Um prato de cogumelos e os telhados da Prússia

Há dias assim: acordei a meio do meu sono de beleza, graças à minha princesa da Prússia, que me arrastou para um pequeno almoço antes do seu tempo. Tentei jogar  o jogo do silêncio, mas ela não gostou lá muito da regra essencial: quem falar, perde. E eu, ao pequeno almoço, preciso do meu silêncio. Para mim, o pequeno almoço é o prolongamento do sono. O cérebro continua a dormir e eu arrasto o corpo para a minha chávena de café. Gosto de tomá-la sem conversa, sem decisões, sem pressa. Não foi o caso.

E o almoço não correu melhor: fiz uma omelete de cebola e azeitonas, boa, mas a confecção foi um desastre, com direito a ovos no chão e cozinha de pernas para o ar. Decidi fazer a sesta. Boa decisão. No café, depois,  pedi um paraíso na terra (hei-de pôr aqui a receita). Má decisão… Sentada na esplanada aproveitando o sol, pensei que agora, só mesmo ao pôr do sol me poderia reconciliar com a noite, já que o dia…

Pensei no que me apeteceria comer para dar a volta a este dia. Pensei. Veio-me à memória os bolinhos de batata num prato de cogumelos que a Suzana trouxe a uma festa do reino da Prússia.

E foi mesmo isso. Olhei os céus mutantes lá fora, rasgados por telhados, chaminés e antenas, e propus-me a seguir a receita. Abri o frigorífico e reparei num resto de chucrute com puré de batata. Era mesmo assim que iria fazer os bolinhos da Suzana.

Deixei fervilhar o puré com o chucrute, juntando um alho como diz a receita. Entretanto, cortei os cogumelos  e uma cebola. Voltei ao puré: verifiquei a consistência e juntei alguma farinha para poder formar bolinhos. Aqueci azeite numa frigideira anti aderente e fui colocando os bolinhos, até alourarem. Quando ficaram prontos, fritei a cebola na mesma frigideira e, já transparente, juntei os cogumelos. Temperei com sal e oregãos. Servi com uma salada do meu Chef.

E assim me conciliaria com os céus mutantes, rasgados, não fosse a minha filha estar constantemente a perguntar-me: “óh mãe, onde está a Cinderella? Posso ver a Cinderella??” Foi assim que decidi, à última, que haveria de trazê-la para jantar. Com sorte, a Gata Borralheira oferecer-se-ia para lavar a loiça… Mas, infelizmente, não. Fez as alegrias da minha filha e abalou no seu coche para um palácio qualquer num mundo das nuvens. E assim acabou direito um dia do avesso…

Chucrute sem salsicha

Eu confesso: o título que eu queria dar a este post era “restos de couve fermentada”, mas depois pensei que poderia causar náuseas ao leitor mais sensível e eu não quero que os meus queridos leitores padeçam de qualquer maleita por visitarem o Reino da Prússia. Depois pensei num título como “bulgur em arte de risotto, com calda de chucrute e aroma de zimbro”. Mas… não este título não faz a minha praia. Depois, inspirada no blogue da Fer, dei então o título a este prato que reciclou o caldo de uma refeição de chucrute, não com salsicha, mas com algo como costeletas de porco fumadas. Esta receita é do meu marido e eu confesso que ele teve que fazê-la várias vezes até eu saltar a barreira psicológica de comer couve fermentada. Bom, na verdade, teve que dizer-me que esta couve fermentada, sauerkraut, em português, é chucrute. A provar que os rótulos importam nos complexos esquemas de selecção do cérebro humano.

O meu marido cozinhou o chucrute como a receita dita (bom, quase!) e o seu caldo tão aromático iria para o lixo se eu não tivesse ouvido um apelo, um chamamento ou uma voz do além a dizer “risooootto… riiiiiiiisotto!”. Bom, mas o risotto não estava no meu armário. Então tirei o pacote de bulgur e cozinhei-o como risotto. Fritei uma cebola e um dente de alho em azeite e, ao saltitarem, juntei uma medida de bulgur, mexi e juntei uma colher de concha do caldo de chucrute a ferver. Juntei meia dúzia de bagas de zimbro e deixei que o bulgur absorvesse o caldo. Repeti o processo até que o bulgur absorvesse as duas medidas de caldo e, com a última dose, juntei um frasco de espargos em conserva. Mexi, desliguei o bico do fogão, juntei um queijo feta desfeito, pimenta e um pouco de tomilho e salsa.

Provámos o prato, provando que a reciclagem de alimentos produz pratos de grande qualidade – basta olhar para pratos tradicionais portugueses como as migas e açordas, os rissóis e pastéis de bacalhau, a roupa velha, que são deliciosos e resultam da reciclagem de outros pratos ou ingredientes.

Com este prato, participo no desafio do Delícias e Talentos, desafio de culinária reciclada. Considero este desafio de grande valor, porque a reciclagem de alimentos diminui o consumo desnecessário de alimentos, poupando a natureza e a carteira. Como omnívora, tenho um grande respeito pelos alimentos, diria mesmo um respeito “divino”. E já que para sobrevivermos temos que nos alimentar de outras vidas, que o façamos com respeito e utilizemos os ingredientes até ao seu tutano. Quando deitamos comida ao lixo, na perspectiva ambiental e económica, estamos a estimular a economia alimentar de grande escala, que é extremamente poluente em várias vertentes:  no uso desenfreado da terra com produções intensivas de monocultura, no abuso de pesticidas, no tratamento e embalamento desnecessários… e estamos a gastar mais dinheiro; na perspectiva humana, acho que deitar comida fora é uma falta de respeito por aqueles que não a têm. Eu sei que as sobras do meu jantar não vão matar a fome de quem a realmente tem, mas com a atitude “reciclagem” em mente, o saldo “comida” torna-se mais positivo e, quem sabe se a comida que nós não comprámos numa grande cadeia de supermercados, não irá parar às mãos de alguém com fome? (se bem que há comida suficiente no mundo para não haver fome, simplesmente está mal distribuída). E a “grande cadeia de supermercado” leva-me a outro ponto de extrema importância – felizmente, hoje, damos mais valor ao comércio tradicional e aos produtos regionais e sazonais, de preferência da horta. Espero que a ideia de hortas e quintas comunitárias cresça entre os habitantes das cidades ao ponto de fazer impacto na nossa vida do dia a dia.

Por isso, caro leitor, se quiser aumentar a sua qualidade de vida, opte por reciclar as sobras dos seus alimentos, opte pelo comércio tradicional bem como pelos produtos regionais e sazonais e, caso não tenha acesso a produtos hortícolas directamente do produtor, informe-se sobre as hortas comunitárias. Apanha três coelhos com uma cajadada: gasta menos, polui menos e aumenta o contacto com a natureza e com a sua vizinhança.

nota: visite a tag reciclagem e migas e açordas para ver outras refeições que fiz a partir de anteriores.