Os meus vizinhos

Há um vizinho de um andar em cima, cinzento, que arrasta as peúgas, enfiadas em chinelos de piscina, para o meio da neve, com um cigarro eterno no canto da boca caída, escondida por um bigode grisalho e rabuja sílabas indecifráveis se alguém lhe diz “bom dia”.

Há uma vizinha jovem  e sorridente, de cabelos escuros muito encaracolados, que estaciona a bicicleta à porta e às vezes me bate à porta e, simpática, me pergunta se eu recebi a sua encomenda da amazon.

Há uma outra vizinha que carrega o seu filho e carrinho para o primeiro andar de sobrolho carregado e parece não conhecer o sorriso.

Há um outro vizinho, velhote, sempre sorridente, que nos surpreendeu com um ramo de flores quando a minha filha nasceu e nos oferece chocolates no natal. E que conta, de brilhozinho nos olhos, as estórias da sua netinha.

E há os meus vizinhos do lado,  turcos. Não sei quantos são. Quando toco à campainha deles, há sempre uma criança que abre a porta. E começam a aparecer por trás, mais e mais e mais. Até que a aparece a mãe de todos eles, uma turca magrinha, na zona dos trinta, de lenço na cabeça e sorriso amarelo do tabaco. Mas no outro dia foi ela que me tocou à porta. Vinha com um prato de comida quentinha, deliciosa. De uma vez, trouxe umas mini-pizas, deliciosas. Outra vez, ao chegar do trabalho, passei pela sua porta e comentei com a minha filha – em português – como cheirava bem a comida da vizinha. E nesse dia  tocou ela à minha porta, à hora de jantar, tendo na sua mão um prato de arroz de carne e amêndoas que me fez levitar. E eu andei a pensar, durante uma semana, com que especialidade portuguesa haveria de retribuir tal simpatia. Pensei em fazer rissóis, faria a massa num dia, o recheio no outro e fritaria ainda em outro dia. Mas passei os três dias a pensar e não agi. Pensei numa tigelada. No bolo de laranja. Até pensei em pastéis de natal. Pastéis de nata…

Até que um dia, naqueles dia em que se quer algo rápido para o jantar, decidi que faria umas pataniscas num instante. E logo decidi dobrar os ingredientes. E segui o segredo da Laranjinha: massa bem recheada! Juntei 200 gr. de farinha a 200 mL de caldo de peixe, e 2 ovos. Juntei sal, pimenta, tirei com a pontinha da faca, uns pózinhos de fermento e mexi. Desfiz 200 gr. de bacalhau fresco cozido. Cortei um quarto de pimento às tirinhas, piquei um ramo de salsa, piquei dois dentes de alho e uma cebola. Ralei uma cenoura. Miguei uma batata cozida com um garfo. Durante todo este processo, a massa teve tempo de descansar uns 10 ou 15 minutos. Misturei tudo com a massa e verifiquei que esta era consistente e estava bem preenchida. Aqueci óleo e fui dispondo colheradas de massa no óleo bem quente. À medida que douravam de um lado, virava-as. Douradinhas dos dois lados, deixei-as em papel absorvente. Fui buscar o prato onde a minha vizinha me trouxe as pizzas, pus um guardanapo vermelho e alinhei as pataniscas, formando um quadrado. Em cada canto, dispus um quarto de limão. Fui com a minha filha até à sua porta, onde desfilavam mais de dez pares de sapatos, 2 bicicletas de criança, um carrinho de bebé e um ou outro brinquedo. A minha filha disse que queria ser ela a tocar à campaínha, e logo apareceu uma filha, atrás dois filhos, mais atrás a outra filha e finalmente apareceu a mãe. Não tive palavras para descrever a delícia dos seus cozinhados, disse que era delicioso, que aquele arroz era divino e perguntei-lhe se a carne seria pato. Ela pediu que a filha traduzisse e disse que era carneiro. Eu não lhe disse que me soube a pato, no máximo coelho, mas não poderia imaginar que fosse carneiro. Dei-lhe as pataniscas, disse que era algo típico português, com peixe, enquanto pensava que se calhar deveria ter feito algo mais elaborado, especial, já que ela cozinhava tão bem. Mas esta diva da cozinha turca na Prússia, no dia seguinte, bateu à minha porta e, com um sorriso, pediu-me a receita desta pérola da cozinha portuguesa. Agora, as pataniscas da Laranjinha, chegaram à Turquia!

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16 thoughts on “Os meus vizinhos

  1. Sofia,
    Como a Fer, fui lendo e apreciando esta tua escrita com o tempero certo, os pormenores, as emoções… Fui apresentada aos teus vizinhos e fiquei a sonhar com a cozinha da senhora turca e o olhar das suas crianças, os aromas dos seus cozinhados.

    As tuas palavras são tão boas como as pataniscas da Laranjinha e eu, que tenho o privilégio de provar das duas, sinto-me uma privilegiada!

    Beijo enorme*

  2. Adorei a tua história, muito linda.
    Quando existe alguma convivência com os vizinhos é muito saudável, ainda por cima trocam petiscos dos respectivos páises.

    Eu como Portuguesa vê lá que não gosto de pataniscas. 🙂

    bJS

  3. Este bonito texto levou-me à infância quando vivia em França, num prédio com alguns vizinhos caricatos. Lá moravam, marroquinos, franceses e nós portugueses. Também existia esta troca de iguarias e receitas: a minha mãe aprendeu a receita de crepes, gauffres, e mais algumas especialidades francesas e por sua vez, também os seus bolinhos de bacalhau e outras doçarias bem portuguesas passaram para o caderno de receitas franceses. Dos meus vizinhos de Marrocos, lembro-me de recebermos remessas generosas de uns biscoitos de amêndoa deliciosos, mas neste caso, a sua autora guardava a receita a sete chaves 😦
    E as pataniscas da Laranjinha, também já chegaram à minha casa, sendo A receita adoptada sempre que apetece iscas! São deliciosas! Aqui já vi que levaram fermento, que o bacalhau foi cozido previamente sendo a água adicionada a do caldo do bacalhau… Gostei!
    Beijinhos e obrigada por este delicioso momento.

  4. Sofia,
    Não há nada mais bonito que a partilha. A nossa felicidade tal como a dos teus vizinhos pode residir num prato de pataniscas. Adoro as pataniscas da Laranjinha e adoro os teus textos que nos conseguem transportar para o meio da acção como num filme realizado com mestria.
    Beijo muito grande

  5. Que delícia de história. Comovente pela generosidade. Pela retribuição. Pela cumplicidade de 2 mulheres de culturas tão diferentes. Como a comida une corações… Fez-me lembrar um pouco da Festa de babette o livro / filme que deu o mote ao nome do meu blog.
    Ainda estou a a sorrir…. E estou num comboio!
    Babette

  6. Sofia, que bonita que é a convivência feliz com os vizinhos, sejam eles de onde forem, e estejam onde estiverem. E melhor ainda quando é possivel a troca de tradições, neste caso culinárias.
    Como sempre adorei ler o teu texto,
    Um beijinho grande

  7. Para alimentar tanta boca é bom que cozinhe divinamente, deixa o marido satisfeitíssimo e depois… há festa na mouraria he he Tu aprimoraste ainda mais a receita da Laranjinha com outros ingredientes que devem ter deixado as pataniscas ainda mais fabulosas, se isso é possível 🙂

  8. Adorei o texto… e admito com sinceridade que senti alguma “inveja” e ciume da relação que tem com os seus vizinhos, em especial a família turca.
    As relações cultivam-se, quanto a isso não tenho qualquer dúvida, mas eu os meus vizinhos, só os conheço tanto qt é possível de nos cruzarmos nas escadas ou a recolher o correio, nada mais…

  9. E as saudades que eu tinha de ler os teus textos e as tuas receitas. E logo com uma história tão deliciosa quanto as pataniscas!!
    Essa ligação internacional e intercultural parece-me ser cultivada por ambas as partes e é tão bom sentirmos o carinho das pessoas que vivem perto de nós.
    Beijos*

  10. E ainda dizem que nas grandes cidades ninguém se conhece… De facto como já vi escrito, aqui na caixa de comentários, as relações cultivam-se, onde quer que seja. Como sempre as histórias da sofia são encantadoras. 🙂

  11. Acho que fiquei como todas as outras…a sorrir deliciada com a tua história e com a forma doce como a contaste! É muito bom partilhar e só quem sente o poder da partilha é capaz de o traduzir como tu fizeste! Um beijinho grande ( já tinha saudades!)

  12. Obrigada a todas pelos vossos lindos comentários! Esses, sim, deixam-me emocionada e de coração quente, quando lá fora estão -4ºC!
    Beijinhos a todas!
    Sofia

  13. Já tinha IMENSAS saudades das tuas estórias/receitas Sofia!
    Fico sempre de bem com a vida quando acabo de ler os teus textos.
    Obrigado
    Beijinho grande

  14. Olá Sofia! Que saudades!Desejo que tenhas tido umas boas e repousantes férias. E gostei muito destas tuas aventuras com os vizinhos! É uma sorte ter bons vizinhos e simpáticos. Imagino que para a tua vizinha turca, as Pataniscas da Laranjinha foram uma agradável surpresa. Essa receita já é famosa nos blogs de Portugal! Ah e também o Bolo de Curgette com Chocolate.
    Adorei passar por aqui! Bjs. Bombom

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