o corpo e a alma

Sera que as coisas teem alma? Um poeta disse que sim, que basta acorda-la. Mas outro poeta disse que se pode perder a alma, quer se seja coisa animada ou inanimada, basta ter um passo no corpo mais rapido que o da alma. Eu concordo com os dois poetas, mas digo tambem que a nossa alma nao esta so em nos, temos tambem um bocadinho da nossa alma nos que amamos, na nossa terra, na casa a que chamamos casa. E ha bocadinhos da nossa alma que vao acordando, outros adormecendo, despertados pelas sensacoes de que os nossos sentidos sao portadores, como o cheiro da terra molhada, o sabor da laranja acabada de apanhar, sentir o sol quente na pele… podia continuar a divagar ate chegar a ao arroz de marisco com muitos coentros, que sabe mesmo a casa. Que foi o que eu tentei fazer, versao arroz de bacalhau fresco, usando a tecnica milenar que o povo algarvio usa e que passou da minha avo para a minha mae e para mim. Cortei duas cebolas aos cubinhos, um dente de alho, uma folha de louro e fritei em azeite importado directamente do Algarve. Quando a cebola comecou a guinchar, juntei uma lata de tomate inteiro pelado, mexi, juntei um copo de vinho branco, mexi e tapei. Deixei o calor do fogo brando exercer a sua funcao durante 10 minutos. Voltei a mexer e juntei as postas de bacalhau fresco e flor de sal de olhao. 10 minutos depois, retirei e reservei o peixe. Juntei o arroz (usei risotto pois mantem-se firme por mais tempo) e fui acrescentando agua a ferver conforme o arroz a ia pedindo. Ate o arroz ja estar cozido. Entretanto ja tinha picado um molho de coentros e descascado mais um dente de alho. Primeiro foi o peixe que voltou para a panela, depois os coentros e acrescentei ainda um dente de alho picado e um gole do resto do tal azeite. Mexi tudo muito bem e os cheiros que emanaram da panela e a visao do verde-coentro e vermelho-tomate teletransportaram-me a casa por instantes. Com os pes 2 palmos acima do chao, a panela levou-me a mesa, brindamos, comemos e deliciamo-nos. Mas nao sabe ao mesmo, mesmo que seja o mesmo que se come na tasca do ze, ou em casa, mas em casa, na casa-terra, tem outro sabor. Falta algo, e os especialistas podem divagar sobre as diferencas de temperatura, pressao, sobre as diferencas entre fogoes que explicam o sabor diferente que a mesma receita pode ter qdo cozinhada em sitios diferentes, mas a mim nao me enganam. O que acontece e que nao se pode transportar a alma das coisas animadas ou inanimadas assim, sem mais nem menos.

Anúncios

2 thoughts on “o corpo e a alma

  1. Ich glaub ich weiss, was gefehlt hat. Oft liegt die Seele in der Bruehe. Du hast den Reis naemlich nicht mit Wasser gefuettert, sondern mit Bruehe und ich wette, dass die Bruehe Deiner Oma etwas ganz anderes ist, als unsere Fertig-Bruehe. No caldo está o alma das coisas animadas e inanimadas do Alarve. E a essencia, tenho a certaza.

  2. sim, talvez o segredo esteja no caldo… que liberta a agua em forma de vapor e deixa as essencias dos sabores a actuar no arroz. mas acho que ha algo mais. lembras-te dos stiffados que faziamos em creta? e lembras-te que o mesmo stiffado feito aqui em casa nao tem um certo “je ne sais quoi”…. bons stiffados comem-se na grecia, bom arroz de marisco, so no algarve. e boas rouladen com spaetzle, comem-se em casa 😉

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s