Dr. Jekill and Mr. Hyde

Há livros que marcam a nossa infância. Trago da minha infância, dois livros especiais e tão diferentes. Já o leitor adivinhou qual é um deles. Li-o num verão, passado na casa dos meus avós, numa impressão dos anos 60 que terá pertencido à minha mãe ou minha tia. Gosto de thrillers, gosto de policiais e de uma boa investigação e gosto de romances com “settings” reais. Isto leva-me ao segundo livro da minha infância, “Os capitães da areia”. Li-o quando tinha a idade dos capitães, o que me fez pensar bastante na injustiça da vida e na sorte que eu tinha em ir para a escola. Na verdade, ainda houve outro livro na minha infância, que a minha mãe comprou depois de uma visita ao Planetário de Lisboa, e que eu li com uma sede e voracidade de saber um pouco mais. “Um pouco mais de azul”. Afinal são três… E depois havia os outros, que devorava, tentando ler devagar para prolongar o prazer. As séries de Enid Blyton, a colecção Uma Aventura…

E se eu pudesse convidar um destes personagens para jantar cá em casa, quem convidaria? As personagens de Robert Louis Stevenson ? O que haveria de servir a Dr. Jekill? ou a Mr. Hyde? E se naquela noite, os dois me concedessem  o prazer da sua visita? O que faria: carne ou peixe? Arroz ou massa? A acompanhar, água ou vinho? E no fim, serviria chá ou café? As questões seriam muitas, teria apenas a certeza da música que poria na aparelhagem. Enfim, com tantas dúvidas, mais valeria ir eu própria percorrer as ruelas escuras e mediavais que me levassem ao coração de Edimburgo, onde o pai do Dr. viveu. Seria concerteza um jantar victoriano. Servi-nos-ia a governanta Haggis? Ou uma minced pie? Fish and chips não serviria … Eram dúvidas e incertezas a mais para mim.

Então, pensei em convidar os Capitães. Mas logo me pus a pensar na logística que implicaria e decidi ir eu visitá-los. Uma viagem ao Rio em Fevereiro, Carnaval, que coincidência, quando na Europa o frio até estala não era nada mal pensado. Haveríamos de comer todos na praia, talvez algum dedilhasse numa guitarra, perguntar-me-iam se eu não tinha uns trocos para eles comprarem cigarros.
Quereriam saber mais sobre a Europa, tivessem eles o sonho de um dia visitarem o antigo Continente. Talvez o “Professor” me perguntasse se eu teria algum livro na algibeira, para ele.

E para o jantar, faria um guisado de lentilhas com bacon.

A receita: Refogar o bacon com cebola, juntar batatas, cenouras e nabo cortado aos cubinhos e lentilhas. Picar a rama das cenouras e juntar aos legumes Adicionar água até tapar os legumes. Cozinhar na panela de pressão até apitar. Se ficar muito seco, juntar chá de funcho e anis para produzir mais molho e mexer bem. E, para ouvir: Menino do Rio. Desta cidade que alberga Dr. Jekill e Mr. Hyde lado a lado e onde o céu é um pouco mais azul.

Bolo salgado com cenoura e sua rama

Esta foto aguçou-me o apetite. Não a tinha na lista do supermercado, mas trouxe um belo ramalhete de cenouras para casa, com o intuito de usar a sua rama. A minha mãe costuma fazer pataniscas com a rama, mas desta vez tive vontade de um bolo salgado e fui buscar a receita às three fat ladies. Bati muito bem três ovos com 1 dL de óleo e 100 gr. de iogurte natural. Juntei a rama de cenoura bem picadinha e 4 cenouras raladas à massa. Temperei com sal, pimenta e uma colher de sopa de caril. Acrescentei 180 gr farinha (e uma pitada de fermento) em chuva e envolvi suavemente. E por fim, cortei uma bola de queijo mozarella – porque não tinha feta – em cubinhos e juntei à massa. Em forma de bolo inglês forrada com papel vegetal, coloquei a massa. Levei a forno aquecido a 180 graus durante 50 minutos. Come-se bem quente e frio, mas come-se melhor morno, para sentir o queijo derretido envolvido na massa.

Mas continuei com o ramalhete da cenoura na cabeça e hoje fiz arroz malandro com rama. Fritei arroz de bago redondo em alho e azeite e juntei água numa razão 3:1. A meio da cozedura, juntei a rama da cenoura picada. Muito bom.

Gosto muito do sabor forte da rama da cenoura e, de acordo com o que se lê por essa internet fora, parece que a rama é nutricionalmente mais rica que a cenoura. E ideias para pôr o ramalhete no tacho não me faltam. Talvez da próxima experimente num arroz de feijão.

Sopa de espinafres e batata doce

Não podia deixar em branco a última sopa que fiz: uma batata doce, 3 cenouras, uma cebola e um talo de alho francês, tudo cortado em pequenos troços, cozinhado e triturado. Num tachinho à parte, cozinhei uma mão cheia de espinafres picados e outra mão de massas letrinhas, que juntei aos legumes triturados. Até a minha filha comeu! (bom, só três colheres… de sobremesa… )

Arroz de cabidela – quase – vegetariano

Falou-me a minha mãe um dia que há quem faça arroz de cabidela sem sangue e usando farinha de alfarroba para conferir a típica cor deste prato. Gostei da ideia, resolvi experimentar tentando retratar o arroz de cabidela da minha avó e gostei do resultado. Pus a ferver caldo de frango que tinha feito com os ossos da ave e alguns bagos de pimenta, uns quantos cravinhos e umas folhas de louro. Alourei meia cebola em azeite e juntei arroz de bago redondo, envolvendo bem na cebola e no azeite. Entretanto, numa tacinha, juntei uma colher de sopa de farinha de alfarroba com 2 colheres de sopa de vinagre e 2 cravinhos. Voltei para o arroz e fui juntando o caldo fervente enquanto aquele o bebia. Cozinhei o arroz durante cerca de 1o minutos, juntei a mistura de alfarroba e vinagre e um molhinho de “cheiro verde” picado. Deixei fervilhar mais uns minutos e apaguei o lume. O arroz ficou com bastante caldo, tendo eu cozinhado este prato numa razão de 1 medida de arroz para 4 de caldo. Levei à mesa e sublinho que esta versão de cabidela – que não é vegetariana mas que bem poderia ser – não fica nada aquém da versão mais violenta do prato com a galinha esquartejada e seu sangue.

Pergunte ao seu filho: e agora, o que vem para a panela?

Hoje, depois do almoço, dei por mim a pensar na razão que me leva a alimentar o Reino da Prússia. Tudo começou com uma receita de migas e sem grande esperança na longevidade do blogue. Vou registando receitas que não quero esquecer e partilhando estórias que vivemos na nossa cozinha. Acho que é esta partilha o combustível que mantém o Reino da Prússia. Partilho hoje convosco o que se passa nesta cozinha a Leste e, amanhã, poderão as minhas filhas saber com mais pormenor o que lhes ponho hoje no prato. Por isso, decidi hoje passar à frente de todas as entradas que estão em lista de espera para ser publicadas e partilhar o nosso almoço de hoje. Perguntei à minha filha o que queria para o almoço: arroz ou massa? massa, das pequeninas, e tirou o pacote de fusili do armário. Carne, peixe ou vegetariano? vetaiano sem molho com cáne. Tirei meio quilo de carne picada do congelador. E mais? Tomate não. Estes, mamã. E tirou o pacote de pistácios do armário. Despi-me de preconceitos e acedi. E mais? E estes – vieram pinhões, pevides e sementes de girassol. Lentilhas cor de laranja. Vamos por o sal que fizemos ontem, amor? – Ontem fizemos sal aromatizado com tomilho. Sim, eu ponho. Cuidado, já chega! Disse-lhe à segunda colher de chá. Eu pus à minha conta dois cebolos picados porque não tinha cebola e dois tomates secos, para perceber se esta negação ao tomate em que a minha pequerrucha tanto insiste é real ou ficção. E pus um quarto de pimento vermelho, que ela adora crú ou cozinhado. Nóni não, disse-me ela apontando para as cenouras. Perguntei se ela queria pôr cacau. Sim, que pergunta! Pus tudo a cozinhar ao mesmo tempo (excepto as massas) regado com um fio de azeite durante uns cinco ou dez minutos. Juntei bastante água a ferver e deitei os fusili. Foi para a mesa e ela portou-se como uma dama – mas rejeitou o tomate seco.  A mim soube-me a felicidade. Deixo o testemunho desta receita e deixo-lhe a si, caro leitor, a decisão de querer arriscar ou não. Esta combinação de ingredientes ou a pergunta ao seu filho.

Bolo Rainha

O dia de Reis encerrou as festas. A árvore de Natal despiu-se e saiu, as estrelas, luzes e brilhos apagaram-se e regressaram a uma caixa acomodada num armário escuro e a mesa esvaziou-se de doces. Eu cumpri a minha tradição dos Reis e, no dia seguinte, chamei uma Rainha. Com o bolo rainha, receita adaptada do ingrediente secreto. Comecei por juntar os ingredientes: 250 g de farinha, 50 g  de açúcar, 50 g de manteiga, 7 g de fermento de padeiro, 2 ovos, 2 colheres de sopa de medronho e um gole de leite. Misturei  o leite morno com o fermento numa tacinha. Numa outra taça, misturei os restantes ingredientes excepto o medronho e juntei o fermento com o leite. Deixei a máquina bater a massa durante cerca de 5 minutos. Depois, tapei a massa e deixei descansar durante 3 horas. Entretanto, pus alguns cramberries secos a macerar no medronho e parti uma mão cheia de nozes. Três horas depois: Juntei à massa os cramberries bebidos no medronho, as nozes e mais uma mão cheia de amêndoas. Dispus a massa numa forma de bolo inglês e deixei descansar mais 45 minutos. Dez minutos antes dos 45: liguei o forno a 180 graus. Aos 45, pincelei o bolo com leite e levei ao forno até estar douradinho. Três dias depois: Fiz pãezinhos de passas para a minha filha usando a mesma massa, sem o medronho. E a minha sogra disse-me: Três horas? isso é muito tempo. Liga o forno a 50 graus e retira a massa quando tiver dobrado de volume.

Breakfast Jemima

Este é um belíssimo pequeno almoço para a época festiva. A ideia veio de uma amiga minha indiana. Ela fez  crepes (apenas com água e farinha) e fez um puré de frutas e especiarias fantástico. Triturou algumas frutas que haviam em casa e temperou-as com canela e cardamomo. Desta vez, o que fiz foram panquecas de aveia e farinha integral e fiz a olho. Peço desculpa pela imprecisão desta receita, mas o exercício que tentei fazer para rever as quantidades foi infrutífero. Assim, deixo a lista de ingredientes e o leitor por sua conta e risco: leite, ovos, farinha de trigo (integral e refinada) e flocos de aveia.

Porque a essência desta receita é o que agora descrevo: triturei uma banana com uma maçã e um kiwi. Juntei canela, cardamomo e coco ralado e mexi. Recheei as panquecas com este puré e descobri que o Natal assim, com  um toque indiano é ainda mais sagrado! Desejo a todos um bom Natal e um próspero ano novo!

Sazonal e regional no forno

Pensei em participar no desafio do Menu Verdeque comemora o seu segundo aniversário – com a receita de risotto rosa, mas o queijo de cabra e o risotto destoavam do conceito de sazonal e regional, apesar da beterraba ser de produtor local e da salsa ser da varanda. Então decidi participar com um prato de forno que combina simplesmente dois ingredientes que, não sei porquê, entraram em rota de colisão num qualquer circuito da minha mente. Muitas vezes surge-me do nada a ideia de combinar um ou outro ingrediente e sempre que isto me acontece, dou por mim a perguntar-me o que me levou a tal ideia. Invariavelmente, nestas alturas, penso numa citação de Newton. Disse ele que, se viu mais longe, foi por estar sobre os ombros de gigantes. E fico então com a certeza que a blogosfera é o meu gigante de estimação em cujos ombros eu, grão de areia, me sento e observo a paisagem, lá do alto. E de lá vi  abóbora (hokkaido)* e salvia em par*, a abóbora às fatias e a salvia desfolhada, temperadas com sal** e azeite**, no forno durante 20 minutos, ou até as pontinhas da abóbora estarem bem douradas.

* segundo o vendedor do mercado, daqui da terra

** também local, mas de Portugal! ;)

Risotto rosa

Estou a adorar explorar o dicionário dos sabores. Entusiasmei-me com o par queijo de cabra – beterraba e não descansei enquanto não fiz a receita que a autora sugere para o par.

Comecei por cortar uma beterraba em cubos pequeninos e pu-la a cozer. Num tacho, pus azeite e juntei o arroz. Deixei fritar levemente, até os bagos estarem bem envolvidos na gordura. Não quis juntar vinho, então olhei para a garrafa ao lado e fui ver o que diz o livro sobre o par beterraba e maçã. Combina bem, conforme a autora, então arrisquei um cálice de sumo de maçã em substituição do vinho. Fui mexendo enquanto e arroz bebia o sumo e depois comecei a juntar a água fervente onde a beterraba cozia. Repeti o processo até toda a água e beterraba estarem no arroz. Depois, em vez de juntar manteiga, juntei uma colher de chá de queijo creme de cabra. Envolvi bem no arroz de cor vibrante e distribui o arroz nos pratos, Espalhei por cima do arroz cubinhos de Camenbert de cabra e alguma salsa picada e devorei, gulosa, este prato cor de rosa ao som de Vinicius.

Comboio nocturno de Lisboa

Era uma noite cálida de Outubro. Estava na Gare do Oriente, em Lisboa, à espera do comboio e à espera da resposta à pergunta a queimar a garganta. “Será que este é o meu comboio?”, “claro”, respondi-me imediatamente, ”a decisão certa é aquela que se toma” relembrando um provérbio oriental. Deixei-me dominar pelo misto de excitação, felicidade  e nervoso miudinho que me invadiu. Nas duas malas,  a meu lado na Gare, tinha empacotado a minha saudade. Tudo o que não coube na bagagem, reduzi a pó. Às onze badaladas, despedi-me dos três amigos, que são família e amigos, amigos e família e parti.  Já no comboio, pensei que mais uma vez ia mudar a terra sob os meus pés. Olhando pela janela, disse a mim própria que mudava a terra, mas não mudava o céu, ao reconhecer uma ou outra constelação na noite escura. Cheguei a Madrid, onde tomei o pequeno almoço, continuei até Paris, almocei, e cheguei a Berlim para o jantar. Para o jantar, para uma vida, para várias vidas.

Vinte e tal anos depois, estava na hora de voltar a apanhar o comboio. Numa noite de Dezembro, quando um vendaval rodopiava nas janelas, pus um tacho ao lume com um litro de água, 5 cravos da Índia, 5 vagens de cardamomo, 1 pau de canela, um pedaço (1 cm) de gengibre  e 5 bagos de pimenta preta. Fervilharam no tacho durante 25 minutos.

“Amor”, chamei, “contas-me outra vez aquela tua história com o Guru no Nepal?”, “Outra vez?!?! … bom, está bem. Já lá vão 35 ou 40 anos, não sei. Cheguei à aldeia e dirigi-me a um grupo de pessoas. Estavam todos à espera que o Guru saísse da sua gruta, para ouvirem as suas palavras sábias. Fiquei também à espera. Finalmente saiu. O eremita, com dreadlocks que lhe chegavam ao rabo, estava totalmente besuntado com cinzas de excremento de vaca. É, parece estranho, não é? Mas para os Hindus, o fogo é sagrado e as vacas são sagradas. E excrementos de vaca queimados são super sagrados!” Tive que voltar a rir com a sua frase e pedi-lhe que continuasse. “Passou um cachimbo, que foi de mão em mão pelos elementos do grupo e começou a falar. Eu não percebi uma palavra, mas fiquei totalmente magnetizado, hipnotizado pelas suas palavras, pela sua expressão. Não sei quanto tempo passou, mas sei que ardia em sede, precisava de beber algo. Felizmente, passou pelo grupo também um chá, que eu bebi de uma assentada, sem perguntar antes que chá era. Pois bem, descobri da pior maneira que era um chá de chili super forte, que me deixou com as goelas a arder!”

E eu voltei ao meu chá. Desliguei o lume, juntei uma saqueta de chá preto e deixei em infusão durante 2 ou 3 minutos. Verti algum chá na minha chávena e fui buscar uma cervejinha gelada para o meu marido. Pedi-lhe que se sentasse no sofá vermelho, que precisava de lhe falar. “Temos que fazer as malas”, disse-lhe, “o tal comboio que um dia partiu de Lisboa, está quase a partir, agora de Berlim.”, “O que devo pôr na mala?”, perguntou, “O mesmo que puseste quando foste ver o Eremita. O comboio nocturno leva-nos até S. Petersburg, daí apanhamos o transiberiano para sul e depois, ainda não sei como, vamos às montanhas do Nepal, a templos no Tibete e seguimos para Varanasi. E depois… ” A gargalhada do meu marido interrompeu-me: “Ahahahah! Acho que o teu comboio nocturno para o transiberiano é um avião para Katmandu!” Eu ri-me com ele e dei um gole no meu chá Yogi, deixando  envolver-me no leve e agradável picante da pimenta e do gengibre. Já lá estávamos…

Assim participo no desafio chocolate e picante que a Suzana lançou – enquanto trinco um quadradinho de chocolate a 80%. Esta é uma estória verídica. Se algo ainda não aconteceu, é porque vai acontecer!

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