Favas com chouriço

1. Favas

A Natureza é mãe. Hoje, ao regressarmos ao jardim, fomos recebidos de braços abertos. Favas, curgetes gigantes, mais groselhas, mais cerejas, mais framboesas, outros frutos silvestres que só aqui conheci. 

É das favas que falo hoje, e conto o conto desde o início. Ao planearmos o que semear, o meu marido perguntou-me: “e favas?”, “favas, achas que crescem aqui? Nunca as vi sequer à venda!”. Estava céptica. Ele tratou de investigar e encomendou as sementes. Acho que ele traz também consigo a saudade. Semeou-as em Abril e hoje foi o dia de colher os frutos. Apanhei um balde delas. Fui muita vez à fava com a minha Avó. Trazíamos sempre um balde para casa, que descascávamos no quintal e dava uma panelada de favas. Estas, descasquei-as com a minha filha mais nova, que me dizia: “Sou fóte!!” e abria a vagem, partindo-a entre as suas mãozinhas. E a cada vagem aberta, um ah! de surpresa pelas sementes que aí encontrava. “Um doix tex catu xinco”. E perguntava insistentemente se podia provar. “sim, prova, mas olha que cruas não prestam”. Uma dentada, uma careta. 

Cheguei a casa e dirigi-me ao fogão com o alguidar de favas e um ramo de cebolinho. Lavei-as, seleccionei duas mãos cheias das maiores a pensar já nas sementeiras do próximo ano e pus o resto na panela de pressão, que ficou a dois terços cheia. Reguei com um copo de água e um fio de azeite e temperei com sal, um dente de alho, o ramo de cebolinho e outro de salsa. Deixei dar um apito e desliguei.

2.  Chouriço

O chouriço deu-me a minha mãe e eu guardei religiosamente para a ocasião. Bom quase, que fui-lhe dando umas falhinhas com a minha filha mais velha. Descasquei-o, parti-o em pedaços e fritei-o. Reguei as favas com o chouriço. Isto é saudade. Sabe bem fazer aqui o que fazia em Portugal. Sabe melhor ainda comer o que semeámos. E a frescura é … sem palavras. Mas, ao provar, não senti aquele sabor bom das favas da minha Avó. Explico-o por ter estado a cozinhar e o meu olfacto se ter adaptado. Depois lembrei-me. “Ah, o açúcar!”. A minha Avó põe “açúcar” nas favas. 

Anúncios

Ovos com chouriço

Quando era pequena, a minha mãe costumava fazer ervilhas com ovos escalfados. Confesso que nunca fui fã. Enquanto a minha prima, ao meu lado, enumerava todas as qualidades do prato, eu olhava para as ervilhas e sonhava com esparguete.

Desde há algum tempo que tenho andado a pensar neste prato e em como o poderia reinventar. Hoje deu-se o click decisivo e pus mãos à obra.

Cortei em cubinhos uma cebola e um alho. Pus a fritar em azeite. Entretanto, cortei meio chouriço em fatias  e pu-lo numa frigideira, em lume médio, a fritar na sua própria gordura até ficar crocante. Quando a cebola ficou transparente. juntei feijão verde cortado em troços de cerca de 2 cm. Juntei um pouco de tomate concentrado misturado numa chávena de água.

Enquanto observava o verde vivo do feijão sob a luz do lusco fusco, quis parar o tempo, parar o espaço. Congelar aquele momento na memória (da máquina fotográfica). Não fosse aqui em casa a preparação do jantar um processo que não permite interrupções, a não ser para por uma chucha no seu devido lugar. E não fosse a personalidade da minha máquina, que sempre se nega a mostrar no seu ecrã aquilo que os meus olhos vêem. Tento então mostrá-lo por palavras, para consumir em modo slow, com a convicção de que só imagens especiais valem mil palavras.

Os feijões ficaram prontos e  por cima juntei os ovos, com cuidado. Tapei e esperei cerca de três minutos, de modo a ficarem com a clara cozida e a gema líquida.

Distribui pelos pratos e espalhei o crocante de chouriço por cima dos feijões. A minha filha comeu tudo. Bom, tudo excepto os feijões…