O almoço de Natal…

… foi feito com as sobras da noite de consoada. Tinha batatas com alho, tomate cherry assado com azeite e temperado com coentros, tinha carne com molho, muito molho, e tinha a crosta verde. Faltava, mesmo com esta crosta, mais verde. Comecei por suar um zucchini e os floretes de meio bróculo numa frigideira com um pequeno gole de água e só por 5 minutos. Numa forma de barro redonda, fiz uma cama com as fatias de batata e os alhos despidos de sua camisa. Dispus o zucchini, os bróculos e pouco tomate que sobrou por cima das batatas. Depois, foi a carne, cortada em pequenos pedacinhos, para esta cama verde. Reguei agora tudo com o seu consistente molho de legumes e espalhei a crosta verde por cima, qual um crumble verde. Foi ao forno por cerca de 15 minutos a 180 graus, até a crosta dourar e foi para a mesa. E soube tão bem prolongar desta maneira o jantar de consoada para o dia de Natal!

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Chucrute sem salsicha

Eu confesso: o título que eu queria dar a este post era “restos de couve fermentada”, mas depois pensei que poderia causar náuseas ao leitor mais sensível e eu não quero que os meus queridos leitores padeçam de qualquer maleita por visitarem o Reino da Prússia. Depois pensei num título como “bulgur em arte de risotto, com calda de chucrute e aroma de zimbro”. Mas… não este título não faz a minha praia. Depois, inspirada no blogue da Fer, dei então o título a este prato que reciclou o caldo de uma refeição de chucrute, não com salsicha, mas com algo como costeletas de porco fumadas. Esta receita é do meu marido e eu confesso que ele teve que fazê-la várias vezes até eu saltar a barreira psicológica de comer couve fermentada. Bom, na verdade, teve que dizer-me que esta couve fermentada, sauerkraut, em português, é chucrute. A provar que os rótulos importam nos complexos esquemas de selecção do cérebro humano.

O meu marido cozinhou o chucrute como a receita dita (bom, quase!) e o seu caldo tão aromático iria para o lixo se eu não tivesse ouvido um apelo, um chamamento ou uma voz do além a dizer “risooootto… riiiiiiiisotto!”. Bom, mas o risotto não estava no meu armário. Então tirei o pacote de bulgur e cozinhei-o como risotto. Fritei uma cebola e um dente de alho em azeite e, ao saltitarem, juntei uma medida de bulgur, mexi e juntei uma colher de concha do caldo de chucrute a ferver. Juntei meia dúzia de bagas de zimbro e deixei que o bulgur absorvesse o caldo. Repeti o processo até que o bulgur absorvesse as duas medidas de caldo e, com a última dose, juntei um frasco de espargos em conserva. Mexi, desliguei o bico do fogão, juntei um queijo feta desfeito, pimenta e um pouco de tomilho e salsa.

Provámos o prato, provando que a reciclagem de alimentos produz pratos de grande qualidade – basta olhar para pratos tradicionais portugueses como as migas e açordas, os rissóis e pastéis de bacalhau, a roupa velha, que são deliciosos e resultam da reciclagem de outros pratos ou ingredientes.

Com este prato, participo no desafio do Delícias e Talentos, desafio de culinária reciclada. Considero este desafio de grande valor, porque a reciclagem de alimentos diminui o consumo desnecessário de alimentos, poupando a natureza e a carteira. Como omnívora, tenho um grande respeito pelos alimentos, diria mesmo um respeito “divino”. E já que para sobrevivermos temos que nos alimentar de outras vidas, que o façamos com respeito e utilizemos os ingredientes até ao seu tutano. Quando deitamos comida ao lixo, na perspectiva ambiental e económica, estamos a estimular a economia alimentar de grande escala, que é extremamente poluente em várias vertentes:  no uso desenfreado da terra com produções intensivas de monocultura, no abuso de pesticidas, no tratamento e embalamento desnecessários… e estamos a gastar mais dinheiro; na perspectiva humana, acho que deitar comida fora é uma falta de respeito por aqueles que não a têm. Eu sei que as sobras do meu jantar não vão matar a fome de quem a realmente tem, mas com a atitude “reciclagem” em mente, o saldo “comida” torna-se mais positivo e, quem sabe se a comida que nós não comprámos numa grande cadeia de supermercados, não irá parar às mãos de alguém com fome? (se bem que há comida suficiente no mundo para não haver fome, simplesmente está mal distribuída). E a “grande cadeia de supermercado” leva-me a outro ponto de extrema importância – felizmente, hoje, damos mais valor ao comércio tradicional e aos produtos regionais e sazonais, de preferência da horta. Espero que a ideia de hortas e quintas comunitárias cresça entre os habitantes das cidades ao ponto de fazer impacto na nossa vida do dia a dia.

Por isso, caro leitor, se quiser aumentar a sua qualidade de vida, opte por reciclar as sobras dos seus alimentos, opte pelo comércio tradicional bem como pelos produtos regionais e sazonais e, caso não tenha acesso a produtos hortícolas directamente do produtor, informe-se sobre as hortas comunitárias. Apanha três coelhos com uma cajadada: gasta menos, polui menos e aumenta o contacto com a natureza e com a sua vizinhança.

nota: visite a tag reciclagem e migas e açordas para ver outras refeições que fiz a partir de anteriores.

A nova lei de Lavoisier

Uma destas tardes, saí mais cedo do trabalho e passei-a com a minha filha. Dei-lhe miminhos, demos risotas e cambalhotas e dei-lhe uma laranja. E ela fez uma careta. Provei a laranja e compreendi porquê. Era azeda, seca. Pensei que haveria de polvilhá-la com açúcar e canela. Mas, ao agir, já não pensei e o que fiz foi uma compota. Num tachinho, pus a laranja com os gomos cortados em três, uma clementina também rejeitada pelas mesmas razões e 3 colheres de sopa de açúcar. Juntei água até tapar a fruta e deixei em lume brando durante 45 minutos. Voltei e provei: o travo azedo dominou o açúcar e pensei que lá ia a compota para o lixo. Mas antes de agir, pensei que haveria de tentar salvar a situação com outros temperos. E já que não havia nada a perder, lancei-me sem medos à prateleira das especiarias. Precisava de um sabor forte, que dominasse esta laranja indomável no travo. Moí uma mistura de pimenta preta, branca e rosa e desfiz meia malagueta. Mexi, provei e gostei do resultado, mas faltava ainda um toque final e, sem precisar pensar, a minha mão tomou a acção e deitou no tacho uma colher de café de cardamomo moído. Combinação perfeita. Barrei em bolachas de água e sal, no pão de alfarroba, misturei com queijo fresco. E deliciei-me em todas as combinações.

No dia seguinte, o cenário da laranja repetiu-se, mas desta vez polvilhei-a com açúcar canela. Sem resultado. Enquanto meditava no que fazer à laranja, a minha filha passou à acção e começou a pôr-lhe a água do seu copo às colheres. Então lembrei-me deste bolo de clementinas da Pipoka, que já passou pela minha cozinha, e resolvi adaptá-lo. Peguei em parte da casca  da laranja, rejeitei a sua parte branca e perguntei à minha filha se queria fazer um bolo. Pus a laranja e sua casca num copo largo e alto, juntei um ovo e fui buscar a minha varinha mágica. Triturei até a mistura ficar homogénea. Numa taça, a minha filha pôs 10 colheres de sopa de farinha, 6 de açúcar, 75 g de amêndoa moída e uma colher de chá de fermento para bolos. Juntei a mistura de ovo e laranja aos ingredientes secos e um gole de óleo. Misturámos bem, pus numa tigela de barro de cerca de 20 cm de diâmetro e pus no forno aquecido a 150 graus. Retirei quando o palito saiu seco, cerca de 40 minutos depois. Deixei arrefecer e provei. Ficou um bolo consistente, muito saboroso e com um interior quase húmido, que desapareceu num ápice.

Esta laranja azeda transformada em compota e em bolo deixou-me a pensar que afinal a Lei de Lavoisier, no campo da culinária, precisa de uma revisão. É verdade que tudo se transforma e nada se perde. Mas no processo de transformação criam-se umas belas obras culinárias!

Os restos e o moral da estória

E há outros dias assim. Em que o apetite fugiu para um outro lugar. Não o meu, pois as minhas calças de ganga fazem-me lembrar activa e constantemente da sua presença. Refiro-me ao apetite da minha filhota, que normalmente come o peixe cozido com legumes com voracidade. Ou que se delicia primeiro com o queijo ou o fiambre, depois lambe a manteiga da fatia de pão e, finalmente, decide comer o pão. Desta vez o cenário foi diferente: ao lanche, pão e migalhas ficaram esquecidos no prato, o queijo levou uma dentadinha e foi rejeitado e o fiambre foi simplesmente ignorado; ao jantar, o prato foi tocado para dar uma trinca numa cenoura, que de imediato foi rejeitada, o peixe foi esquecido e a couve-flor ignorada.

E eu ignorei o cenário, indo para a cozinha mas levando comigo os pratos de comida rejeitados, esquecidos e ignorados. Tirei um caldo de peixe do frigorífico (quando fazemos peixe, ponho sempre as peles, espinhas e cabeca a cozer com algumas ervas aromáticas durante uma hora para sugar os aromas do animal marinho até ao tutano), juntei ao peixe e legumes ignorados um resto de risotto de grão esquecido de outros dias e levei ao lume. Peguei no pão desprezado e em algumas côdeas esquecidas na caixa do pão, cortei em cubinhos de 1 cm e levei ao forno a 175 graus. Fui à horta apanhar um raminho de salsa, desliguei o lume, apaguei o forno, piquei a salsa, dei um toque com a varinha mágica à sopa, pus no prato, dispus a salsa, um fio de azeite e o pão transformado em micro tostas  e todos nos deliciamos! A pequerrucha mostrou então que o seu apetite voltou, ou voltou a mostrar-me a dura realidade: muitas vezes não é só o conteúdo que interessa, mas a maneira como se apresenta. Eu resolvi ignorar esta lição de vida e preferi acreditar simplesmente que o todo é mais que a soma das partes.

Os restos dos restos dos restos

Do jantar de há dois dias sobrou um molho de goulash que o  meu marido fez e que eu adjectivaria de delicioso se as minhas papilas gostativas não estivessem KO. Não consegui sentir os sabores e aromas mas sei que estava de comer e chorar por mais.

Para acompanhar este resto de molho, ontem fiz migas com chouriço para o jantar. Comecei por fritar a cebola e o alho com pimentão doce e meia folha de louro e umas falhas de chouriço e sementes de coentros. Quando a cebola amoleceu, retirei, juntei os restos de pao, que neste caso era pao branco e pao integral e fui deitando água a ferver enquanto o pao a bebia. Juntei uma malagueta e continuei a mexer. Quando o pão ficou bem em papa, deixei cozinhar mais um pouco para a água evaporar, voltei a juntar as cebolas e o chouriço e mexi tudo por mais uns minutos. Quando ficou bem sequinha, juntei duas belas colheres desta conserva de coentros, passei para uma travessa de barro e pus no forno a 75 graus para não arrefecer. Como o ovo  estrelado é unha e carne com as migas, na mesma frigideira, pus mais um golinho de azeite e estrelei 4 ovos. No prato, pus os ovos a acompanhar as migas, a acompanhar o resto do goulash. Mesmo com as papilas gostativas em hibernação, soube-me a pouco, repeti as migas e mesmo assim ainda sobraram.

Para acompanhar o resto das migas, fiz hoje ao almoço couves verdes temperadas com alho, limão, azeite e mostarda. No prato, pus uma lata de sardinhas a acompanhar as couves, a acompanhar as migas. As minhas papilas começaram a acordar e consegui sentir pelo menos o sabor do alho e um leve cheiro a sardinhas! Foi um prato que me deixou satisfeita.

Porque três foi a conta que alguém fez, houve restos mais uma vez. De couve. Pus batatas e cenouras aos cubos na panela com muito pouca água e, quando esta comecou a ferver, pus  uns filetes de Redfish por cima dos legumes. No prato, pus as batatas e cenouras a acompanhar o peixe, a acompanhar a couve. Excepto no da minha filha, que rejeitou a couve mas comeu com um apetite voraz o peixe cozido com legumes e regado com azeite!