Na rama

Chegou o pacote da salvação a Portugal, que diz que vai fazer não sei o quê. E que, como “efeito colateral” vai tornar os ricos mais ricos e os pobres mais pobres, a nível nacional e europeu. Disse-me a minha sogra: Portugal está à beira do colapso e é a Alemanha que o vai salvar! Logo lhe disse que com os juros impostos, também eu queria fazer parte desta “equipa de salvação”. O nosso estado recebe o tal pacote enquanto o povo vê os seus direitos sociais esvairem-se. Enquanto os campos de cultura definham, abandonados, e os barcos dos pescadores jazem na praia. Enquanto os trabalhadores qualificados vão para este país bárbaro, continua o povo a ver nos supermercados as laranjas de Espanha, os figos secos da Turquia e as amêndoas de Marrocos. E o pão que alguém amassou com o trigo de uma qualquer monocultura destruidora distante. E nas estradas rodam as rodas da “deutsch technologie”… E vem a Frau Merkel criticar a idade de reforma e os dias de férias dos países do Sul. Mas mesmo sem saber uma palavra de alemão, basta olhar para os números para ver o tiro que a senhora deu no seu próprio pé. Aqui se pode ver que Portugal e Espanha são os países em que as pessoas, na realidade e não em teoria, se reformam mais tarde (62,6 anos, 39 anos de trabalho), enquanto a Alemanha encabeça a lista dos mais jovens reformados, com uma média de 61,7 anos, com 33,5 anos de trabalho. E quanto às férias, a Alemanha oferece aos seus trabalhadores entre 20 a 30 dias, Portugal oferece 22. Noch mal, Frau Merkel? E quanto a este assunto, para o meu estômago não dar mais um nó, prefiro ficar pela rama. Literal e, especificamente, fico-me pela rama das cenouras.

Quando era pequena, a minha mãe costumava fazer umas pataniscas com rama de cenoura, que eu adorava. Fi-las eu agora, com a minha fórmula das pataniscas 1+1+1 (1 ovo, 100 gr. de farinha com fermento e 100 mL de leite). Bati o ovo com o leite e fui juntando lentamente esta mistura à farinha. Deixei a massa descansar 15 minutos Cortei a rama às cenouras, seleccionando apenas as folhas mais tenras (com o resto da rama e alguns temperos, fiz um caldo de legumes). Piquei as folhas e misturei-as com a massa. Em óleo quente, fui deitando colheradas de massa, que retirava para papel absorvente quando bronzeavam dos dois lados. Comi a dose completa, sem qualquer acompanhamento, nem para mim nem para as pataniscas. Só eu e elas. Mas as da minha mãe ficam fofinhas, redondinhas e sequinhas, como se sonhos fossem. Sonhos de rama, para os quais também ela não tem a receita. Falta saber por onde andam os nossos outros sonhos de um país mais justo. Sonhemo-los outra vez, mas desta vez como a cenoura e sua rama, com a cabeça no céu e os pés na terra. Boa noite e até amanhã. Sonhos lindos.

10 thoughts on “Na rama

  1. Eu hoje fiquei tão revoltada com a Sra Merkel, eu já não ia muito com a cara dela, mas de hoje em diante não posso nem vê-la.
    A dita senhora podia ter acrescentado que Portugal também deveria igualar-se à Alemanha nos cuidados de saúde, na educação e no salário mínimo nacional, mas não a preocupação da senhora foi que os portugueses não se podiam reformar mais cedo que os alemães, e eu pergunto-me porquê, será que não trabalhamos o suficiente? Ou será que não tanto como eles?
    A senhora também se esqueceu que os 20 dias de férias na Alemanha, em teoria só estão na Lei, porque conheço muitos alemães e sei que na prática têm os mesmos 30 dias que eu tenho.
    Enfim que venha a rama da cenoura e os sonhos para eu ficar mansinha que nem um coelhinho e não me chatear com politiquices.
    Beijocas

    • Moira,
      Tens toda a razão. Ela podia fazer estas comparações se tudo o resto na Europa fosse igual. Mas 1 Euro nos países do Sul não é igual a 1 Euro nos países do Norte. Se eles quisessem mesmo ajudar os paises mais pobres, em vez de atirarem areia aos olhos do povo com estes emprestimos, começavam a importar produtos portugueses e gregos e reviam as políticas económicas da Europa, que só favorecem os grandes piiiiiiis capitalistas. Num super mercado normal por aqui, nunca vi produtos com origem de Portugal. Ate as sardinhas enlatadas vêm de marrocos.
      beijinhos
      Sofia

      • Claro Sofia, um euro não vale o mesmo em todo o lado e se nos querem obrigar a deveres iguais também devíamos ter direitos iguais.
        Como sabes só estive 3 meses na Alemanha, mas foi o tempo suficiente para perceber que os alemães de Portugal só gostam das praias, do rosé e do vinho verde. Eu sei que é injusto generalizar… mas não nos podemos calar, porque afinal é tudo um jogo económico e político e tal comos os Estados Unidos querem mandar no mundo a Sra. M. quer mandar na Europa.
        Nunca pensei falar de politica num blog de culinária hehehehehe
        Beijocas para ti e para a família

      • Moira,
        Nao sendo economista, tambem concordo com a unificacao dos direitos e deveres na Europa. Ferias iguais, anos de trabalho e idade de reforma iguais e beneficios sociais iguais. Ficariamos a ganhar. E ainda por cima temos Sol e Sardinhas! 😉
        Beijinhos

  2. Olá Sofia! Já tinha saudades de te visitar. Gostei muito das tuas pataniscas de rama de cenoura. Pena é que aqui em Portugal, já há muitos anos que ela não apareça nos mercados, junto com as ditas. Lembro-me de, quando era pequenita, nos anos 50, as cenouras virem aos molhos com a sua rama rendada! Mas davam-na aos coelhos e eu nem sabia que se podia fazer uma bela e nutritiva sopa com ela! Talvez por essa ignorância própria de gente da cidade, passados anos, as cenouras perderam a rama e passaram a vir em sacos para serem vendidas na praça. Talvez agora por força da D. Crise, voltemos às sopas de rama de cenoura, de ortiga branca e outras ervas afins. E ressuscitem os Peixinhos da Horta e as Pataniscas como as tuas!
    Quanto aos tristes comentários da sra. Merkel ou dos srs da Finlândia, temos de nos calar (veremos até quando), pois merecemos que nos puxem bem as orelhas até ao tecto. Não tanto por termos sido os causadores directos do descalabro das Finanças, mas porque permitimos que os Vampiros voltassem e comessem tudo, roubassem tudo e desbaratassem tudo…
    E no dia 5 de Junho vamos eleger a mesma Corja que nos pôs de tanga!
    Tal como dizia o rei D. Carlos (que deixou uma dívida que igual que só em 2009 é que o Zé Povinho acabou de pagar sem o saber) somos “um país de bananas governado por sacanas”.
    Manda aí uma dose de Pataniscas para esta mesa que eu ofereço o Vinho para acompanhar! Bjs. Bombom

    • tchim tchim, Bombom!
      Nao fazia ideia sobre essa divida que D. Carlos deixou… e assombrou-me ter demorado mais de cem anos a pagar!!!
      Beijinhos
      Sofia

  3. Muito bem escrito, o teu texto. Pela rama ficaste. E triste, como eu. Triste com os de cá e com os de fora que, com uma moral um pouco duvidosa, atiram galhardetes inconcebíveis. E se ao menos eu encontrasse esta rama de cenoura para pairar pela realidade… Infelizmente sinto-me bem atolada no polme das pataniscas!…
    Um beijo
    babette

    • Babette,
      Neste caso, saiu o galhardete pela culatra da D. Merkel. Enfim, ela devia era agradecer-nos por estarmos a engordar os bancos germanicos. E cabe-nos a nos, portugueses, estimular a nossa economia, dando preferencia aos nossos produtos nos diferentes sectores economicos. E bom para a nossa carteira e para o Pais.
      Beijinhos
      Sofia

  4. Assim se descobre a rama mentirosa dos senhores do Universo 🙂 Eu estou como o Tiririca “Pior do que eu estou, eu não fica” he he Já não tinha direito a nada depois de queimar as pestanas a estudar 24 anos da minha vida, agora a nada vou ter direito. Acho que vamos voltar a comer sopa de saramagos e a ir buscar as cabeças das sardinhas aos baldes do lixo e, mais um bocadinho, somos nós a emigrar prá Roménia e a pedir uma esmolinha 😉
    A coisa está mesmo para 1+1+1, 1 palhaço+ 1 comilão+ 1 ladrão! Prefiro a tua fórmula das pataniscas.

  5. Pingback: Bolo salgado com cenoura e sua rama « No reino da Prússia

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