Filetes de solha, migas de espinafre e puré de cenoura

Durante um dos dias em que a minha sogra cá esteve, perguntou o que queria para jantar. Eu disse “peixe” e ela disse, “então cozinha tu algo português”, e eu pensei: “mmm, algo português, não sendo bacalhau seco, são migas”. Então disse-lhe que ia fazer uma especialidade portuguesa para acompanhar os filetes de solha que ela trouxe da rua. Comecei por temperar os filetes com sumo de limão, pimenta e sementes de coentros. Entretanto, levei um gole de azeite ao lume e deixei frigir levemente uma cebola com um alho (picados) e uma folha de louro. Quando amoleceram, retirei deixando o azeite e juntei uma carcaça seca cortada aos cubinhos. Deixei que o pão absorvesse o azeite e comecei a juntar água a ferver, à qual adicionei caldo de legumes em pó. Juntei batatas e espinafre que a minha filha não comeu ao almoço e mexi até ganhar consistência. Entretanto, cozi  cenouras e acrescentei rabanete para conferir o seu trago peculiar.  Fiz em puré. Agora dediquei-me a tratar do bicho dos oceanos. Passei por farinha, fritei e pus no prato, com uma colher de migas e outra colher de puré cor de laranja. E a minha sogra, ao degustar esta “especialidade portuguesa”,  disse: “mmm, wunderbar!…”

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Sopa de ovo e tomate

Hoje tinha vontade de migas com ovo a cavalo. Pensando nos ingredientes, fui fazendo um check mental ao que tinha e tudo indicava que desta vez nada ia falhar na confeccao das migas. Tinha pao duro, coentros, ovo e um caldo de peixe. Ao por maos a obra, verifiquei que o pao duro ja estava a criar outras vidas em si e nao me apetecia muito “migas al funghi”. Entao num curto brainstorming comigo mesma, decidi fazer uma sopa com o caldo de peixe e legumes que tinha de um jantar de bacalhau para os amigos, sobre o qual hei-de falar nos proximos episodios. Pus o caldo a ferver, juntei as codeas que se salvaram da invasao dos fungos cortadas aos cubinhos, miguei 3 tomates, juntei um ovo cru e fi-lo em farrapos. Desliguei o fogao e juntei os coentros conservados em azeite. Agora estou a espera que arrefeca, mas este divino aroma que vem da cozinha nao engana.

Um segundo de felicidade eterna

Há aqueles que procuram a felicidade eterna, aquela que existe antes do tempo e do espaco e para lá destes. Aquela que não tem início nem fim, que é omnipresente mas que parece que ninguém consegue agarrar. Ninguém? Pois bem, hoje vou deixar aqui a receita para alcançar a felicidade eterna.

Imagine o leitor que está no meio do mar, a pairar qual moisés, com os dedos dos pés a chapinhar suavemente no ondular do mar. Olhe à sua volta. A norte, vê água. A sul, mais água. A Leste e a Oeste, o que vè? mais água. A sensação que o caro leitor experimenta é de infinito, pois nada consegue decifrar para lá do mar! Mas um pequeno exercício de reflexão mental, fá-lo chegar à seguinte brilhante conclusão: “epá, péra lá. o mar afinal são só gotas de água. mas muitas, juntinhas. como o deserto, também afinal são só grãos de areia. E nós, afinal que mais somos do grãos de areia na imensidão deste universo?” Aí está, caro leitor, chegamos ao ponto fulcral da questão e a resposta à premente pergunta é: somos significantes. grãos de areia, gotas de água, que não são mais que um infinitésimo de espaço, de tempo na imensidão e no vazio do infinito universo, mas que escondem uma eternidade em si. Uma eternidade, que comporta o infinito. Afinal, nós, graos de areia no universo, somos universos para outros graos de areia, significantes tal como nós.  Gerações e gerações de outros seres vivos coabitam em nós, numa só vida nossa, em perfeita harmonia! O tempo e o espaço não são iguais para todos, mas relativos à individualidade de cada ser. Bom, continuemos com o exercício, voltando ao meio do mar. Imagine o leitor, que esse mar infinito é a tal felicidade eterna. O leitor, culto e vivido, sabe que não ver nada para além do mar é uma ilusão. Existem mundos de mundos para lá do mar. E sabe também que o mar não é mais que muitas gotas de água. Tantas, que podem comportar vidas em si. Então imagine que uma gota de água é um momento de felicidade. Tal como o amor. E que maior felicidade trás o amor senão o poder de gerar vidas? (bom, o amor tb. trás muitas outras felicidades, afinal). O amor, que como o poeta disse, que seja infinito enquanto dura, o amor que se condensa num beijo, num beijo que não tem tempo nem espaço, um beijo que, no som de um só “schmac!” embarca em si o amor eterno. E de quantos beijos é feito o amor da tua vida, os beijos que se beijam, os beijos de um olhar, de um pensamento e …, bom fiquemos por aqui.

Afinal, é com as coisas simples da vida que se constrói a felidade. Por exemplo, um raio de sol reflectiu na janela do vizinho, entrou na minha janela e, matreiro, bateu-me na cara. mmm, que bom! Ou ainda melhor, a minha filha que disse água. Ou um café à beira mar a ver o pôr do sol e conversar sobre estas coisas da vida. E foi  inspirada em grandes cafés filosóficos que bebi à beira mar com o meu querido primo Tomané que construi esta divagação.

É mais um desses momentos de felicidade que vou partilhar aqui neste espaço. Tinha no frigorífico umas acelgas que de tão ignoradas, já gritavam por mim (no sentido figurado, claro) . Resolvi fazer migas de acelgas. Mais propriamente, Migas de Batatas e Acelgas. Cozinhei uma batata e um ramo destas couves (será que são couves ou um híbrido couve-alface??) em vapor. Esmigalhei a batata e miguei com uma faca as acelgas. Fritei uns dentes de alho em azeite, quando os alhos começaram a saltitar no azeite (a saltitar de felicidade, entenda-se), juntei a batata e as acelgas. Pus sal e pimenta, misturei, mas não mexi mais, para deixar a batata criar uma crostinha levemente dourada. Virei, para o mesmo efeito do outro lado. Pus no prato, sentei-me em frente à televisão e sorvi um momento de prazer imenso que vinha empacotado nestas “Migas de Batata e Acelgas”. Receita fácil, não é?

Os restos dos restos dos restos

Do jantar de há dois dias sobrou um molho de goulash que o  meu marido fez e que eu adjectivaria de delicioso se as minhas papilas gostativas não estivessem KO. Não consegui sentir os sabores e aromas mas sei que estava de comer e chorar por mais.

Para acompanhar este resto de molho, ontem fiz migas com chouriço para o jantar. Comecei por fritar a cebola e o alho com pimentão doce e meia folha de louro e umas falhas de chouriço e sementes de coentros. Quando a cebola amoleceu, retirei, juntei os restos de pao, que neste caso era pao branco e pao integral e fui deitando água a ferver enquanto o pao a bebia. Juntei uma malagueta e continuei a mexer. Quando o pão ficou bem em papa, deixei cozinhar mais um pouco para a água evaporar, voltei a juntar as cebolas e o chouriço e mexi tudo por mais uns minutos. Quando ficou bem sequinha, juntei duas belas colheres desta conserva de coentros, passei para uma travessa de barro e pus no forno a 75 graus para não arrefecer. Como o ovo  estrelado é unha e carne com as migas, na mesma frigideira, pus mais um golinho de azeite e estrelei 4 ovos. No prato, pus os ovos a acompanhar as migas, a acompanhar o resto do goulash. Mesmo com as papilas gostativas em hibernação, soube-me a pouco, repeti as migas e mesmo assim ainda sobraram.

Para acompanhar o resto das migas, fiz hoje ao almoço couves verdes temperadas com alho, limão, azeite e mostarda. No prato, pus uma lata de sardinhas a acompanhar as couves, a acompanhar as migas. As minhas papilas começaram a acordar e consegui sentir pelo menos o sabor do alho e um leve cheiro a sardinhas! Foi um prato que me deixou satisfeita.

Porque três foi a conta que alguém fez, houve restos mais uma vez. De couve. Pus batatas e cenouras aos cubos na panela com muito pouca água e, quando esta comecou a ferver, pus  uns filetes de Redfish por cima dos legumes. No prato, pus as batatas e cenouras a acompanhar o peixe, a acompanhar a couve. Excepto no da minha filha, que rejeitou a couve mas comeu com um apetite voraz o peixe cozido com legumes e regado com azeite!

Quem não tem cão, caça com gato

“Migas, migas, minhas amigas!”, dizia a minha avo paterna, sempre que cozinhava este prato, que para mim e um manjar dos deuses. Como ela fazia, nao sei exactamente.
Ontem tinha um papo-seco, ja seco, em casa e resolvi dar-lhe o melhor destino possivel: migas. Verifiquei os ingredientes: nao tinha alho, nem coentros, os dois pilares na confeccao deste prato. Nao tinha alhos, mas tinha cebolas; faltavam os coentros mas havia oregaos. Deitei maos a obra e segui uma receita base de migas que se pode ler no pantagruel. Fritei 1 cebola em azeite, juntei meia folha de louro, pimentao doce e 1 malagueta. Quando a cebola ficou transparente, reservei, deitei mais um gole de azeite na frigideira e juntei o pao, cortado aos cubinhos. Deixei fritar muito levemente e juntei um gole de agua. Voltei a juntar mais agua assim que esta reduziu, num processo sequencial. Ao todo, cerca de meio litro. Entretanto, pus uns douradinhos no forno que haveriam de acompanhar as migas. No fim, temperei com sal e os tais oregaos. Achei que tinha piripiri a mais, mas limpei o prato. O meu marido, inicialmente ceptico em relacao a migas sem alho, juntou sal e repetiu.