O capuchinho

Vivia só na zona antiga da capital, perto de um jardim. Depois de uma adolescência atribulada e uma juventude cheia de interrogações, tinha agora encontrado uma rotina diária que lhe permitia conviver com todos aqueles seus medos interiores que teimaram em ficar hóspedes vitalícios da sua mente. Acordava de manhãzinha. Sempre gostou do ar fresco da manhã. Descia até à padaria por baixo do prédio, comprava duas carcaças e bebia uma bica. “O costume, Miguel?”, perguntavam-lhe por detrás do balcão. Esta habituação, rotina trazia-lhe uma certa segurança. Qualquer mudança lhe fazia confusão. Subia para o seu apartamento, cortava as carcaças estaladiças em duas, barrava-as com manteiga e recheava-as com queijo e fiambre fatiado. O cheiro a pão fresco dava-lhe alento para o novo dia. Acompanhava-as com um copo de leite frio. Depois, ia à varanda e fumava o primeiro cigarro do dia, olhando o céu, esperando ser invisível de encontro à parede outrora branca. Dirigia-se à sala e ligava o computador. Conectava-se à internet ainda com o modem analógico. Aquele “tiriri ..triiiiiiii … rrrr” era como um bom dia. Ligava-se a vários chats. Aqui sentia-se bem. Não precisava de cruzar o olhar com ninguém, não precisa de temer que lhe lessem os receios no seu passo inseguro. Em cada chat, poderia libertar cada um dos fantasmas da sua mente. Mas os que lhe davam mais prazer eram os chats de culinária. Eram simples, sem complicações. Ingredientes e um método indicado passo a passo. Isso gostaria na sua vida: ingredientes e métodos para se sentir como outra pessoa qualquer, daquelas com uma vida normal e monótona.

Naquele dia, vestiu a sua sweatshirt vermelha de capuz e pôs a sua mochila para ir buscar o almoço ao pronto a comer da esquina. “O que levas na tua cestinha, capuchinho??”. Era isto que ele temia todos os dias, aqueles comentários dos adolescentes ali no parque a fumar ganzas. “Um rastio de esperança. Mas falta-me a receita de como usá-la”, foi o que disse, mas não lhe saíu a voz. Continuou, de olhos baixos, a remoer a raiva. Há 10, 15 anos atrás, sentara-se ele ali, esquivara-se ele às aulas para se sentar naqueles bancos a queimar tempo e vida. Apetecia-lhe dirigir-se àqueles putos, pôr os seus olhos enraivecidos nos olhos deles vidrados, e mandá-los para a escola, com duas palmadas no rabo. Mostrar-lhes o lobo mau escondido atrás daqueles bancos, que eles não conseguiam ver. Mas manteve o seu caminho, enterrando a sua cabeça no capuz.  Continuou, de olhos na calçada, até ao pronto a comer. Ao entrar, esbarrou com a filha da dona, rapariga morena e de cintura fina, que vivia no prédio ao lado. Vinha com o seu casaco vermelho e uma cesta de onde emanava um aroma divino. O seu olhar cruzou-se com o dela, e ali ficaram presos por um olhar sem tempo, nem espaço. Miguel sentiu algo novo, sentiu paz, segurança, por detrás daqueles olhos cor de azeitona, sentiu-se preso, sem conseguir desviar o olhar. Sem saber como nem porquê, desobedeceu-lhe a sua voz, que perguntou: “O que levas na tua cesta, capuchinho??”, “levo pataniscas, para a minha avó, que está doente”, disse ela, hipnotizada pelo seu olhar, sem conseguir articular qualquer pensamento. “Posso provar?”, Miguel não se reconhecia. Para onde fora todo o controlo que levou anos a adquirir, que lhe permitira viver a sua rotina sem sobressaltos? Que sobressalto era aquele no seu peito??, “Sim”, disse ela sem se reconhecer e, sem desviar o olhar, pediu, “Mãe, guardas uma mesa e arroz de coentros para dois, para acompanhar estas pataniscas, por favor?”.  Ao sentarem-se, ele disse-lhe: “Tenho uma boa receita de arroz de coentros”. E, a medo, acrescentou: “Mas nunca a experimentei”. Ela largou uma espontânea gargalhada que o contagiou e o fez relembrar o prazer de rir, esquecido há tanto.

Com esta estória fictícia inspirada em outra estória fictícia, participo no quarto aniversário da Bélinha gulosa. Parabéns! 

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7 thoughts on “O capuchinho

  1. Um Capuchinho dos nossos dias e ainda há quem ache que a história é recheada de conotação sexual. Ora bolas, é amor à primeira vista, de um capuchinho pelo outro, com pataniscas à mistura. Eu sou das que acha que as pataniscas é que têm algo de sexual nelas, são irresistíveis 😉

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