinha pelo reino dos Algarves onde os sabores do figo e da alfarroba me transportam sempre para o Verão. O que eu não dava agora por um pãozinho destes!

    Bj enorme*
    Suzana

  5. Pingback: Para mim, cozinhar é… « No reino da Prússia

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