O outono

O outono é de género masculino, mas sempre imaginei esta estação como uma dama delicada de longos vestidos esvoaçantes, nas cores que lhe fazem justiça. Uma dama de longos cabelos ruivos, desalinhados, encaracolados, que não esconde as suas rugas bem vincadas na cara cheia de sardas. E que tem olhos de uma avelã que poderia ser esmeralda. Que pousa a sua mão tão levemente no teu ombro, tão levemente que pensas que foi apenas uma folha que caíu e te roçou o casaco de lã. Mas este ano, o Outono não me brindou com a sua presença suave e delicada. De um rugido por detrás de um céu que queria cair de pesado, de um dia que se transformou em noite no meio de uma tempestade assolante, chegou o Outono. De rompante. Sem pedir licença. Levou as folhas mais fracas, para espanto do Verão que, talvez pela ingenuidade própria da idade, não esperava este rompante de um Outono tão cruel, a invadir assim o ainda seu tempo. Impôs a sua cor em alguns dos ramos das árvores que me cumprimentam da minha janela, mas outros ramos permanecem hirtos, teimosos e verdes, tentando contrariar o processo inevitável de queda, que nos lembra que o estéril Inverno em breve se assoma. E hoje, dia 21 de Setembro, o Outono sorri e, estando já de rompante instalada, encena a sua entrada como se fosse triunfal. Como se com ela nada fosse, limpa o céu de branquinhas nuvens, daquelas que são um carneirinho a saltar por um instante e no seguinte, o capuchinho e o lobo mau, e por outros instantes deixa brilhar o tímido sol, no alto dos seus 16 graus.

E eu, no meio desta tragédia prussiana, de céus ameaçantes e negros, resvalantes e estrondosos, pensei que Outono combina com pão, pão combina com doce, e fiz um pão doce, receita de um livro prussiano sobre pão. O título é algo como pão de leite, doce e entrançado. Reuni os ingredientes na minha bancada: 750 g de farinha de trigo, 1 colher de chá de sal, 125 g de açúcar, um pacote de fermento seco de padeiro (c. 8-10 g), 200 mL de leite, 2 ovos e 125 g de manteiga. Misturei a farinha com o sal. Num copo, pus o fermento de padeiro, 2 colheres de chá de açúcar, juntei um bocadinho de farinha e 125 mL de leite morno. Mexi, tapei com film e com um pano e resguardei em lugar aconchegado e quentinho durante 15 minutos. Depois, juntei esta mistura ao resto da farinha e ao resto do leite morno. Mexi, juntei o resto do açúcar e os 2 ovos. Continuei a mexer, a bater, a sovar e a espancar esta pobre massa, vítima dos meus recalcados desejos de ter aqui e agora um céu de azul forte, a contrastar com um sol poderoso e intenso. Durante 15 minutos, trovejei eu nesta massa, rugi como aqueles céus naquele dia me rugiram e me tranformaram o dia em noite, assim, sem sequer me dar um sinal. A sentir-me já mais leve, formei uma bola com a massa, polvilhei com farinha, tapei com film e com um pano e deixei-me descansar e à massa. Fui à janela, para descobrir um pôr do sol intenso e fervoroso, de deixar as nuvens escarlates. Já reconciliada com os céus, voltei à massa uma hora depois, para lhes explicar que aquela sova não foi nada pessoal. A massa, inchada até ao dobro do seu tamanho, formava bolhas, quando lhe expliquei que tinha que, mais uma vez, a bater, mas desta vez muito rapidamente, nem iria dar por nada. Comecei a retirar bolinhas do tamanho de uma noz, fiz rolinhos e entrancei-os dois a dois, juntando-lhes as extremidades. Ficaram do tamanho de bolas de ping pong. A meio da massa total, cansei-me. Peguei no rolo da massa, e estendi o resto da massa em duas partes iguais. A uma delas, juntei cacau, mel e avelãs picadas, voltei a misturá-la e a estendê-la. Pu-la por cima da sua irmã branca e enrolei-as, como se fosse um torta, inspirada no efeito destas bolachas do Flagrante Delícia. Poderia ter posto logo no forno mas esperei pela manhã, pois o pão é um prato que se come morno. No dia seguinte, com a massa ainda mais inchada, liguei o forno por 25 minutos a 160 graus. E o nosso pequeno almoço foi quentinho, doce, saboroso e aconchegante, como uma manta quentinha e um gole de chá numa manhã escura de um Verão roubado ao tempo.

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6 thoughts on “O outono

  1. Leste-me os pensamentos e os apetites.. : ) Também me apetece pão doce e já tenho uma receita de lado para fazer mais logo. Será do tempo?!.. ; )
    beijocas

    • Margarida,
      para os longos pequenos almocos de fim de semana, estes paezinhos quentes e doces sabem mesmo bem, para contrariar o frio que se faz sentir la fora!
      beijinhos!
      sofia

  2. Tão bom ler este textinho com sabor a Outono 🙂 Sinto vontade do Outono que leva as folhas, traz as cores pastel e nos toca com a brisa a querer estar fria… Vontade de mudança! Vontade dos tons «dourados, damascos e púrpuras» … tal qual Florbela Espanca.
    Acho que estivemos em sintonia, pois também eu andei com as mãos na massa de pãozinhos de leite, não doces, mas doces ao coração outonal! 🙂
    Beijinhos

    • Ola Graellsia,
      E verdade, quando vi o teu blog, reparei que estivemos sintonizadas na onda dos paes doces! deve ser o efeito do outono! 😉
      beijinhos
      Sofia

  3. Olá Sofia! Já estava com saudades de voltar a visitar as minhas amigas!Muito obrigada também pelas tuas visitinhas! Adorei esta tua postagem sobre o Outono! Tão poética e tão real! Felizmente, até agora, aqui em Portugal ele entrou mais docemente. Também com chuva, mas miudinha e por pouco tempo, só para acalmar a poeira. E também gostei muito dos teus pãezinhos que vou ver se experimento neste fim de semana. Voltarei mais vezes. Bjs. Bombom

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