Sai uma fatia de bolo de ameixa para a Moira!…

Há uns meses, num comentário aqui na Prússia, a Moira deixou um pedido no ar: se por acaso saberia de uma receita germânica de bolo de ameixa. Esta receita ficou em stand-by até vir a época das ameixas. Perguntei ao meu marido como é que era o bolo de ameixas da avó dele. E ele disse que era um bolo flat. Este bolo é muito bom, mas eu queria algo mais. Queria numa dentada descobrir diferentes texturas, diferentes sabores e diferentes consistências. Queria um bolo com relevo e estrutura. E quis o destino que, há uns dias, fosse almoçar com uma colega minha com quem nunca calhou almoçar. E voltou o destino a pregar das suas ao descobrirmos que em comum temos o facto de cozinharmos para mandar o stress a outra freguesia. Para espanto da nossa outra colega, que não compreendeu as faculdades terapêuticas que se escondem no sovar da massa do pão ou em pegar uma faca bem afiada e cortar um belo presunto. Depois de partilharmos uns truques e dicas sobre culinária, ou melhor, depois de ela me dizer alguns dos seus truques, saíu-me espontaneamente a pergunta do bolo de ameixa. “Claro!”, replicou, “fazes uma massa base, vai ao forno, dispões as ameixas, vai ao forno, fazes um creme com limão, vai ao forno, fazes um crumble, vai ao forno”. Isto intercalado com as medidas em grama, ditas com proficiência. Obviamente não consegui armazenar na minha memória de curta duração todas as quantidades. Seleccionei a sequência do processo, os ingredientes e a receita do creme, usei uma receita de massa base da minha sogra e para o crumble, usei uma receita da Nigella.

Liguei o forno a 180 graus. Untei uma forma pequena e comecei a fazer a massa base: juntei 100 gr. de farinha a 50 gr. de manteiga, juntei um ovo, 35 gr. de açúcar e um pozinho de fermento. A máquina bateu a massa até ela se despregar das paredes da tigela. forrei a forma totalmente com esta massa. Levei ao forno por 5 minutos (até a camada superior ficar levemente cozida). Entretanto, descasquei, cortei a meio e descarocei meio quilo de ameixas Prunus domestica subsp. domestica, Dispu-las por cima da massa e levei novamente ao forno até as ameixas mirrarem e libertarem o seu sumo para a massa (cerca de 12 min.). Entretanto, bati uma embalagem de crème fraîsche com 80 gr. de açúcar. Juntei 2 ovos e bati até homogeneizar. Juntei raspa de um limão e sumo de uma sua metade.  Quando a mistura ficou homogénea, dispu-la por cima das ameixas mirradinhas. O bolo em preparação voltou ao forno enquanto fiz um crumble que ficou com a consistência de areia: 100 gr. de farinha, 50 gr. de manteiga, 50 gr. de açúcar mascavado, 10 gr. de açúcar baunilhado e uma colher de café de fermento. A receita pedia bicarbonato de sódio, em 1/4 da quantidade do fermento, mas não tinha. Misturei tudo e atingiu uma consistência de areia. Da porta do forno vislumbrei um tom levemente dourado no creme: era hora de por o crumble. Ao tirar o bolo do forno, reparei que tremia como gelatina e pensei que esta era mais um dos meus desastres culinários de fim de semana, prometendo a mim mesma não me voltar a fiar na memória quando se trata de apreender uma receita nova. Mas como tudo o que começa, tem que acabar, dispus o crumble e pensei que haveria de ser a única em casa a comer deste bolo cujo destino tracei negro. Quando o crumble ficou dourado, retirei do forno, deixei arrefecer e desenformei. “Uau!” disse o meu marido, logo seguido da minha filha, que acrescentou: “bôlhô! bôlhô!”. Repartimos e, ao partir o bolo, pensei: “que desgraça, está a desfazer-se!… mais um bolo que iria para o gato se o houvesse!”. A massa base ficou demasiado dura e a massa de recheio demasiado mole. Enquanto comemos, eu e o meu marido falávamos sobre o que poderia ter falhado, de que ingrediente me poderia ter esquecido, que passo na receita saltei ou adulterei… O bolo foi para o frigorífico e aí ficou esquecido. Até ao outro dia, quando reparei que o frio lhe conferiu rigidez. Cortei uma fatia e ahh… agora sim! A massa de base absorveu o líquido e a massa de recheio ganhou forma! E o frio enriqueceu o sabor do bolo! Ficou mesmo bom, e como foi um bolo que se tornou bom pelas baixas temperaturas, com ele participo no novo desafio do Delícias e Talentos, Delícias Geladas (e adiei assim a inevitável confecção do meu primeiro gelado! 😉 )

Notas ao leitor: 1) deixe o bolo no frigorífico, idealmente de um dia para o outro; 2) a forma de 18 cm ficou cheia até ao último milimetro. Use uma maior e forre as paredes das formas apenas a meia altura.


9 thoughts on “Sai uma fatia de bolo de ameixa para a Moira!…

  1. Bom!!!!!! Que previlégio 🙂 Uma receita nova de bolo de ameixa com fotos e tudo eheheh.
    Eu ainda não pensei no que vou fazer. Ando tão preguiçosa para a cozinha que nem te conto.

    • pois eu, so tenho vontade de fazer bolos! os meus ultimos posts sao 90% de coisas doces e ainda tenho uma lista de bolos/sobremesas que tenho MESMO que fazer! ai ai!… pode ser que passe! 😉
      bjs
      Sofia

  2. Sofia, ler o teu belo texto é meio caminho andado para a degustação (mesmo que virtual) de uns pedacinhos bem frescos desse lindo “bôlhô flat”!
    Ainda bem que adiaste a estreia dos gelados, porque esta receita tipo crumble-bolo-gelado, vai-nos saber pela vida nestes dias de calor! 🙂
    Uma excelente ideia para aproveitar esta deliciosa fruta da época…
    A doce Moirita é uma sortuda (e agora nós também…)! hehehe 🙂

    • Olá,
      Este bolo foi mesmo uma surpresa! 😉 E estas ameixas estão no seu auge, por agora e por aqui. As que escapam à gula inicial e são comidas ao natural, têm um bom destino neste bolo frio.
      bjs
      Sofia

  3. Não é que o teu bolo não seja perfeito, mas finalmente encontrei o que andava à procura, curiosamente num blog búlgaro que acompanho à bastante tempo pelo meu google reader, que me faz umas traduções manhosas, mas que dá para entender minimamente as receitas.
    Ele aparece tal e qual como eu me lembro de o ver em todas as padarias e pastelarias de Konstanz e arredores 🙂
    Beijocas

    • Ah, entao este e o tao famoso bolo de ameixas! Pelo aspecto, parece-se com o da minha sogra! 😉
      Ainda bem que encontraste a receita que procuravas. Enquanto ha por aqui ameixas, hei-de experimentar esta receita! Obrigada pelo link ! 🙂
      bjs

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