Aqui há carne (II)

Esta é outra receita favorita das minhas pequenotas. Aparentemente, são várias as receitas a ocupar o pódio e a nova vencedora é “schpáguét com ursinhos de gomas” que eu, obviamente, ignoro. Mas obviamente não é dessa que vou falar. Aqui em casa, esta receita é conhecida como a sopa da Avó, mas para o caro leitor é canja. A canja. É das tais receitas que requer esforço mínimo (não tendo que matar o frango), mas tempo de preparação (mesmo não matando o frango). Ponho um frango dentro da panela de pressão, encho com água até dois terços, e tempero com um ramo de salsa, sal, pimenta, uma cebola picada, meia folha de louro e uma cenoura inteira mas descascada. Espero até a panela apitar e, depois, ponho o fogão no mínimo. Deixo cozinhar durante uma hora no total. Depois, desfaço o frango, tento cortar em pedacinhos a cenoura hiper cozida, que já serviu o seu papel – dar mais gosto ao caldo – mas que ponho na mesa para quem quiser juntar à canja. Volta o caldo à fervura, junto o frango desfeito e massinhas. É daquelas refeições que, salpicada com limão e hortelã, é só conforto e saudade.

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Sopas

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Mentalizo o próximo post e dou por mim a “falar do tempo”. Recuo, mas não consigo evitar o pensamento fatídico: “Será mau sinal? Quando já só se fala do tempo…”. Mas recuso o sinal e entrego-me às sopas. 

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Penso em sopa e salivo. Esta é a fase em que estou. Vou arrastando o resto da família comigo. As princesinhas do Reino comem-na, sôfregas, diminuindo até ao limite, espaço e tempo entre colheres. A minha sogra comeu e não comentou – isto porque nem conseguiu proferir palavra perante tal maravilha culinária que saíu da minha panela de pressão! O meu marido juntou sal, pimenta, provou, mais sal e, respondendo à minha pergunta, disse “muito bom”. Eu não sei quantas vezes voltei à panela de pressão, mas nesse serão fiz da sopa entrada, sopa, prato principal e sobremesa.

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 E como fiz a sopa: demolhei cerca de 150 gr. de grão durante o dia e cozi-o sobre pressão. Cortei 2 batatas, uma cebola, 4 ou 5 cenouras e a parte branca de um alho francês em cubos ou tiras e atirei tudo para a panela de pressão. Juntei o caldo e reservei o grão. Sal e azeite. Entretanto, num tachinho, cozi espinafres e massinhas de letras. Quando a panela deu os devidos apitos, triturei tudo a preceito e juntei os espinafres e massinhas. 

Mas há outra “summer queen” no reino das sopas da prússia. Com uma base parecida à anterior, mas sem grão e com 2 tomates no puré, e com feijão verde em vez de espinafres. E muita hortelã no fim, a temperar.

Assim se fez o mês de Agosto, não só com sopas, mas também com muito mar do Norte, muito sol, vento e cabelos a voar. E com a inevitável pergunta dos prussianos a quem vem do outro extremo da Europa: “Então, isto é melhor que o Algarve?” E eu dou a vaga resposta “Não é possível comparar”. E como poderei eu comparar a solidão das praias do Norte com o barulho das praias de Agosto no Sul. As dunas do Norte com as minhas falésias ou a areia prateada com a areia dourada. Mas tenho que aqui afirmar que as gaivotas do norte são mais atrevidas. Se eu deixar, vão-se com o bico ao meu farnel. 

O poema possível

Para mim, os poemas não pertencem em livros. Aí, estão estrangulados, presos entre páginas e pó. Os poemas, são para ser cantados e gritados. E, hoje, só há um poema possível*:

Grândola, vila morena
Terra da fraternidade
O povo é quem mais ordena
Dentro de ti, ó cidade
Dentro de ti, ó cidade
O povo é quem mais ordena
Terra da fraternidade
Grândola, vila morena
Em cada esquina um amigo
Em cada rosto igualdade
Grândola, vila morena
Terra da fraternidade
Terra da fraternidade
Grândola, vila morena
Em cada rosto igualdade
O povo é quem mais ordena
À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade
Jurei ter por companheira
Grândola a tua vontade
Grândola a tua vontade
Jurei ter por companheira
À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade
 Para jantar, fiz coelho na panela – e: qualquer relação entre este coelho e qualquer outro roedor é pura coincidência!
Do bicho já esquartejado no talho, trouxe três pernas. Afoguei-as em muito vinho tinto, louro e alho e deixei marinar três horas. Aqueci azeite numa panela resistente ao forno e selei-as. A minha filha perguntou: “Ó mãe, vais matar o coelho na panela?” Eu disse-lhe que não, que quando comprei o coelho, ele já vinha morto. E decidi não alongar mais a conversa. Com as pernocas bem tostadas, juntei vegetais de todas as cores. O laranja da cenoura, o vermelho da beterraba e o amarelo da batata. Juntei duas cebolas em quartos.
Quando os vegetais ficaram tão bem misturados com o coelho que já não era possível distinguir a cor de cada vegetal, a única coisa a fazer foi juntar a marinada de vinho. Levei ao forno cerca de 40 minutos.
Depois, no prato, completei com a cor esperança da salada e cantei o poema à minha mesa sentado.

Bolo salgado com cenoura e sua rama

Esta foto aguçou-me o apetite. Não a tinha na lista do supermercado, mas trouxe um belo ramalhete de cenouras para casa, com o intuito de usar a sua rama. A minha mãe costuma fazer pataniscas com a rama, mas desta vez tive vontade de um bolo salgado e fui buscar a receita às three fat ladies. Bati muito bem três ovos com 1 dL de óleo e 100 gr. de iogurte natural. Juntei a rama de cenoura bem picadinha e 4 cenouras raladas à massa. Temperei com sal, pimenta e uma colher de sopa de caril. Acrescentei 180 gr farinha (e uma pitada de fermento) em chuva e envolvi suavemente. E por fim, cortei uma bola de queijo mozarella – porque não tinha feta – em cubinhos e juntei à massa. Em forma de bolo inglês forrada com papel vegetal, coloquei a massa. Levei a forno aquecido a 180 graus durante 50 minutos. Come-se bem quente e frio, mas come-se melhor morno, para sentir o queijo derretido envolvido na massa.

Mas continuei com o ramalhete da cenoura na cabeça e hoje fiz arroz malandro com rama. Fritei arroz de bago redondo em alho e azeite e juntei água numa razão 3:1. A meio da cozedura, juntei a rama da cenoura picada. Muito bom.

Gosto muito do sabor forte da rama da cenoura e, de acordo com o que se lê por essa internet fora, parece que a rama é nutricionalmente mais rica que a cenoura. E ideias para pôr o ramalhete no tacho não me faltam. Talvez da próxima experimente num arroz de feijão.

Um shot de vitaminas

O inverno consome-me. Leva-me a energia e a resistencia. E abre-me o apetite, de uma maneira voraz, especialmente para alimentos bem calóricos. Mas hoje, o apetite era de cor e vitaminas. Peguei no vermelho de uma beterraba, no laranja de 2 cenouras, no verde de um molhinho de coentros e no vermelho-verde de uma maçã. Descasquei a beterraba, confiei no selo biológico da cenoura e deixei a sua fina pele marcar presença (e a maçã, aqui em casa, não sabe o que é sair da casca, de todos os modos). Bati tudo no mixer com alguma água, pus num copo alto e rectifiquei a água. Juntei uma colherinha de açúcar, mais coentros picados e um gole de azeite para suavizar o gole. E saborei este arco-iris de cores avistando da janela a paisagem branca, monocromática.