Os restos e o moral da estória

E há outros dias assim. Em que o apetite fugiu para um outro lugar. Não o meu, pois as minhas calças de ganga fazem-me lembrar activa e constantemente da sua presença. Refiro-me ao apetite da minha filhota, que normalmente come o peixe cozido com legumes com voracidade. Ou que se delicia primeiro com o queijo ou o fiambre, depois lambe a manteiga da fatia de pão e, finalmente, decide comer o pão. Desta vez o cenário foi diferente: ao lanche, pão e migalhas ficaram esquecidos no prato, o queijo levou uma dentadinha e foi rejeitado e o fiambre foi simplesmente ignorado; ao jantar, o prato foi tocado para dar uma trinca numa cenoura, que de imediato foi rejeitada, o peixe foi esquecido e a couve-flor ignorada.

E eu ignorei o cenário, indo para a cozinha mas levando comigo os pratos de comida rejeitados, esquecidos e ignorados. Tirei um caldo de peixe do frigorífico (quando fazemos peixe, ponho sempre as peles, espinhas e cabeca a cozer com algumas ervas aromáticas durante uma hora para sugar os aromas do animal marinho até ao tutano), juntei ao peixe e legumes ignorados um resto de risotto de grão esquecido de outros dias e levei ao lume. Peguei no pão desprezado e em algumas côdeas esquecidas na caixa do pão, cortei em cubinhos de 1 cm e levei ao forno a 175 graus. Fui à horta apanhar um raminho de salsa, desliguei o lume, apaguei o forno, piquei a salsa, dei um toque com a varinha mágica à sopa, pus no prato, dispus a salsa, um fio de azeite e o pão transformado em micro tostas  e todos nos deliciamos! A pequerrucha mostrou então que o seu apetite voltou, ou voltou a mostrar-me a dura realidade: muitas vezes não é só o conteúdo que interessa, mas a maneira como se apresenta. Eu resolvi ignorar esta lição de vida e preferi acreditar simplesmente que o todo é mais que a soma das partes.

5 thoughts on “Os restos e o moral da estória

  1. Gostei muito da solução que encontrou para aproveitar os restos do prato rejeitado pela Filhota. Que sopa magnífica que deve ter ficado! Não costumava aproveitar a água de cozer o peixe, mas acho que vou começar a fazê-lo: nunca é tarde para aprender! Bjs. Bombom

  2. Bombom, aconselho-a vivamente! E incrivel como os pratos ganham tanto em sabor usando um caldo de peixe ou carne caseiros. Para alem disso, estes caldos concentram grande parte do valor nutricional das carnes e peixes.
    bjs

  3. Olá Sofia
    Não conhecia o teu bloque e estou a gostar muito.
    Há dias assim, mas deste a volta ao assunto com mestria!
    Em relação à pergunta que fizeste lá no Sabores é nos Salgados sim e também na zona de Sagres, Martinhal.
    Uma boa semana!

    • Ola Helena,
      Obrigada pela visita e pelo teu comentario! 🙂
      Adoro a zona dos salgados! Sempre passei os meus veroes na zona dos salgados/gale. Quanto mais praias conheco, mas certa estou que estas sao “as melhores praias do mundo” (para mim, claro!). Quando pouso os pes nas suas areias quentes, a minha alma repousa e aquece.
      bjs
      Sofia

  4. Obrigada pela sua participação no Festival das Sopas.
    Devia ganhar um prémio pela originalidade 🙂
    Em breve serão publicadas todas as receitas participantes.
    Bom fim de semana.

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