Bifes de atum de cebolada

Movidos já tantos meses, aquela tarde de Fevereiro continua a arrancar-me um sorriso. Foi uma tarde de chuva e sol, na Costa Vicentina, que espero que se venha a repetir muitas outras vezes!  Trouxe no coração as caras que ainda não tinha visto, mas cujos corações já tinha vislumbrado  numa perspectiva ou noutra. E trouxe debaixo do braço os “Sabores da cozinha algarvia”, de José da Vila. Devorei o livro naquela noite. A primeira receita que testei foram os bifes de atum de cebolada. Ficaram maravilhosos, muito melhores que a minha receita anterior.

Comecei por temperar 2 bifes de atum grossos (cerca de 400 gr no total) com 2 colheres de vinagre, 3 dentes de alho às lascas, louro, sal e pimenta. Deixei marinar por cerca de 2 horas. Depois, marquei os bifes em azeite bem quente e reservei. Cortei uma cebola em fatias meia-lua e deixei frigir levemente no azeite onde já tinha frigido o atum. Quando ela transpareceu, juntei os bifes  e a marinada e  tapei a frigideira. Deixei cozinhar durante 2 ou 3 minutos. Levei à mesa com batatas cozidas e todos devorámos com prazer estes bifes de atum à algarvia.

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Cheesecake aldrabado algarvio

O cheesecake de figo da Margarida já me tinha piscado o olho. Quando a Laranjinha o repetiu, não resisti. Tive que fazê-lo, e já! Fui verificar a lista de ingredientes. Obviamente, dos bolinhos secos de alfarroba da Quinta das Atalaias já não havia nem vestígio. E ao abrir o frigorífico, reparei que não tinha queijo creme. Tomei o obstáculo como desafio e pensei que, de todos os modos, não consigo seguir uma receita tintin por tintin. Por isso, fui ver o que havia no armário: tinha umas bolachas digestivas a pedirem para ser recicladas, uma noz, uma amêndoa e uma avelã; tinha mascarpone e crème fraîsche. Lancei mãos à obra. Afinal,  improvisar uma sobremesa é sempre muito mais estimulante do que seguir uma receita.

Pus no copo da misturadora, 100 gr de bolachas digestiva, uma colher de sopa de farinha de alfarroba e uma colher de sopa de manteiga. Juntei a tal avelã, a amêndoa depelada e a noz solitária. Blitz, até a mistura ficar coesa e homogénea, separando-se das bordas do copo. Dispus a massa numa forma de 18 cm, pressionando com os dedos e levei ao frigorífico. Depois, dirigi-me à batedeira e pedi à minha filha para pôr 5 colheres de sopa de açúcar. Juntei 250gr de mascarpone, 2 colheres de sopa de crème fraîsche, 2 colheres de chá de canela e uma colher de sopa de doce de abóbora e alfarroba, também da Quinta das Atalaias. A máquina bateu a massa durante cerca de 5 minutos. Verifiquei que ficou bem batida e provei. Mmmm, que combinação perfeita, de levar aos céus! A minha filha, ao observar-me, disse que também queria. Dei-lhe um bocadinho e ela imediatamente pediu uma nova dose. Eu repeti a dose e ela repetiu o pedido. Voltei a deixá-lha tirar a massa com o seu dedinho e o ciclo repetir-se-ia até ficar com a tigela lavadinha se eu não interrompesse o processo. Pus a massa por cima da base de bolacha e alfarroba, endireitei com o salazar e barrei por cima mais um bocadinho do doce de abóbora e alfarroba. Voltei a por no frigorífico e dei à minha filha a tigela para ela lamber, lembrando-me dos meus tempos de infância, quando a minha avó e a minha mãe nos davam as tigelas de massa dos bolos depois destas passarem pelo salazar. Ela olhou para mim, olha para a tigela, lançou-me um olhar de quem diz: “pensas que estás a enganar-me?!?!?!”, ignorou a tigela e mostrou-me o poder das suas cordas vocais. Fomos jantar uma salada de batatas, em estilo fusion kitchen, com inspirações luso-prussianas. Depois do jantar, provámos o cheesecake. Ao primeiro garfo, tive a mesma reacção que tive ao provar o creme durante a sua confecção, e o meu marido disse-me: “espera, não penses que me vais influenciar o veridicto com a tua opinião parcial.” Mas, ao provar, ele teve a exactamente a mesma reacção, acrescentando: “in der Tat!…”

o corpo e a alma

Sera que as coisas teem alma? Um poeta disse que sim, que basta acorda-la. Mas outro poeta disse que se pode perder a alma, quer se seja coisa animada ou inanimada, basta ter um passo no corpo mais rapido que o da alma. Eu concordo com os dois poetas, mas digo tambem que a nossa alma nao esta so em nos, temos tambem um bocadinho da nossa alma nos que amamos, na nossa terra, na casa a que chamamos casa. E ha bocadinhos da nossa alma que vao acordando, outros adormecendo, despertados pelas sensacoes de que os nossos sentidos sao portadores, como o cheiro da terra molhada, o sabor da laranja acabada de apanhar, sentir o sol quente na pele… podia continuar a divagar ate chegar a ao arroz de marisco com muitos coentros, que sabe mesmo a casa. Que foi o que eu tentei fazer, versao arroz de bacalhau fresco, usando a tecnica milenar que o povo algarvio usa e que passou da minha avo para a minha mae e para mim. Cortei duas cebolas aos cubinhos, um dente de alho, uma folha de louro e fritei em azeite importado directamente do Algarve. Quando a cebola comecou a guinchar, juntei uma lata de tomate inteiro pelado, mexi, juntei um copo de vinho branco, mexi e tapei. Deixei o calor do fogo brando exercer a sua funcao durante 10 minutos. Voltei a mexer e juntei as postas de bacalhau fresco e flor de sal de olhao. 10 minutos depois, retirei e reservei o peixe. Juntei o arroz (usei risotto pois mantem-se firme por mais tempo) e fui acrescentando agua a ferver conforme o arroz a ia pedindo. Ate o arroz ja estar cozido. Entretanto ja tinha picado um molho de coentros e descascado mais um dente de alho. Primeiro foi o peixe que voltou para a panela, depois os coentros e acrescentei ainda um dente de alho picado e um gole do resto do tal azeite. Mexi tudo muito bem e os cheiros que emanaram da panela e a visao do verde-coentro e vermelho-tomate teletransportaram-me a casa por instantes. Com os pes 2 palmos acima do chao, a panela levou-me a mesa, brindamos, comemos e deliciamo-nos. Mas nao sabe ao mesmo, mesmo que seja o mesmo que se come na tasca do ze, ou em casa, mas em casa, na casa-terra, tem outro sabor. Falta algo, e os especialistas podem divagar sobre as diferencas de temperatura, pressao, sobre as diferencas entre fogoes que explicam o sabor diferente que a mesma receita pode ter qdo cozinhada em sitios diferentes, mas a mim nao me enganam. O que acontece e que nao se pode transportar a alma das coisas animadas ou inanimadas assim, sem mais nem menos.