Estremoz, 25 de Abril de 1974

Estremoz, 25 de Abril de 1974

Querida Mãe, querido Pai,

Espero que esta carta vos encontre de boa saúde. Nós estamos bem. Já nos instalámos em Estremoz há cerca de uma semana e a mudança correu bem. Mas como posso eu referir-me a esta viagem como uma mudança, quando mudança é o que vive agora o nosso País! Hoje de manhã, a Tia Emilia saíu de casa para ir à Vila comprar a prenda de anos do Tio Manel, que faz hoje anos, e nem sequer chegou às Portas da Cidade. Lá estavam os militares, com cravos vermelhos nas espingardas. Voltou para casa e disse-nos que houve um golpe de estado. Na rádio, as notícias intercalavam com a “Grandola Vila Morena” do Zeca Afonso. Parece que o sinal foi a música com que Paulo de Carvalho vai à Eurovisão, “E depois do adeus”. Pus-me a pensar de mim para mim, o que será depois do adeus a 40 anos de regime.  Como será, quando o povo amordaçado soltar a sua voz, quando a caneta azul deixar de esquartejar o corpo definhado e sedento de verdade de cada jornalista, de cada artista, de cada estudante, de cada professor, de cada pai e de cada mãe? Na Faculdade, o burburinho sobre o fim do regime era ensurdecedor, e nem mesmo a PIDE e seus cães conseguiam distinguir as vozes de revolta contra a opressão do regime, que chegam dos quatro cantos do País. Como dormirão os pais do nosso colega, silencioso, inocente, de comportamente exemplar, que foi esquartejado pelas presas afiadas dos cães do regime até à sua morte, só porque tinha o mesmo nome que um outro colega anti-regime? E os pais daquele rapaz do Técnico que levou um tiro mortal porque respondeu à chamada de um polícia frontalmente, olhando-o olhos nos olhos? Como pode a vida e morte do povo português ser uma marioneta nas mãos do estado? Acho que a partir de hoje, tudo será diferente. Acho que já não terei receio de sair a rua e ser abordada pela PIDE, apesar de não terem qualquer razão para isso. Mas o futuro é para nós a grande interrogação. Quem virá para o poder? Passaremos de um regime para o seu oposto? Estalará mais uma guerra? Teremos empregos e estabilidade para educar os nossos filhos? Hoje o povo grita pela liberdade essencial. Será que amanhã gritaremos por pão?

Mudando de assunto, gostamos da nossa casa em Estremoz, que é bastante grande. Espero que nos possam vir cá visitar um dia! Fica na Rua do Caldeiro. Agora estão cá a Tia Emilia e o Tio Manel. A Tia Emilia faz umas belíssimas tigeladas. A receita é assim:

6 ovos
250g de açúcar
6 colheres de sopa de farinha
0,5 l de leite
Tapar o fundo de 2 tigelas de barro não vidrado com azeite e aquecê-las no bico do fogão  em lume brando  para dar tempo de preparar a tigelada. Ligar o forno a 175 graus.
Enquanto aquece o  forno e o azeite,  bater bem os ovos com o açúcar e depois deitar a farinha e só depois se deita o leite, aos poucos mexendo sempre para não fazer grumos.
Deita-se este preparado  sobre o azeite que já deve estar a ferver ( é divertido vê-lo fazer bolhinhas na massa) e vai ao forno que também já está quente durante 30 minutos. Ficam maravilhosas, não me canso de as comer.

Com este doce me despeço, até ao Verão, se não nos virmos antes. Encontrar-nos-emos de todos os modos antes do bebé nascer, que será talvez em Novembro ou Dezembro. Se for menina, há-de ser Sofia. Se for menino, ainda não sabemos.

Um beijinho cheio de saudades

Maria

Com esta carta fictícia baseada em factos verídicos, participo no concurso dinamizado pela laranjinha.

Tapa-se o fundo de 2 tigelas de barro não vidrado com azeite coloca-se a aquecer em cima do fogão  no lume brando  para dar tempo de preparar a tigelada e acende-se o forno
enquanto aquece o  forno e o azeite  batem-se bem os ovos com o açucar depois deita-se a farinha e só depois se deIta o leite aos poucos mexendo sempre para não fazer grumos
Deita-se este preparado  sobre o azeite q já deve estar a ferver ( é divertido ve-lo fazer bolhinhas na massa) e vai ao fornno q tb já está quente durante 30m
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14 thoughts on “Estremoz, 25 de Abril de 1974

  1. Também gostei muito da carta que me recordou momentos vividos com as mesmas interrogações mas com uma grande esperança em dias melhores e mais justos. Hoje, se olharmos para trás, vemos que os homens quando sobem ao poder esquecem tudo aquilo que proclamaram, escondem bem no fundo “da gaveta” e (des)fazem tudo como os anteriores. Quarenta anos depois estamos à beira da bancarrota, despojados do ouro que os outros guardaram e vendidos por meia leca a um qualquer FMI ou outro que tal. E os nossos filhos e netos continuam sem futuro neste país lindo, à beira-mar plantado. Pois que venha lá uma Tigelada dessas para nos adoçar a boca e fazer-nos esquecer estas amarguras! Na minha aldeia, na beira Baixa as Tigeladas também não podem faltar na mesa dos dias de festa. São ligeiramente diferentes porque não levam azeite, mas são muito gostosas também. E os tachos de barro onde são feitas aquecem ao mesmo tempo que o forno. Tenho de experimentar estas de Estremoz, para apreciar as diferenças! Bom fim de semana. Bjs. Bombom

  2. Sofia é deliciosa esta carta, chega cheia de “todo”. Sempre que leio um post teu, pergunto-me “Como é possível uma “escrita” nos dar tanta vontade de ir para a cozinha repetir a receita?”

    Esta Tigela deve ser deliciosa =)
    Beijinhos

  3. Olá Sofia,
    foi tão bom ler a tua carta!
    Fez-me pensar que quase 37 anos depois, embora com outro regime, as preocupações dos nossos pais, são as nossas: que se espera do nosso futuro, que será dos nossos filhos?…

    E só mais uma coisa: ADOROOOOOO tigeladas. Só conheci o doce quando comecei a namorar com o meu marido. A minha sogra é beirã, de Vila de Rei, e na beira, como a Bombom também disse, a tigelada é um doce típico.
    Nunca me aventurei a fazer, mas gosto muito de come-las! 😉

    Beijinhos enormes!

  4. “Querida Maria,

    Nós por cá todos bem. As tuas memórias e sonhos são muito parecidos com aqueles que foram um dia os dos meus pais. Talvez por isso, o meu encontro com a tua Sofia tenha sido tão feliz… Um cruzamento de vidas, gostos… e de esperança de que, no futuro, os ideiais de Abril finalmente se concretizem.

    beijos,

    Isabel”

  5. Querida Sofia,
    gostei muito de ler a tua carta, de cada palavra, de cada momento. A tua escrita é envolvente.

    Muito obrigada pela tua participação.
    Um beijinho grande.

  6. Sofia, adorei ler a tua história, uma história de factos veridicos contada como só tu o sabes fazer.
    E com tigeladas que eu tanto gosto!!!
    Um beijinho

  7. Sofia
    Gosto muito de tigeladas por isso vou guardar a tua receita.
    A tua estória é a de um povo, lembro-me muito bem dessa quinta feira, quando cheguei à escola estava cheia de militares a quem compramos sandes com o dinheiro dos nossos almoços. Estavam lá desde a noite passada sem dormir e no dia seguinte lá continuavam. Tivemos 3 dias de férias(ao sábado também havia aulas), apesar dos meus 12 anos tive consciência do que se passou.
    Beijinho

    ps-ía jurar que já tinha deixado aqui um comentário….

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