A nova lei de Lavoisier

Uma destas tardes, saí mais cedo do trabalho e passei-a com a minha filha. Dei-lhe miminhos, demos risotas e cambalhotas e dei-lhe uma laranja. E ela fez uma careta. Provei a laranja e compreendi porquê. Era azeda, seca. Pensei que haveria de polvilhá-la com açúcar e canela. Mas, ao agir, já não pensei e o que fiz foi uma compota. Num tachinho, pus a laranja com os gomos cortados em três, uma clementina também rejeitada pelas mesmas razões e 3 colheres de sopa de açúcar. Juntei água até tapar a fruta e deixei em lume brando durante 45 minutos. Voltei e provei: o travo azedo dominou o açúcar e pensei que lá ia a compota para o lixo. Mas antes de agir, pensei que haveria de tentar salvar a situação com outros temperos. E já que não havia nada a perder, lancei-me sem medos à prateleira das especiarias. Precisava de um sabor forte, que dominasse esta laranja indomável no travo. Moí uma mistura de pimenta preta, branca e rosa e desfiz meia malagueta. Mexi, provei e gostei do resultado, mas faltava ainda um toque final e, sem precisar pensar, a minha mão tomou a acção e deitou no tacho uma colher de café de cardamomo moído. Combinação perfeita. Barrei em bolachas de água e sal, no pão de alfarroba, misturei com queijo fresco. E deliciei-me em todas as combinações.

No dia seguinte, o cenário da laranja repetiu-se, mas desta vez polvilhei-a com açúcar canela. Sem resultado. Enquanto meditava no que fazer à laranja, a minha filha passou à acção e começou a pôr-lhe a água do seu copo às colheres. Então lembrei-me deste bolo de clementinas da Pipoka, que já passou pela minha cozinha, e resolvi adaptá-lo. Peguei em parte da casca  da laranja, rejeitei a sua parte branca e perguntei à minha filha se queria fazer um bolo. Pus a laranja e sua casca num copo largo e alto, juntei um ovo e fui buscar a minha varinha mágica. Triturei até a mistura ficar homogénea. Numa taça, a minha filha pôs 10 colheres de sopa de farinha, 6 de açúcar, 75 g de amêndoa moída e uma colher de chá de fermento para bolos. Juntei a mistura de ovo e laranja aos ingredientes secos e um gole de óleo. Misturámos bem, pus numa tigela de barro de cerca de 20 cm de diâmetro e pus no forno aquecido a 150 graus. Retirei quando o palito saiu seco, cerca de 40 minutos depois. Deixei arrefecer e provei. Ficou um bolo consistente, muito saboroso e com um interior quase húmido, que desapareceu num ápice.

Esta laranja azeda transformada em compota e em bolo deixou-me a pensar que afinal a Lei de Lavoisier, no campo da culinária, precisa de uma revisão. É verdade que tudo se transforma e nada se perde. Mas no processo de transformação criam-se umas belas obras culinárias!

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12 thoughts on “A nova lei de Lavoisier

  1. Antes de mais, parabéns pelo 1° Aniversário do Reino da Prússia!
    Tenho andado por outros reinos mas já voltei. só por isso é que não te tenho visitado. Que bom que tiveste tanta gente amiga nas Comemorações!
    Admirei a tua criatividade com as laranjas azedas! Nunca me teria lembrado de pôr pimenta na compota! Se Lavoisier cá viesse era capaz de promover um debate sobre o tema porque nas nossas cozinhas tudo se transforma, mas muito se cria! E que bela ajudante arranjaste, até parece mais crescida! Bjs. Bombom

    • Ola Bombom,
      que bom que esta de regresso a blogosfera! O reino da Prussia ja sentia a sua falta! 🙂
      Foi uma festa muito bonita, com participacoes lindas e gente amiga.
      E verdade, a minha ajudante, qualquer dia ja faz os bolos sozinha! Esta uma verdadeira mestra! 🙂
      Beijinhos
      Sofia

  2. Que belo aproveitamento! Acho que para a próxima sigo a sugestäo, aqui as laranjas näo säo muito apreciadas entäo ficam sempre abandonadas na fruteira.

    Bjs
    Rute

  3. B. Cerise, os momentos que passo na cozinha com a minha filha, sao magicos! 🙂
    Rute, tens razao, as laranjas que temos na fruteira, so servem mesmo para cozinhar, pq sao tao azedas!…

    beijinhos!
    Sofia

    • Ameixinha e Carolina,
      O que eu mais gosto na cozinha é mesmo de fazer estas experiências! E cozinhar com a minha filha é mesmo um grande prazer!
      (E, confesso, uma bela maneira de a manter feliz e entretida! )
      Beijinhos
      Sofia

  4. Olá! Muito obrigada pelo simpático comentário que deixas-te lá no Tangerina 😉
    Sabes que até ao aniversário do teu blog eu não o conhecia? o que é uma pena porque é um blog fantástico!

    Beijinhos,
    Carlota

    P.S Acho que ambas somos Algarvias, não é?

  5. Ah, me deliciei ao ler este post. vc é danadinha mesmo. foi uma leitura que me fez pensar a cada linha: o que ela vai fazer agora, como sera este gosto…Ótimo!!

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