No bake cake for world baking day

Celebro o “World Baking Day” com salame de chocolate. Trouxe a receita da casa da Helena e desde já aconselho o caro leitor a seguir com especial atenção as notas adicionais do autor. Apesar de ser um bolo (será que se pode definir como bolo?) que não entra na prateleira do forno, mas sim na prateleira do frigorífico, pensei que talvez nem coubesse num desafio que nos convida a usar o forno. Num segundo pensamento, relativizei tudo em torno da temperatura. Voltei a vacilar com a receita do salame porque este desafio nos pede para sair da zona de conforto. Assim surgiu mais um obstáculo, porque para mim chocolate é conforto. E depois esta receita é canja. A minha filha fá-la-ia  sozinha, decerto. Embrulhada nestes pensamentos, decidi olhar o problema numa outra perspectiva e argumentei comigo mesma que a minha experiência com bolos tão fáceis que até uma criança os faria não é exactamente a melhor. Então, estava decidido. Fiz a receita a dobrar, mas em vez de chocolate de leite, usei chocolate a 70% e bolachas de manteiga a 13% em vez de bolacha maria. Reduzi então a quantidade total de manteiga em 13% usando olhómetro e acabei por manter a quantidade de manteiga para uma dose nas duas doses.

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Pus 400 gr. de bolacha num saco, fechei-o e dei-lhe umas belas pancadas secas até as bolachas ficarem em pedacinhos. Derreti 220 gr. de chocolate com 75 gr. de manteiga em banho maria. Entretanto, bati 2 ovos com 120 gr. de açúcar integral. Misturei tudo e dividi em dois “chouriços”, que embrulhei em papel de alumínio. Levei ao frio. Aqui em casa, todos gostaram, da mais pequenina ao maior. Outros prussianos provaram o salame e as reacções foram engraçadas. “Salame? Com chocolate? É doce ou salgado?”, ou “Ah, ah, ah. é duro como um salami de verdade!”. Para finalizar, devo relembrar o caro leitor, caso queira seguir a receita, de não se esquecer que as importantes notas do autor não são de desprezar.

Só para adultos

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As crianças estão na cama? Então relaxe, sente-se no sofá e leia este post. Este post é um post picante. Não precisa de bolinha vermelha no canto superior direito do ecrã, mas não é para meninos. É picante, porque hoje a malagueta é rainha e o pão seu rei, num prato de migas. E antes de lhe apresentar a receita, deixe-me dizer-lhe já as reacções dos comensais aqui em casa. A princesa foi clara: “Eu não quero migas, quero espargueeeeeeete!!”. A princesinha, clara foi, “Dá, dá, nein, dá!!”, apontando para o ovo. Ao meu marido, perguntei: “Então, amor, gostas das migas?”. Seguindo-se um longo silêncio, repeti a pergunta. “Ah, mmm, sim, são boas, mas com o pão português são melhores”. Argumento redutor. Segue-se então a receita: ponha o pão duro de molho. Refogue uma cebola em azeite e louro. Quando a cebola estiver mole e transparente, junte o pão também já mole. Tempere com sal, pimenta, uma bela malagueta e paprica, muita paprica (quem é que se lembra disto?). Mexa lentamente em lume brando até adquirir a consistência necessária. Eu gosto delas com uma leve crosta dourada.

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Servi as migas com espargos brancos temperados com azeite e vinagre e com ovo, que ferveu 3.5 minutos.

Com esta refeição. gostaria de iniciar-me no movimento “meatless monday”. Isto, por uma vida mais sustentável.

“Coisas soltas”

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A Primavera chegou. Apesar do cachecol ainda se enrolar no pescoço dos mais friorentos, o gelado já anda na mão. Gorros e luvas estão em hibernação até ao próximo Inverno. Fingers crossed!

Na cozinha, reina a normalidade. A minha filha pediu-me batatas fritas e eu acedi, na condição de fazê-las no forno. “Mas batatas fritas são sempre no forno, mãe!”, foi a sua resposta. Disse baixinho “não só mas também” e fui soberanamente ignorada – Felizmente. Para acompanhar, fiz-lhe ketchup, “Quécha”, como é conhecido aqui em casa. Juntei à polpa de tomate, algum açúcar e vinagre e deixei fervilhar. Ainda no reino das batatas, experimentei as perfect baked potatoes da Nigella, mas na minha cozinha, o adjectivo não vingou.

Aos fins de semana, as panquecas estão sempre presentes na mesa do pequeno almoço. É um belo entretém para as duas pequenotas. Enquanto uma princesa parte os ovos e junta o leite, a outra princesinha descobre o mundo encantado da farinha voadora e da massa na bancada. É uma risota sem fim. Só visto e não contado.

Continuando o capítulo da massa voadora, ando na senda “do” bolo mármore. O clássico da Maria de Lurdes Modesto não resultou comigo e, apesar de ser uma receita à prova de crianças, o que saiu do meu forno foi uma arma de arremesso às riscas. Também tentei a infalível receita do bolo de iogurte 1-2-3 com 2/3 de massa de baunilha e 1/3 de chocolate mas, desta experiência, saiu do meu forno um “pãozinho sem sal”.

São estes os apontamentos desta cozinha da Prússia, onde a Primavera, finalmente, floresce em todo o seu esplendor.

Folar da Páscoa

ImagemTalvez o título deste post devesse ser Feliz Páscoa, pois é isso que vos desejo hoje, uma feliz e santa Páscoa. Desde que estou na Prússia que a Páscoa, para mim, adquiriu uma dimensão diferente. Em Portugal, resumia-se a Folar e Praia – sem carne na sexta feira santa e com borrego no domingo de Páscoa. Na Prússia, foi-se o Folar e a Praia, mas chegou um coelho que, imagine-se. é até capaz de pôr ovinhos de chocolate, deixando a melhor galinha poedeira sem pio. E depois, o coelhinho até anda pelos jardins a esconder os seus ovinhos e outros presentes. Muito interessante, depois, a caça ao coelho e aos seus ovos, feita pelas ingénuas crianças.

Mas o folar que a minha Avó todos os anos faz é o meu representante oficial da Páscoa. E como a Páscoa é quando uma Avó quiser, tenho eu a sorte de ter uma Páscoa à medida se viajo a Portugal na Primavera. A receita deste pão pascoal acompanha-me já há varios anos, mas foi este o ano em que decidi pôr as mãos na massa. 

Misturei em 250 mL de leite morno, 12 gr. de fermento de padeiro seco. Fiz um dL de chá de erva doce bem forte. Juntei a 1 Kg de farinha, 2 ovos e 1 dL de azeite. Juntei o leite morno e o chá e 400 gr. de açúcar. Deixei a máquina bater a massa até ficar elástica. Embrulhei a massa num pano e deixei levedar em lugar quentinho, até dobrar de tamanho. Bati mais uma vez a massa, rapidamente, e dividi em 6 bolinhas, que deixei a levedar mais uma vez, durante 2 horas. Depois, pincelei cada bolinha com um ovo batido e levei a forno aquecido a 160 graus por cerca de meia hora. 

Ficaram bons, mas aquém dos originais. 

 

O poema possível

Para mim, os poemas não pertencem em livros. Aí, estão estrangulados, presos entre páginas e pó. Os poemas, são para ser cantados e gritados. E, hoje, só há um poema possível*:

Grândola, vila morena
Terra da fraternidade
O povo é quem mais ordena
Dentro de ti, ó cidade
Dentro de ti, ó cidade
O povo é quem mais ordena
Terra da fraternidade
Grândola, vila morena
Em cada esquina um amigo
Em cada rosto igualdade
Grândola, vila morena
Terra da fraternidade
Terra da fraternidade
Grândola, vila morena
Em cada rosto igualdade
O povo é quem mais ordena
À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade
Jurei ter por companheira
Grândola a tua vontade
Grândola a tua vontade
Jurei ter por companheira
À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade
 Para jantar, fiz coelho na panela – e: qualquer relação entre este coelho e qualquer outro roedor é pura coincidência!
Do bicho já esquartejado no talho, trouxe três pernas. Afoguei-as em muito vinho tinto, louro e alho e deixei marinar três horas. Aqueci azeite numa panela resistente ao forno e selei-as. A minha filha perguntou: “Ó mãe, vais matar o coelho na panela?” Eu disse-lhe que não, que quando comprei o coelho, ele já vinha morto. E decidi não alongar mais a conversa. Com as pernocas bem tostadas, juntei vegetais de todas as cores. O laranja da cenoura, o vermelho da beterraba e o amarelo da batata. Juntei duas cebolas em quartos.
Quando os vegetais ficaram tão bem misturados com o coelho que já não era possível distinguir a cor de cada vegetal, a única coisa a fazer foi juntar a marinada de vinho. Levei ao forno cerca de 40 minutos.
Depois, no prato, completei com a cor esperança da salada e cantei o poema à minha mesa sentado.

Sopa de pastinaca

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Nada como a sopa para combater o frio que cai nos dias. Esta sopa, com pastinaca e queijo curado dos Alpes é uma boa surpresa. É quente e suave, é doce e forte. Gostei especialmente do contraste entre o sabor forte do queijo e a doçura e suavidade da pastinaca.

Tudo ao mesmo tempo na panela de pressão: uma pastinaca grande, 1 batata, uma cebola, a parte branca do alho francês e uma mão cheia de arroz. Depois de cozido, triturar, temperar com sal e pimenta e, no prato, polvilhar com o queijo ralado, salsa picado e um fio de azeite.

Omas Käsekuchen*

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“Ó mãe, hoje quero fazer um bolo contigo, pode ser?”, perguntou-me a minha filha ao pequeno almoço, “Claro, amor. Fazemos um bolo de chocolate ou o bolo de queijo da avó?”, “Omas Käsekuchen!”, respondeu o meu marido ainda antes de eu ter acabado a frase.

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Depois do almoço, chove neve lá fora e cá dentro, pai e bebé dormem a sesta. “Vamos fazer o bolo?”, perguntei e, como resposta, a minha filha encosta a sua cadeira à bancada da cozinha. Ponho 125 gr. de farinha numa taça. “Ó mãe, já posso provar?”, “Põe primeiro o ovo”, “Ó mãe, já posso provar?”, “Espera, com o açúcar sempre fica melhor”, e entrego-lhe 60 gr de açúcar. Misturo eu 100 gr de manteiga derretida à massa. “Tenho sede”. Viro-me de costas para bater três claras em castelo com 90 gr. de açúcar e misturo 300 gr. de queijo quark com sumo e raspa de meio limão 30 gr. de farinha maizena. Quando as claras ficaram em castelo, juntei-lhes as gemas uma a uma, mas baixando a velocidade da batedeira. Entretanto, misturei suavemente as claras com o quark. E a minha filha diz-me, baixinho: “Ó mãe, a mana esteve aqui e pôs água na massa…”. Nesta altura, desejei eu estar a dormir a sesta em vez da aventura do bolo. Relembrei a minha filha que a sua irmã estava a dormir a sesta no quarto e não acordada na sala e que a única entidade que pode estar em dois estados diferentes ao mesmo tempo é o gato de um senhor com nome complicado. Depois de esclarecido o mal entendido, disse-lhe que o problema se resolvia facilmente juntando mais farinha. Obtendo a consistência desejada, formei uma bola com as mãos e pu-la a arrefecer**. Em fria, estiquei-a com o rolo da massa e com ela forrei uma forma redonda de 26cm. Adicionei a massa do queijo e levei a forno quente a 150 graus por cerca de 45 minutos, tendo retirado o bolo do quentinho quando o teste do palito deu positivo.

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* O bolo de queijo da avó

** Caso tenha curiosidade nesta experiência, omita a parte da água e faça primeiro esta massa base, pois precisa refrigerar e, se o fizer no congelador, o tempo que demora a fazer a massa do queijo é suficiente para atingir a temperatura desejada da massa base.

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On hot chocolate

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Escrevo estas três linhas há três dias. Isto tudo por causa da neve. Quero fugir ao assunto do tempo mas desisto, não tenho escapatória. A neve cobre-me as palavras, o pensamento, cobre-me os passos e cobre a minha rua. Enfrento o bicho branco e gelado de frente, atirando-lhe com chocolate, quente, em forma de bolo. 

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Este é o bolo de chocolate que a Nigella sugere para o dia de S. Valentim, no seu “Feast”.  Ela fá-lo com recheio e cobertura, mas eu fi-lo simples e cortei 50 gr de açúcar. Liguei o forno nos 170 graus, liguei a batedeira na velocidade máxima para bater 3 ovos com 120 gr. de açúcar integral, liguei o bico do fogão para aquecer 150mL de leite com uma colher de sopa de manteiga. E liguei a balança eléctrica para pesar 175 gr. de farinha. Juntei à farinha três colheres de sopa de cacau e uma colher de chá de bicarbonato de sódio. Entretanto, a batedeira eléctrica já tinha produzido uma espuma de ovos e açúcar e eu juntei alternadamente o leite morno com a mistura dos secos. Misturei levemente até obter uma mistura homogénea e levei ao forno durante 20 minutos. A leveza do bolo é surpreendente e surpreendente é também o duplo sentido que adquire esta característica do bolo, pois a quantidade de gorduras e açúcar é bastante reduzida.

E – fugindo assunto – reparou, querido leitor, na quantidade de vezes que eu conjuguei o verbo “ligar” na descrição desta receita? E na frequência da palavra “eléctrica” nas poucas linhas que a compõem? As food for thought, tente, querido leitor, pensar como seria a (sua) vida se os interruptores deixassem de (lhe) trazer luz.  E tenha a simpatia de partilhar com o reino as suas ideias nesta caixa de comentários!

Carta

Queridos Leitores.

Desejo-vos a todos um excelente 2013. Cheio de saúde, paz e amor. E felicidade.

Aqui pela Prússia estamos no meio do Inverno. Mesmo naquele ponto em que já não vale a pena olhar para trás que o Outono é longínquo, nem vale a pena olhar para a frente, pois a luz da Primavera mais o é. Se o Inverno fosse uma semana, estaríamos na terça feira. A única solução é apertar os casacos, enterrar a carapuça na cabeça e dar um passo de cada vez, e a cada passo, confesso, que penso – desejo – que amanhã seja melhor.

Desejo também publicar mais. Quando vejo que o último post que publiquei foi em Novembro, assusto-me e entro em negação. “Não, não pode ser, mas ainda ontem…”. Mas o ontem foi há meses. E quando, ao fim do dia, as crianças estão na cama e eu no sofá e todo o universo se alinha para escrever mais um post, o meu marido acena-me com uma caixinha rectangular e, sorrindo, pergunta-me: “vemos um filme?”. E eu, de fraca carne, acedo, sem negar, sem sequer conseguir proferir um: “sim, mas … também queria escrever no meu blog”. A minha frase fica ali, interrompida, suspensa, antes de sequer ter tido uma oportunidade de começar.

E depois de pensar que quero publicar, vem o grande dilema. O que publicar? Ontem fiz umas migas gulosas, que deixei cozinhar longamente. Elas fervilhavam languidamente eu eu mexia-as em torque baixo, com a colher de pau a passar lentamente por entre os pedaços desfeitos de pão e envoltos no alho e azeite. Mas de receitas de migas está este blog cheio…

Aliado ao meu desejo de publicar, vem outro desejo, o de publicar com imagens. Mas… aqui encontro outro obstáculo, outra desculpa que é, na verdade um argumento de peso. E é a luz. De manhã, as nuvens gordas e cinzentas tapam o sol longínquo, e ao fim do dia já o sol ilumina o outro lado do mundo.

E assim, caros leitores, me despeço até ao próximo post, que chegue antes da Primavera, e que esta chegue ao virar da próxima esquina.

Um grande 2013 para todos! Com saúde, paz, amor, felicidade e o dinheiro que for preciso para pôr estes quatro elementos em alta. E com uma mesa cheia de coisas boas.

Sofia

1494

16 de Outubro de 2565, algures no Planeta Azul.

Hoje é dia do Mar. Sempre senti um fascínio inexplicável por este manto de água. Diz-se que outrora era azul, umas vezes turquesa, outras esmeralda. E que, espante-se, havia até criaturas capazes de nele viver. Nisso, nunca acreditei. Só há cinco espécies de seres vivos e todos morreriam mais de alguns minutos dentro de água. Olhei a janela. A cor sépia do céu reflectia-se no mar. E no chão, cinzento, de pó e pedras. Senti uma fraqueza nas pernas e decidi comer algo. Fui a sintetizador de alimentos e marquei o que precisava: DDR de vitamina D, carbono, açúcar, fibras, proteínas, água, etc. etc. etc. A maquineta pôs-se a trabalhar e saíu uma barra da cor daquele céu, que engoli. Não sei como vim parar a esta vila virada para o mar. Sei que, desde então, não vira vivalma. Nem de rato, nem de barata, nem de morcego. Bom, minto, uma gaivota pairou uma vez na minha paisagem e levou-me a minha barra de alimento daquele dia. Tudo aconteceu depois da grande conflagração dos povos. Ou, deverei dizer, da grande dizimação da vida. Eu salvei-me. E salvou-me a minha máquina de alimento.  E o facto de nenhum Bárbaro, Visigodo, Ostrogodo, Vândalo ou Alano ter sequer suspeitado que tal relíquia ainda existisse, ainda para mais nas mãos de uma criança. Decidi seguir o caminho até ao mar. Por causa do meu fascínio, que nasceu das estórias que me contava o meu Avô. Dizia-me ele que, há muito muito tempo atrás, no tempo em que os pássaros chilreavam, havia quem navegasse nos mares em pequenas casas flutuantes. Queriam descobrir o que havia depois do mar, depois do horizonte. Suspirei e dei uma volta pela casa. Parei em frente àquela roleta de manivela dourada que estava numa das divisões. Nunca me atrevi a dar à manivela, mas a verdade é que aquilo me fascinava. Havia o que parecia ser uma dessas casas flutuantes, havia Reis, havia Animais, Plantas, Palácios. Enfim, todos os personagens das fantásticas estórias do meu Avô. Arrebatado pela Saudade, girei a manivela, girei, girei, gritei, chorei, e de repente, as luzes da máquina acenderam e, no centro da roleta, apareceu “1494″. Senti tudo a girar à minha volta e devo ter desmaiado. Quando acordei, o céu era azul. Levantei-me a custo e quase fui de novo derrubado por alguém apressado, que me disse: “O que estás aqui a fazer, sai da frente, rapaz! Olha vai mas é ver se o rei precisa de préstimos!”, e apontou-me um palácio lindo, a recortar o céu em tons dourados. Belisquei-me. Entrei no palácio e procurei, silencioso, sinal de vida. O meu silêncio era a minha sobrevivência, como tinha aprendido durante a minha peregrinação para o mar. Por detrás de pesados cortinados vermelhos, estanquei. Ouvia vozes.

“… revistei todo o palácio, estamos sózinhos”. ”Então debrucemo-nos sobre o mapa. O navegador da minha prima pensa que chegou a Calicut, mas os cálculos dos meus cientistas dizem algo bem diferente”, disse aquele homem de caracter imponente. “Sua Majestade, tem a certeza? Será que esses cálculos têm mesmo poder preditivo?”. “Têm mais que isso”, disse o rei, fixando o seu interlocutor. Ficaram um minuto em silêncio. “Sua Majestade, D. João II, então façamos o seguinte: tracemos uma linha imaginária no eixo longitudinal da Terra e dividamos com Espanha, deixando esta parte de “mar” do lado Português.

Voltei a beliscar-me. Um aroma inebriante chegou-me ao nariz. “Sua majestade, a ceia que pediu. Rojões de vaca com batatas”. De repente, comecei a salivar e dei por mim, hipnotizado, a seguir o cheiro. Deparei-me com o que deveriam ser “rojões de vaca com batatas” e o meu instinto foi mais forte, esquecendo que me tinha que esconder para não ser descoberto. Pus na boca, mastiguei, senti algo sensacional, engoli e comi, comi, até aparecer uma mulher gorda com uma vassoura na mão que me enxotou dali para fora, dizendo: “O que estás aqui a fazer petiz?? Vai já buscar os ovos às galinhas! Ai que levas já com a vassoura!!! Diabo do rapaz…. Ah, se te apanho!” Saí, sem conseguir descrever aquela sensação dos rojões e batatas na minha boca. A que sabe a carne frita lentamente em alho e azeite, temperada com louro? A que sabem batatas fritas? Não sei. A vida, talvez. Bordando o céu azul, um passarinho chlireava pousado num galho verdejante.

D. João II é o meu convidado Aristocrata, do Convidei para Jantar…, desta vez albergado na casa da Alice.