Pesadelos na almofada, sonhos no fogão

Estas últimas semanas têm sido de férias. Apesar da Páscoa ter brindado a Prússia com um Sol de Verão, o que mais me apraz fazer nestes dias, é dormir. Mas os meus sonos têm sido arrebatados por pesadelos. Sonho que não acabei o curso que acabei há mais de 10 anos, que a tese de Mestrado afinal não existe e que a de Doutoramento está cheia de erros. E no meu pesadelo ando no labirinto da pesada maquinaria burocrática que definiu estas verdades como absolutas a tentar provar que a verdade é outra. Acordo, deixo os pesadelos na almofada e dirijo-me ao fogão. A Primavera brindou hoje a minha alma com cravos vermelhos de esperança e o meu palato com verdes espargos. Os cravos são pura ilusão, desejo, símbolo distante de um sonho que os nossos pais sonharam acordados, pelo qual lutaram até destruir os muros da ditadura. Sinceramente, não consigo imaginar como seria viver sob a ameaça constante de uma polícia de intervenção, sob o pesado manto de silêncio que cobria palavras tão inocentes como encarnado. Sempre me senti privilegiada por ter nascido em liberdade. Hoje, podemos estar sentados no café e falar mal do regime, nomear os culpados e apontar soluções. Podemos falar mal do chefe nas suas costas e culpar os srs. capitalistas pela exploração laborial que sofremos. E parece que isso nos basta, funciona como um alívio momentâneo que nos permite continuar a receber as chicotadas nas costas e calar. Porque ao fim do mês, as prestações da casa, dos dois carros, do plasma e das férias no Brasil não permitem sequer pensar nos cenários com que o chefe acena. Há sempre o fantama de que  o contrato não será prolongado, ou que há aí outro “trabalhador independente”  com um “preço mais baixo por hora”. Tens que trabalhar mais, Zé, mais horas extraordinárias não pagas, pensa no futuro dos teus filhos, pá. Nos teus filhos que não vês crescer, que te dão um beijo corrido com bigodes do leite do pequeno almoço e a quem tu dás um beijo de boa noite quando chegas a casa esgotado do dia e do trânsito e eles já dormem profundamente. Sem saberes como foi seu dia, que pesadelos, que sonhos viveram. Enquanto vidras os olhos no plasma com sound surround, pensas que se calhar afinal a TV antiga servia o mesmo objectivo. Se calhar não precisavas de dois carros de tão alta cilindrada, talvez um em segunda mão sem turbo te levasse aos mesmos sítios. Se calhar a casa no “resort de luxo” nos arrebaldes mas com porteiro, com vidros duplos e aquecimento central mas com janelas mal vedadas, afinal não é melhor que um apartamento mais pequeno no centro perto de transportes públicos. Públicos, ainda não privados. E que afinal do Brasil não viste nada, apenas uma piscina rodeada de apartamentos e uma fita no braço a indicar flat rate na comida e bebida industrial. Ah, espera, foste a uma excursão, incluída no pacote. P’ra ver o quê? O cristo Rei, ou assim. Ah,  mas esse não é já ali na margem Sul? Ah, ok, o do Rio é outro,  cristo redentor ou assim. E o teu coração aperta quando pensas na velhice. Pagas a segurança social mas sabes que não vais ter reforma digna. Em desespero, desejas que os teus filhos arranjem bons empregos para te poderem sustentar no outono da tua vida. Ainda de olhos vidrados de cansaço, baços da falta de esperança, pensas que afinal podias era ter ido de férias para o Algarve. Mas o outro Zé foi pró México e o outro Zé foi prá Tailândia e eles não são mais que tu Zé. E todas estas tretas são as prestações que pago com a minha liberdade, pensas e desligas o plasma. Sem as todas as dívidas que comem três quartos do teu ordenado, o chefe podia vir com os fantasmas que quisesse. Dizias-lhe simplesmente, então despede-me pá. Sem medos. Porque dou mais valor a tempo de qualidade com a minha família ao fim do dia. E não me importo de ir para um T1 alugado, pôr os três miúdos num só quarto, o piriquito na marquise e dormir na sala. E levo com orgulho os miúdos para a escola pública a pé. É que o turbo do carro só me serve pra queimar euros. E eu até sei fazer outras coisas na vida. Estar sentado a uma secretária a ver como posso enganar o próximo cliente nunca me satisfez profissionalmente, de todos os modos. E com as (dí)vidas dos outros Zés tou eu bem. Eles vão pró México e eu vou acampar prá Caparica e asso frangos ou sardinhas pró jantar, no grelhador a carvão, enquanto conto estórias de fantasmas aos miúdos em noites de lua cheia. E assim pões o teu chefe a gaguejar.  Porque os sonhos de Abril continuam a existir só nas almofadas. A maioria das famílias portuguesas vive um pesadelo para se manter à tona, num ciclo vicioso e  o cenário negro com que o futuro nos brinda substituíu todo o verde de esperança que poderia habitar os seus corações. Este ciclo não é ciclo, mas espiral, que a meu ver nos leva cada vez mais para o fundo. Não costumo ser pessimista, não pecebo de economia nem de política, mas acho que este dedo negro vai tocar em todos os países da Europa, mais cedo ou mais tarde. É preciso quebrar o ciclo, o que não é fácil. O ping-pong laranja-rosa só muda a luz do holofote dirigido ao cenário negro mas a verdade é que pessoalmente não vejo alternativa convicente no espectro de cores políticas.

Confesso que o verde da minha esperança refletiu-se apenas em espargos. Trouxe meio quilo do vegetal para casa com desejos de risotto. Cortei os caules mais fibrosos da base dos espargos e pu-los a ferver em água com sal. Frigi uma cebola levemente em azeite e juntei 250 mL de arroz. Mexi bem, incorporando a gordura e a cebola no arroz. Juntei uns goles de cerveja porque não tinha vinho branco e fui mexendo. Comecei a juntar o caldo onde ferviam os caules dos espargos e fui mexendo, até o arroz absorver a água. Repeti várias vezes este processo até o arroz estar al dente. Nesta altura, juntei metade dos espargos cortados em troços de 3 ou 4 cm e continuei a mexer com a colher de pau. Quando o arroz ficou cozido, juntei queijo parmesão e queijo de cabra e foi para a mesa. Cozi os restantes espargos (inteiros) em água e sal durante 5 minutos e foram acompanhar o risotto, regados com azeite e vinagre. Com o caldo que sobrou do risotto, fiz uma sopa. Triturei os caules, coei para eliminar as partes fibrosas, juntei pimenta, 2 colheres de farinha e dois nós de manteiga e deixei apurar. No dia seguinte, fiz ovos mexidos com os espargos que sobraram. Com um gole de azeite e meia cebola picada na frigideira, juntei os restos dos espargos, mexi e juntei os ovos. Não parei de mexer enquanto os ovos não ficaram no (meu) ponto certo. Meio quilo e três refeições verdes. Todas tão satisfatórias.

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18 thoughts on “Pesadelos na almofada, sonhos no fogão

  1. Eu também quis que os espargos me trouxessem o verde da esperança ao palato. Quis um risotto como tu….mas já não me sobraram espargos para mais nada! Um beijinho 🙂

    • Filipa,
      Espargos, para mim, sao para comer o mais natural possivel, e normalmente so os cozo em agua e sal e tempero com azeite e vinagre.
      Mas o risotto de espargos que fizeste ha uns tempos tem tambem um belissimo aspecto! nunca me lembraria de triturar os espargos e juntar ao arroz.
      bjs
      Sofia

  2. Uma texto muito realista Sofia.É em crises como esta que a cozinha revela criatividade e optimização,lá diz o povo ” a necessidade aguça o engenho”. Lembro-me sempre da história do povo cubano e dos embargos.
    Valham-nos os espargos e a sua cor.
    Um beijo

  3. Valham-nos os sonhos e o verde esperança dos espargos, que o país que temos está cada vez mais triste e cinzento. O vermelho dos cravos de abril está a ficar esbatido e o povo não se dá conta porque cada vez mais cada um olha apenas para o seu umbigo.
    Um grande beijo e parabéns por este texto extraordinário.

    • Moira,
      Acho que o dia em que o povo vai acordar e dizer basta esta cada vez mais perto. Mas para isso e preciso de deixar so para o umbigo….
      Beijinhos
      Sofia

  4. Ora aqui está um texto bem actual… Pois realmente é como a Helena diz, valha nos a cozinha para inventamos ou reinventarmos sonhos de sabor e cor.
    O teu risotto devia estar muito bom. Tento de provar para uma próxima a junção dos espargos.
    beijinhos

    • Margarida,
      A cozinha para mim sempre foi um lugar onde dou asas a criatividade e onde posso relaxar do dia de trabalho. Mas confesso que a maior parte das experiencias saem falhadas! 😉
      beijinhos
      Sofia

  5. Sofia, como te compreendo,
    cada vez vejo o país mais cinzento e triste, valha-nos as comidinhas coloridas para nos fazer esquecer nos momentos de degustação, esta terrivel crise em que os mais consumistas nos meteram
    Um beijinho e bons sonhos

    • Gisela
      O consumismo e mesmo um problema. Ha quem diga que ir as compras e terapeutico, e se calhar com alguma razao. E verdade que comprar algo de que se gosta, tras satisfacao. Mas infelizmente e uma satisfacao passageira que se esvai rapidamente. Bem, se o consumo passar por comer um belo petisco, a satisfacao ja nao e assim tao passageira! 😉
      Beijinhos
      Sofia

  6. Um texto verdadeiro. Sem grandes temperos, apenas a mais pura das verdades. O meu país visto por alguém que até está um pouco mais “fora” e de certeza nos vê de maneira diferente. Que tristes verdades…
    Haja pelo menos alguns espargos para continuar a tingir de verde a esperança!
    Babette
    PS. Tenho sonhos/pesadelos recorrentes em que me ligam da secretaria da faculdade a dizer q não acabei o curso; que o mestrado tinha um erro…. até ja sonhei que me ligavam do conservatorio a dizer que nao tinha acabado o curso de piano. Medo de falhar?…

    • Babette,
      A razao pela qual estes sonhos de vez em quando aparecem, nao sei. Talvez sejam mais recorrentes em alturas de auto avaliacao ou de mudanca… enfim, e faltaria Freud para explicar de ainda outro ponto de vista! Mas a verdade e que nao me surpreendi por saber q tambem tens estes sonhos. Quando acabei o curso, a minha tia disse-me que haveriam de passar 20 anos e ainda sonhar que tenho cadeiras a fazer!
      Beijinhos
      Sofia

  7. Hoje sonhei que comia rissóis de carne sentada numa mantinha em cima de areia. É assim o meu presente… vivo de petiscos/esmolas (nem gosto de rissóis de carne) e a areia escorre pelas minhas mãos… o futuro, para mim, existe nos sonhos e pelos vistos é a comer rissóis 🙂 É que nem nos sonhos consigo ter uma vida mais desafogada he he

    • Ameixinha
      isso parece-me um belissimo sonho. especialmente se a manta tiver vista para o mar e a companhia de um belo moço, eheehhe! 🙂
      Eu adoro petiscos, adoro rissois e acho q o presente e isso mesmo, areia que escorre pelos dedos…. e concordo contigo: o futuro passa pelos sonhos. Ja nao sei quem dizia para sonhar com a cabeca nas nuvens e os pes na terra. E ja que falamos de sonhos na presença de uma psicologa, ilumina-nos Ameixinha e explica por que razao estes sonhos de nao ter acabado o curso aparecem! 🙂
      Beijinhos
      Sofia

      • Infelizmente não sou Freudiana, para mim os sonhos são apenas manifestação do nosso inconsciente povoado de desejos e preocupações. Em 5 anos de curso nunca falamos de interpretação de sonhos… isso é especulação que deixo para Mayas e afins. Havia areia mas era no meio do nada… comer foi só mesmo os rissóis, porque gajos bons… nem vê-los he he

  8. Parabéns por esta magnífica análise do estado do nosso País!
    É por todas essas razões que eu me conformo por ter o filho, nora e netinhos, emigrados, dado que aqui não há lugar para a Investigação Científica. Enquanto por cá só houver preocupações consumistas baseadas no Ter ou no Aparentar e forem esses os Valores que se transmitem pela (má ) Educação, parece que não há nada a fazer… Como dizia uma grande artista de Teatro já falecida, a Ivone Silva (já não deve ser do teu tempo) “Isto já não vai lá com palmas, só vai à palmada!”
    Para passarem os amargos de boca, valha-lha-nos o teu Risotto de Espargos! Bjs. Bombom

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