“Coisas soltas”

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A Primavera chegou. Apesar do cachecol ainda se enrolar no pescoço dos mais friorentos, o gelado já anda na mão. Gorros e luvas estão em hibernação até ao próximo Inverno. Fingers crossed!

Na cozinha, reina a normalidade. A minha filha pediu-me batatas fritas e eu acedi, na condição de fazê-las no forno. “Mas batatas fritas são sempre no forno, mãe!”, foi a sua resposta. Disse baixinho “não só mas também” e fui soberanamente ignorada – Felizmente. Para acompanhar, fiz-lhe ketchup, “Quécha”, como é conhecido aqui em casa. Juntei à polpa de tomate, algum açúcar e vinagre e deixei fervilhar. Ainda no reino das batatas, experimentei as perfect baked potatoes da Nigella, mas na minha cozinha, o adjectivo não vingou.

Aos fins de semana, as panquecas estão sempre presentes na mesa do pequeno almoço. É um belo entretém para as duas pequenotas. Enquanto uma princesa parte os ovos e junta o leite, a outra princesinha descobre o mundo encantado da farinha voadora e da massa na bancada. É uma risota sem fim. Só visto e não contado.

Continuando o capítulo da massa voadora, ando na senda “do” bolo mármore. O clássico da Maria de Lurdes Modesto não resultou comigo e, apesar de ser uma receita à prova de crianças, o que saiu do meu forno foi uma arma de arremesso às riscas. Também tentei a infalível receita do bolo de iogurte 1-2-3 com 2/3 de massa de baunilha e 1/3 de chocolate mas, desta experiência, saiu do meu forno um “pãozinho sem sal”.

São estes os apontamentos desta cozinha da Prússia, onde a Primavera, finalmente, floresce em todo o seu esplendor.

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Convidei para jantar …

Cheguei a casa com os sacos das compras e pronta para preparar o jantar de hoje. Desta vez, tinha tudo organizado: a ementa apontada num rascunho, todos os ingredientes na bancada da cozinha e ainda bastante tempo até à hora marcada. Comecei pela sobremesa: bolo de chocolate e beterraba. Adaptei a receita da Leonor, reduzindo a quantidade de açúcar, manteiga e farinha e aumentando a quantidade de chocolate.

Bati três ovos com 125 g de açúcar amarelo até ficar uma espuma volumosa e esbranquiçada. Derreti uma barra de chocolate de 200g com  uma colher de sopa de manteiga e outra de leite. Entretanto, misturei os secos: 125 g de açúcar amarelo, 3 colheres de sopa de farinha e 50 g de cacau em pó com 50 g de chocolate em pó. Triturei 200 g de beterraba cozida e juntei aos ovos. A esta mistura, juntei o chocolate derretido e, finalmente, envolvi os secos suavemente. Distribuí a massa pela forma e, ao por o bolo em forno aquecido a 180 graus, toca a campaínha.

“Quem será?”. Pensei nem abrir a porta, mas em boa hora fui, pois foi o meu convidado que chegou. Convidei um prussiano de gema, uma mente brilhante capaz de prever o sistema capitalista que vivemos hoje, 150 anos antes. Era Karl Marx que estava à minha porta. Dei-lhe as boas vindas e recolhi o casaco pesado deste velhote de barbas brancas. Também lhe disse que não o esperava tão cedo. “Ah, já estou muito velho… e, desde que cheguei ao mundo dos mortos, que perdi um pouco a noção do tempo. Mas cheira muito bem!”.

Desliguei o forno e servi-lhe uma fatia de bolo. Perguntei se preferia acompanhar com chá ou café. Pediu-me um café forte, preto. Fiz, e arrisquei a piada fácil: “Aqui está, capaz de acordar um morto!”. Ele, riu-se. Entretanto, o meu marido perguntou-lhe como é que ele foi capaz de prever o sistema capitalista em que vivemos com tal precisão. Embrenhámo-nos na conversa e ele pergunta-nos: “E vocês, o que fazem para fugir a esse tal sistema capitalista em que vivem?”.

Ao terminar a pergunta, tocou a campaínha. Noto uma certa agitação em Marx. Ao abrir, outro senhor de barba branca. “Sigmund Freud”, apresentou-se. “Sei que o meu amigo Marx está aqui”. Assenti e convidei-o a entrar. Marx e Freud cruzaram olhares e logo Marx nos disse: “Peço desculpa… mas sabem, no mundo dos mortos pouco se passa, e quando há um acontecimento como este Convidei para Jantar, há sempre um burburinho…” Eu disse-lhe que fiquei contente com a surpresa e servi uma fatia de bolo e uma chávena de café a Freud. Ele provou e comentou sobre a consistência do bolo e logo eu, sem que ninguém me perguntasse, revelei o segredo do vegetal de vermelho vibrante, disfarçado pelo castanho do chocolate.  Logo Freud, de olhar intenso, me perguntou: “Como é que você se sentiu quando viu as suas mãos manchadas de sangue?!?!?”, ao que lhe respondi: “É, realmente, assombrante, o que nos acontece ao tocarmos na beterraba.”, “Ao tocar na beterraba?!?!”, ripostou Marx, “vocês têm a noção da pressão que vocês, consumidores, impõem aos produtores de café e chocolate para estarmos aqui e agora a apreciar este bolo e este café?!”. Dei-lhe razão e perguntei-lhe porque vivemos num sistema de mercado livre. Acho que o preço de um produto deveria reflectir o trabalho do produtor e deveria haver uma margem fixa de lucro, definida em percentagem sobre o preço efectivo de produção – para que não se caísse na tentação de diminuir o custo de produção para aumentar o lucro – e era nesta margem que entrariam as comissões dos intermediários. Acrescentei que isto era o que os políticos deveriam fazer e todos se riram com a minha ingenuidade. Pode ser que, por detrás de um pequeno político esteja um grande capitalista, mas à volta do político e do capitalista está o povo.

Assim, depois de receber o testemunho da Carla, abro a edição de Junho/Julho da iniciativa “Convidei para Jantar”, iniciada pela Ana.

Proponho-vos o tema “Mentes brilhantes” e digam-me quem vocês admiram, quem é que vocês acham que tem a centelha da genialidade.

Para participar, basta responder a este post com a vossa participação até ao dia 16 de Julho.

The white Tiger

São poucos os livros que me prendem. Na verdade, cada vez menos. Na minha infância, qualquer livro de aventuras ou de banda desenhada me fazia viajar sentada no sofá. Hoje, a maior parte dos livros que leio são o meu soporífero. Viajo, sim, mas para o mundo dos sonhos.

Numa viagem a Londres, comprei este romance de Aravind Adiga e, no vôo de regresso, não estava sentada num lugarzinho apertado de um avião  low cost, mas totalmente submersa na estória do Tigre Branco. Gosto de livros assim, que me acompanham quando os não leio. Gosto quando os seus personagens entram no meu dia a a dia e caminham comigo lado a lado. Compram comigo o jornal e dizem-me o que devo fazer para o jantar. Gosto desta ilusão de misturar a realidade com a ficção, de ir até ao limite e pisar a fronteira, deixando os personagens entrar no meu dia a dia.  E gosto de entrar eu, por vezes, na sua pele.

Por este livro ser tudo isso, decidi convidar espontaneamente o seu autor para jantar. Não conhecendo a sua casta ou religião, não tinha ideia de quais os seus hábitos alimentares. Então decidi fazer legumes aromatizados com bela luísa e acompanhados com esparguete. Salteei tirinhas de pimento vermelho, cebola roxa e alho francês em azeite e juntei uns raminhos de bela luísa. Expliquei-lhe por que me tinha decidido por uma refeição vegetariana e ele riu-se. Depois perguntei-lhe se aquele expressão de “half-baked” era mesmo verdadeira. E até que ponto o setting do seu romance era real. No final da refeição, dirigiu-se à estante onde estão os livros e comentou que não encontrava ali a razão pela qual tinha sido convidado. “Emprestei-o”, expliquei-lhe, “tal como faço com todos os meus livros preferidos…”. Ele voltou a rir-se e disse-me: “Fizeste bem. Assim puseste o meu livro em viagem e não o deixaste morrer empoeirado numa estante.” Torci o nariz à parte do empoeirado, mas gostei da sua visão positiva. Se há objectos com personalidade, com alma e sem dono, são os livros. São eles os meus mestres, que comandam o meu pensamento enquanto os leio. Assim, há que deixá-los seguir o seu caminho e cumprirem o seu karma.

Assim participo na edição de Maio/Junho do CPJ, desta vez na cozinha da Carla.

O capuchinho

Vivia só na zona antiga da capital, perto de um jardim. Depois de uma adolescência atribulada e uma juventude cheia de interrogações, tinha agora encontrado uma rotina diária que lhe permitia conviver com todos aqueles seus medos interiores que teimaram em ficar hóspedes vitalícios da sua mente. Acordava de manhãzinha. Sempre gostou do ar fresco da manhã. Descia até à padaria por baixo do prédio, comprava duas carcaças e bebia uma bica. “O costume, Miguel?”, perguntavam-lhe por detrás do balcão. Esta habituação, rotina trazia-lhe uma certa segurança. Qualquer mudança lhe fazia confusão. Subia para o seu apartamento, cortava as carcaças estaladiças em duas, barrava-as com manteiga e recheava-as com queijo e fiambre fatiado. O cheiro a pão fresco dava-lhe alento para o novo dia. Acompanhava-as com um copo de leite frio. Depois, ia à varanda e fumava o primeiro cigarro do dia, olhando o céu, esperando ser invisível de encontro à parede outrora branca. Dirigia-se à sala e ligava o computador. Conectava-se à internet ainda com o modem analógico. Aquele “tiriri ..triiiiiiii … rrrr” era como um bom dia. Ligava-se a vários chats. Aqui sentia-se bem. Não precisava de cruzar o olhar com ninguém, não precisa de temer que lhe lessem os receios no seu passo inseguro. Em cada chat, poderia libertar cada um dos fantasmas da sua mente. Mas os que lhe davam mais prazer eram os chats de culinária. Eram simples, sem complicações. Ingredientes e um método indicado passo a passo. Isso gostaria na sua vida: ingredientes e métodos para se sentir como outra pessoa qualquer, daquelas com uma vida normal e monótona.

Naquele dia, vestiu a sua sweatshirt vermelha de capuz e pôs a sua mochila para ir buscar o almoço ao pronto a comer da esquina. “O que levas na tua cestinha, capuchinho??”. Era isto que ele temia todos os dias, aqueles comentários dos adolescentes ali no parque a fumar ganzas. “Um rastio de esperança. Mas falta-me a receita de como usá-la”, foi o que disse, mas não lhe saíu a voz. Continuou, de olhos baixos, a remoer a raiva. Há 10, 15 anos atrás, sentara-se ele ali, esquivara-se ele às aulas para se sentar naqueles bancos a queimar tempo e vida. Apetecia-lhe dirigir-se àqueles putos, pôr os seus olhos enraivecidos nos olhos deles vidrados, e mandá-los para a escola, com duas palmadas no rabo. Mostrar-lhes o lobo mau escondido atrás daqueles bancos, que eles não conseguiam ver. Mas manteve o seu caminho, enterrando a sua cabeça no capuz.  Continuou, de olhos na calçada, até ao pronto a comer. Ao entrar, esbarrou com a filha da dona, rapariga morena e de cintura fina, que vivia no prédio ao lado. Vinha com o seu casaco vermelho e uma cesta de onde emanava um aroma divino. O seu olhar cruzou-se com o dela, e ali ficaram presos por um olhar sem tempo, nem espaço. Miguel sentiu algo novo, sentiu paz, segurança, por detrás daqueles olhos cor de azeitona, sentiu-se preso, sem conseguir desviar o olhar. Sem saber como nem porquê, desobedeceu-lhe a sua voz, que perguntou: “O que levas na tua cesta, capuchinho??”, “levo pataniscas, para a minha avó, que está doente”, disse ela, hipnotizada pelo seu olhar, sem conseguir articular qualquer pensamento. “Posso provar?”, Miguel não se reconhecia. Para onde fora todo o controlo que levou anos a adquirir, que lhe permitira viver a sua rotina sem sobressaltos? Que sobressalto era aquele no seu peito??, “Sim”, disse ela sem se reconhecer e, sem desviar o olhar, pediu, “Mãe, guardas uma mesa e arroz de coentros para dois, para acompanhar estas pataniscas, por favor?”.  Ao sentarem-se, ele disse-lhe: “Tenho uma boa receita de arroz de coentros”. E, a medo, acrescentou: “Mas nunca a experimentei”. Ela largou uma espontânea gargalhada que o contagiou e o fez relembrar o prazer de rir, esquecido há tanto.

Com esta estória fictícia inspirada em outra estória fictícia, participo no quarto aniversário da Bélinha gulosa. Parabéns! 

Para mim, cozinhar é…

Para mim, cozinhar é….

…a catarse de um dia de trabalho.É um momento em que posso viajar pelos sabores do mundo sem sair da minha cozinha e utilizando uma linguagem universal. Ou uma viagem até casa. É um diálogo entre mim e os ingredientes que me passam pelas mãos e oferecem aos meus sentidos, as suas cores, aromas, sabores e texturas. É um momento de criatividade, em que a colher de pau é o meu pincel, os ingredientes são a minha paleta de cores, sabores e texturas, e a refeição a sair é a minha tela branca. É o momento em que realmente aprecio a minha solidão ou outro momento de viva interacção com a minha família. É fazer um bolo de laranja com a minha Avó, ou piadinhas com a minha filha. Para mim, cozinhar é a preparação de um acto social. É prazer, é carinho e é amor. E amor, o que é amor? 🙂

Na linha do tesouro

Linha de Tunes. Saio do comboio no cruzamento das linhas e poderia sair de olhos cegos e ouvidos surdos, saberia que estou no Reino do Algarve. Há um odor no ar que é só deste céu, deste Sol e desta gente, habitantes no Algarve e na minha alma. É um odor a alfarrobeiras, a figos a secar nas açoteias e a amêndoas no chão acabadas de varejar, escondidas nas cardas que já não picam as mãos sapientes e calejadas de quem trata a terra. É tudo isto misturado com a maresia que faz este ar tão fácil de respirar…E tudo isto trouxe eu, ontem, ao Reino da Prússia, ao cozinhar um pão doce que me levou à confluência das linhas do Algarve com a tríade Alfarroba-Figo-Amêndoa.

Numa manhã solarenga de Sábado, a minha filha arrastou-me da cama e eu, ao avistar um céu tão azul lá fora, arrastei-a à cozinha. De uma receita básica de pão, fizemos um pão doce de alfarroba, amêndoa e figos secos. Em 125 mL de água morna, desfiz 12 g de fermento fresco de padeiro e 2 colheres de sopa de mel. A mistura das farinhas ficou a cargo da minha filha: 50 g de farinha de alfarroba, 200 g de farinha de espelta, 125 g de farinha de trigo com uma colher de chá de sal. Juntei a água com o fermento às farinhas, com 100 g de amêndoa moída e cerca de 6 figos secos picados em bocadinhos pequenos. Raspei um limão e trouxe um aroma a canela a este pão. Mexemos até a massa se separar das bordas da taça. Cerca de uma hora depois, fizémos bolinhas da massa e pusémos no forno. O perfume deste Algarve espalhou-se pela casa e misturou-se com o Sol que inundou toda a sala e nos inundou a nós enquanto esperávamos que o pão saísse do forno. Comi os pãezinhos simples, comi-os com o doce de tomate da minha Avó, comi com queijo de cabra fresco e polvilhado com ervas provençais e voltei a comê-lo só, só por gulodice, só para o meu comboio parar mais uma vez naquela confluência de linhas a Sul.

E o meu comboio continua a sua viagem, por estradas de terra e alcatrão, por estradas de gelo e pó, de Sol e Lua, na senda de um Tesouro que eu sei onde está, mas não sei quando está. Avista-se no infinito das linhas de comboio que rasgam em latitude o meu Reino a Sul.  Mas o destino do meu comboio, agora, é a viagem com os meus dois Grandes Tesouros.

Bolo de chocolate em Sol Maior

Confesso que a minha aptidão para a música tem sido sempre constante desde que me conheço. A minha carreira musical resumiu-se à Educação Musical obrigatória no então Ciclo Preparatório e desde aí que o meu destino musical ficou traçado. Traçado, literalmente, ou melhor ainda, riscado, da possível lista de caminhos a seguir na vida. O meu sensível ouvido, que não suporta altas frequências nem baixas, que rejeita os sons de mais alta amplitude, revelou-se afinal um insensível se fosse para distinguir o Dó do Ré. Hoje em dia é lugar comum culpar os professores pelo insucesso dos alunos, mas não foi o meu caso. O meus professor de Educação Musical era competente, simpático, pedagógico e ciente das capacidades dos seus alunos. E sempre pronto a dar o seu feedback sobre o intelecto musical de cada alma cuja voz vibrava naquela sala de aula. Vibrava ou desafinava, como ele um dia notou: “estiveram todos afinados e no timing certo, excepto uma menina, que está lá atrás…”. disse ele num tom leve e disfarçando um sorriso. Pois esta “menina”, no alto dos seus 10 anos, sorriu, tentando disfarçar o escarlate que inundara as suas faces, e pensou qualquer coisa que agora já não me lembro. Talvez quanto tempo faltasse para acabar aquela aula. Ou que, apesar de desafinar, até achava graça àquelas aulas interactivas onde se podiam libertar as energias acumuladas através da voz sem ser mandado calar. Ou então, que era verdade, que o Professor tinha razão.  Mas eu adoro música. Ouvir um bom som pode operar milagres em mim. Há pouco tempo constatei que o meu ouvido continua insensível ao Dó e ao Ré, quando o meu marido reparou que os meus cantores favoritos têm letras profundas e tons monocórdicos. Bom, mas há quem tenha uma carreira musical mais preenchida que a minha. É o caso da minha cunhada, cuja professora de música, além de tocar piano, também detém uma excelente receita de um bolo de chocolate. Receita que agora partilho com a blogosfera em alto e bom som: são 300 g de chocolate que se derretem em 300 g de manteiga ou margarina; a 200 g de açúcar, juntam-se 5 ovos, 150 g de farinha, uma pitada de fermento e uma colher de sopa de amêndoa moída. Mexe-se tudo até obter uma mistura monocórdica de chocolate e, para dar outros sons a esta composição, esta Professora junta um Ré de canela, um Mi de noz moscada e um Fá de cravinho. Mas até aqui a minha preferência pelos tons monocórdicos se manifestou e mantive-me pelo Dó do chocolate. Bom, confesso, juntei alguns pózinhos de canela. E a medo, um cheiro de noz moscada, mas com o cravinho não me deram música. E confirmei, mais uma vez, a minha insensibilidade em distinguir o Dó do Ré, pois para além do chocolate, nada mais fazia falta naquele bolo…

(que foi a forno aquecido a 175 graus por 20 minutos e que não se quer que coza em demasia – o palito não deve vir seco)

A importância da comunicação no casal

Voltámos a comprar ruibarbo no mercado. Quando cheguei a casa, preparei-me para descascar e cortar em troços este vegetal da terra do sol nascente. Ao ver-me com um quilo de talos rosa no colo, o meu marido mostrou satisfação e perguntou como é que ia fazer o bolo. Perante as minhas dúvidas e indecisões, sugeriu um curto telefonema à sua mãe a pedir outra receita de bolo de ruibarbo. Acedi e tentei seguir a conversa telefónica nos primeiros minutos, mas quando vi o meu marido a escrevinhar no bloco de notas, desliguei-me da comunicação em prussiano que, de todos os modos, estava a passar por mim a uma certa distância. Quando todo o ruibarbo ficou em pequeninos troços de 1 cm, juntei 2 colheres de sopa de açúcar, meia dúzia de morangos e deixei repousar durante a noite.

No dia seguinte, pus a cozinhar em lume brando o ruibarbo e os morangos na água produzida pela reacção do açúcar. Entretanto, abri o caderno onde estava a receita da sogra e pensei: “ai… acho que conseguiria perceber melhor uma receita passada à mão por um médico egípcio! como é que vou sair desta?”. Chamei pelo meu marido, que me respondeu algo da outra ponta da casa cujo conteúdo linguístico não consegui decifrar, mas cujo conteúdo para-linguístico, tendo em conta o choro de bebé em ruído de fundo, era claro e traduzir-se-ia em algo como: “ai… agora nããããõoooo!…” . A minha voz interior disse-me que o que tem que ser, sê-lo-á, então arregacei as mangas e dispus-me a analisar os materiais e métodos da receita.

Um traço horizontal dividia a folha onde estava a receita da sogra. Acima deste equador, alguns ingredientes intercalados por palavras chave e, abaixo, 4 ingredientes e um título formavam o quebra cabeças daquela tarde de sábado.

Ignorei os elementos que à partida não consegui decifrar e concentrei-me nos elementos mais claros da lista. Então, na “lista norte” tínhamos: ovos e açúcar, 1/4 L de natas, uma palavra concerteza chave que não me dirigiu palavra à primeira, continuei, 2 colheres de sopa de … quê? …, continuei, e o fim da lista “Norte” era raspa de limão.

Desci para a lista “Sul”, onde claramente li o verbo “juntar” e pensei: “finalmente, temos a acção deste problema culinário! Será “juntar” a lista norte com a lista sul?”. O processo de investigação e decifração ainda não tinha terminado, então guardei a pergunta para mais tarde. A seguir ao verbo, deparei-me com o subtítulo que era “massa de …. de …”  de quê? passei ao próximo ponto e, a partir daqui, a lista de ingredientes era clara: 200gr de farinha, 100gr de manteiga, açúcar, 2 ovos. Tinha então a receita para uma massa cujo conteúdo conhecia e nome desconhecia. Ingenuamente, pensei: “sabendo o conteúdo, o que interessa o nome?”. Pus mãos à obra: juntei 200 gr de farinha de trigo a 100 gr de manteiga amolecida, 2 colheres de sopa de açúcar e 2 ovos. Bati a massa na máquina e, observando a consistência, pensei: “ah, isto deve ser um crumble, mas diferente do que conheço, deve ser um crumble prussiano!”. Para passar desta observação e hipótese à conclusão de que era um crumble prussiano não foi preciso qualquer teste e senti-me satisfeita por ter encontrado uma solução para a zona sul do quebra cabeças.

Reservei esta massa e voltei à zona norte. O meu marido veio à cozinha com a pequerrucha, que agora se estava a portar como um anjinho, e eu limitei-me a pedir-lhe para ele me ler o que não tinha percebido na lista norte. Então, a receita desta massa era: 3 ovos, 1/4 L de natas, importante, 2 colheres de sopa de maizena, canela, raspa de limão. Assumi que esta era a massa base, apesar de achar estranho ser tão fluída. Pus no forno aquecido a 180 graus por 10 minutos, depois adicionei a compota de ruibarbo e morango e dispus-me a dispor o “crumble prussiano” por cima da compota. Confesso que nunca fiz crumble e não faço ideia qual a sua consistência em crú, então voltei a improvisar, fazendo pequenas bolinhas e espalmando-as. Ao sentir a massa na minha mão, fez-se então luz e num ápice solucionei todas as questões que tinha deixado em aberto durante a análise da lista!  Ah, este “crumble prussiano” não era afinal crumble nenhum mas a massa de base!!! E este era o título da lista sul! … e exactamente por isso a outra massa era tão fluída! E o que era para juntar era o ruibarbo à massa mais líquida e não a massa base por cima do ruibarbo! Tapei todo o bolo com bolinhas espalmadas de massa, deixando umas frestazinhas entreabertas, que permitiam vislumbrar o rosa da compota de ruibarbo e morango.

Desolada, dirigi-me ao meu marido e disse-lhe que as minhas conclusões precipitadas tinham deixado tudo de pernas para o ar e que, só quando era tarde demais, percebi o segredo da receita. “Segredo?! Qual segredo?”, perguntou, “então, a segunda receita era afinal a massa base, e eu usei-a como crumble…”, expliquei. “crumble?!?!?, mas desde o início que estava claríssimo que esta não era uma receita de crumble!”, disse-me em prussiano, ao que repliquei em português:”diz?! crumble claro no início??”. Entretanto, fomos salvos pelo gongo do forno que nos avisou que o bolo estava pronto.

Provámos, regalámos os sentidos e não foi preciso trocar uma palavra para adivinhar que pensámos em uníssono: “pode ser um bolo ao revés, feito de pernas para o ar, mas ficou delicioso!”

E com esta receita aprendi que, mesmo que a comunicação no casal se faça a duas línguas, mesmo que o ruído ambiente não deixe perceber as palavras chave, é possível comunicar claramente. Desde que não se siga “o bom conselho” dum poeta cuja música me toca na alma e me diz sempre “aja duas vezes antes de pensar” e se pense várias vezes em prussiano antes de agir em português.

Falta de apetite

Nos últimos dias andei com falta de apetite. Nestes dias em que o Papa esteve em Portugal. Mas isso foi só coincidência. A verdade é que me sinto realmente privilegiada por viver numa parte do mundo onde tenho com que me alimentar e à minha família. A comida, para mim, é das coisas que merece respeito divino. Não só porque nós somos o que comemos, mas também porque somos como comemos. E é neste último ponto que eu acho que a alimentação merece ser encarada com humildade e respeito. No entanto, o que vejo à minha volta é exactamente o contrário. Há uma imensa falta de respeito na produção e no consumo de alimentos. As produções de monocultura, apinhadas de pesticidas, destroem o meio ambiente, tal como as produções de animais em larga escala (aflorando o assunto levemente). Existe uma produção imensa de alimentos e existe uma metade do mundo a morrer por excesso de comida e outra metade a morrer por falta dela! Mais uma vez, por isso devo à comida um respeito divino. Reutilizo as sobras de uma refeição na próxima, uso as matérias primas até ao seu tutano e acredito no selo de produção biológica. Tento seguir as receitas tradicionais ao máximo, especialmente as algarvias e alentejanas por serem as que me estão nos genes. Acredito que as receitas tradicionais, especialmente da cozinha pobre em matéria prima e rica em sabor, foram construídas com o saber de muitas gerações que tiveram que evitar a fome e aprender a combinar os alimentos de maneira a absorver ao máximo os seus nutrientes. E cá em casa temos a máxima: “em casa portuguesa, só o pão com fungos sai da mesa!”. As migas são mesmo as minhas grandes amigas! Enfim, como disse, a visita do Papa não deve ter tido muito a ver com a minha falta de apetite, nem os seus discursos de Paz, discursos desta religião que fomentou guerras em nome de quê, mesmo? Ah, de Cristo, aquele cuja palavra era de Paz e Amor, que disse devemos amar o próximo como igual, não foi? Enfim, o Tal Testamento merece concerteza várias interpretações e quem melhor que os senhores clérigos para o interpretarem, quando têm a disponibilidade, entre os ensinamentos a um jovem pupilo e outro. Mas palavras, leva-as o vento, no entanto acho muito bem que o Papa faça discursos de Paz por todas as suas paragens. Acho mesmo bem. Mas acharia ainda melhor se passasse das palavras aos actos e, por exemplo, vendesse alguns dos seus adornos em ouro e condicionasse o fluxo de alimento de onde existem em excesso para onde não há. Acabava com a fome no mundo. Mas agora, pensando melhor, até compreendo porque há fome e pobreza. Afinal, se não houver pobres, como pode haver ricos?? Se não houver falta, como pode haver fartura? E se não houver Diabo, como pode haver Deus?

Um segundo de felicidade eterna

Há aqueles que procuram a felicidade eterna, aquela que existe antes do tempo e do espaco e para lá destes. Aquela que não tem início nem fim, que é omnipresente mas que parece que ninguém consegue agarrar. Ninguém? Pois bem, hoje vou deixar aqui a receita para alcançar a felicidade eterna.

Imagine o leitor que está no meio do mar, a pairar qual moisés, com os dedos dos pés a chapinhar suavemente no ondular do mar. Olhe à sua volta. A norte, vê água. A sul, mais água. A Leste e a Oeste, o que vè? mais água. A sensação que o caro leitor experimenta é de infinito, pois nada consegue decifrar para lá do mar! Mas um pequeno exercício de reflexão mental, fá-lo chegar à seguinte brilhante conclusão: “epá, péra lá. o mar afinal são só gotas de água. mas muitas, juntinhas. como o deserto, também afinal são só grãos de areia. E nós, afinal que mais somos do grãos de areia na imensidão deste universo?” Aí está, caro leitor, chegamos ao ponto fulcral da questão e a resposta à premente pergunta é: somos significantes. grãos de areia, gotas de água, que não são mais que um infinitésimo de espaço, de tempo na imensidão e no vazio do infinito universo, mas que escondem uma eternidade em si. Uma eternidade, que comporta o infinito. Afinal, nós, graos de areia no universo, somos universos para outros graos de areia, significantes tal como nós.  Gerações e gerações de outros seres vivos coabitam em nós, numa só vida nossa, em perfeita harmonia! O tempo e o espaço não são iguais para todos, mas relativos à individualidade de cada ser. Bom, continuemos com o exercício, voltando ao meio do mar. Imagine o leitor, que esse mar infinito é a tal felicidade eterna. O leitor, culto e vivido, sabe que não ver nada para além do mar é uma ilusão. Existem mundos de mundos para lá do mar. E sabe também que o mar não é mais que muitas gotas de água. Tantas, que podem comportar vidas em si. Então imagine que uma gota de água é um momento de felicidade. Tal como o amor. E que maior felicidade trás o amor senão o poder de gerar vidas? (bom, o amor tb. trás muitas outras felicidades, afinal). O amor, que como o poeta disse, que seja infinito enquanto dura, o amor que se condensa num beijo, num beijo que não tem tempo nem espaço, um beijo que, no som de um só “schmac!” embarca em si o amor eterno. E de quantos beijos é feito o amor da tua vida, os beijos que se beijam, os beijos de um olhar, de um pensamento e …, bom fiquemos por aqui.

Afinal, é com as coisas simples da vida que se constrói a felidade. Por exemplo, um raio de sol reflectiu na janela do vizinho, entrou na minha janela e, matreiro, bateu-me na cara. mmm, que bom! Ou ainda melhor, a minha filha que disse água. Ou um café à beira mar a ver o pôr do sol e conversar sobre estas coisas da vida. E foi  inspirada em grandes cafés filosóficos que bebi à beira mar com o meu querido primo Tomané que construi esta divagação.

É mais um desses momentos de felicidade que vou partilhar aqui neste espaço. Tinha no frigorífico umas acelgas que de tão ignoradas, já gritavam por mim (no sentido figurado, claro) . Resolvi fazer migas de acelgas. Mais propriamente, Migas de Batatas e Acelgas. Cozinhei uma batata e um ramo destas couves (será que são couves ou um híbrido couve-alface??) em vapor. Esmigalhei a batata e miguei com uma faca as acelgas. Fritei uns dentes de alho em azeite, quando os alhos começaram a saltitar no azeite (a saltitar de felicidade, entenda-se), juntei a batata e as acelgas. Pus sal e pimenta, misturei, mas não mexi mais, para deixar a batata criar uma crostinha levemente dourada. Virei, para o mesmo efeito do outro lado. Pus no prato, sentei-me em frente à televisão e sorvi um momento de prazer imenso que vinha empacotado nestas “Migas de Batata e Acelgas”. Receita fácil, não é?