Bolo de clementinas

No fim de semana passado, enquanto o meu marido tratava das bicicletas e a minha filha dormia a sesta, decidi espontaneamente fazer um bolo. Eu já devia ter aprendido que fazer um bolo “espontaneamente”, no meu dicionário, significa “desastre”. Mas quando me lembrei deste pequeno pormenor já era tarde demais. Comecei por cozinhar na panela de pressão umas clementinas já a murchar e cujo destino seria o lixo, mas que eu decidi salvar. A intenção inicial era fazer algum tipo de compota, mas lembrei-me de um bolo de clementinas das Three Fat Ladies que registei na memória pela originalidade de usar clementinas cozinhadas e com casca. O primeiro “sinal” de que deveria era ter ido dormir a sesta com a minha filha, foi o cheiro a caramelo que o meu nariz detectou. Pois, afinal não era caramelo, mas sim clementinas queimadas… Fique então já a saber, caro leitor, que para cozer clementinas na panela de pressão deverá colocar bastante água. Bom, consegui salvar as clementinas que ficaram em cima, que eram só 3, não somando as quatros recomendadas na receita original. Até aqui tudo bem, pois quando abri o frigorifico reparei que só tinha quatro ovos e não os seis originais. Aceitei isto como um sinal de que deveria continuar a confecção do meu bolo naquela tarde de domingo. Cortei as clementinas ao meio, retirei sementes e pedúnculos, triturei com a varinha mágica e juntei os ovos, agora mexendo com a colher de pau. Juntei cerca de 200 gr de amêndoa moída que veio directamente da minha avó e duas colheres de farinha com fermento. Agora tudo parecia estar a correr bem, mas chegou o terceiro sinal de que o resultado seria um desastre. Pois bem, ao abrir o frasco do açucar… aconteceu o que mais temia: estava vazio! Tentei emendar o soneto com açucar em pó e açucar baunilhado, juntando já a olho umas colheres de um e de outro e pensando: “é prá desgraça, é prá desgraça!”. Pus a massa numa forma de barro onde costumo fazer as tigeladas, tapei com folha de alumínio e pus no forno, deixando o resto do trabalho aos deuses, já que a confecção inicial do bolo parece ter sido entregue ao diabo. E do forno saiu um bolo douradinho e bonito. Prevendo já um sabor menos doce, polvilhei todo o bolo com bastante açucar em pó e levei à mesa. A minha filha deu uma trinca e fez uma careta. O meu marido, idem. Eu questionei-me sobre a expressão das suas faces e trinquei também. Pois é, aquele bonito bolo fumegante que perfumava toda a casa com um delicado aroma a laranja e que emanava aquele místico aroma de bolo acabado de fazer que nos remete para a infância e visitas à casa da Avó, estava amargo, amargo. Voltei a polvilhar o bolo com uma exagerada camada de açucar em pó, na esperança de que o bolo o absorvesse. Na verdade, no dia seguinte o bolo estava mais doce e ainda consegui comer uma fatia, quando cheguei a casa esfomeada do trabalho. Agora jaz no meu armário um bolo de clementinas. É nestas situações que dava jeito ter um gato. Mas eu não sou de desistir à primeira e da próxima vez vai sair bem, é tudo uma questão de mentalização. E de psicologia na cozinha. Bom, talvez seja essencialmente uma questão de verificação da despensa.

Já agora, aceitam-se as sugestões da tripulação sobre o que fazer a um bolo velho, seco e amargo.

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10 thoughts on “Bolo de clementinas

  1. Sofia,
    Acredita que quando uma receita dá para a desgraça, nem o gato salvaria a honra do convento, que é como quem diz, assim que provasse o bolo daria um miado arrepiado e fugia da cozinha a sete pés pensando que o quererias envenenar hehehehe
    Curiosamente, ontem tive uma abordagem idêntica com umas tangerinas lindas que jazem eternizadas em fotos da minha página do flickr e no tacho que permanece em cima do fogão.
    Lembrei-me do bolo da Pipoka, mas avancei para uma compota de tangerina, a receita mandava cozinhar as tangerinas entre 7 e 10 minutos, mas perdi-me no tempo depois de acrescentar o açúcar deveria cozer 25 minutos que foram devidamente cronometrados, nessa altura a compota devia estar no ponto, mas ao contrário disso tinha uma calda amarelinha com as tangerinas a boiar e nada de compota.
    Provei mesmo assim e no sabor fez-me lembrar um pouco a compota de laranja inglesa, mas para aquilo chegar a compota creio que vai ter que ferver mais de uma hora ou duas.
    Hoje à noite continuarei as cenas dos próximos capítulos, vamos ver o que sai.
    Enfim… desgraças de uma cozinheira, que já não sendo aprendiz de vez em quando fica com a noção que nada sabe 😉

  2. Moira, essa do gato e mesmo boa! LOL! 😀
    Engracado, as nossas abordagens foram inversas, eu pensei na compota e decidi fazer o bolo! Bom, eu hei-de fazer o bolo, cuja receita tenho atravessada e hei-de tentar ate dar bem.
    Boa sorte para a tua compota, que concerteza ficara com a consistencia certa depois das 2 horas de fervura! E assim, na cozinha e na vida: quanto mais se sabe, mais se descobre que menos se sabe! estamos sempre a aprender! 😉
    beijinhos
    sofia

  3. Sofia,
    a primeira regra a seguir antes de começar a fazer um bolo é ver se há açúcar! É que bolo sem açúcar não é bolo!
    E que tal seguir a receita de bolo de laranja da avó, tal e qual? Acho que com tangerina também deve dar e a Lena gosta. Beijinhos para as duas

    • A receita do bolo de laranja da avo ja a fiz no outro dia e saiu mesmo bem (fiz tal e qual a receita)! cresceu bem, ficou fofinho e saboroso, mesmo como o da avo. claro q a lena gostou, ela gosta de tudo qto e doce! 😉

  4. Pingback: Ramequim, ramequim « No reino da Prússia

  5. “Os desastres de Sofia” são nome de livro, mas só porque a Condessa de Ségur não é nossa contemporânea, caso contrário seriam “os desastres da pipoka”, que são mais que muitos e davam pano para mangas. Mas o que mais me surpreende é que, na maioria das vezes que a receita dá para o torto, eu lá no fundo sabia que não ia correr bem, e ainda assim insisti. A lição é que vamos aprendendo com os erros e com isso tornamo-nos mais seguras.

    beijocas

  6. Pipoka, se a Condessa fosse nossa contemporanea, escreveria na mesma “Os desastres de Sofia”! Este bolo de clementinas (pelas minhas maos) foi so mais uma verificacao da Lei de Murphy! Tal como tu, as vezes tambem ha algo que me diz que a coisa vai dar torto, e se ponho o avental sem uma certa seguranca no acto, ja sei que o que tem que correr mal, vai mesmo correr mal! 😉 mas a receita do bolo de clementinas continua na lista, e ha-de dar certo um dia! 😉

  7. Ola Sofia..
    Adoro o seu blog………Gostaria de saber de voce o que sao Clementinas…………..Moro no norte do Brasil no interior do Amazonas e nunca ouvi falar em clememntinas……..por favor me responda……..agradecida Linia

    • ola Linia
      Obrigada pela visita. Clementinas sao um citrino mais pequeno, mais doce e de casca mais fina que a laranja. Podes fazer uma busca no google imagens por clementinas e logo ficaras com uma ideia melhor!
      boa semana
      Sofia

  8. Pingback: A nova lei de Lavoisier « No reino da Prússia

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