no man’s land

Ha 20 anos atras, caiu o muro de Berlim. Hoje, na bicicleta ou no metro, cruzo com leveza as fronteiras desse muro fisico de pedra e arame farpado, com guardas prontos a disparar contra quem o quisesse transpor. A caminho do trabalho, para ir jantar fora com os amigos, para ir ao mercado ou as compras.

Passo tambem por predios devolutos, onde na sua pele, nas suas pedras se sentem as marcas dos tiros ainda da segunda guerra mundial. Sao casas que foram deixadas intactas por quem ja ha muito nao conseguia respirar por baixo do manto do poder Sovietico. Depois da queda, Berlim Leste continuou a ser um conjunto de bairros pobres e degradados, cinzentos e depressivos, mas vazio. Qual cidade fantasma. Ruas vazias e escuras que lentamente comecaram a ser preenchidas por comunidades alternativas de artistas que tinham agora uma oportunidade de exacerbar a sua arte e a sua paixao livremente, sem preconceitos sociais nem financeiros. As casas e predios foram tomados, as lojas transformadas em ateliers, hoje de pintura, amanha de teatro. As garagens passaram a ser clubes ilegais de danca, musica, ou o que o momento trouxesse. Passou a haver uma nova dinamica nas ruas do antigo sector sovietico. Os tais predios passaram a ser ocupados nao so por artistas, mas tambem por estudantes, na senda de uma cena cultural mais activa, vanguarda, alternativa, e tudo a precos muito abaixo da media. As ruas, outrora escuras, passaram a ser iluminadas com luz e som; os predios manteem as suas cicatrizes mas mostram um sorriso, na forma de grafities e pinturas murais. A cor cinzenta e agora um arco-iris multi-culti, onde se encontra uma grande mistura de povos, nacionalidades, linguas e culturas. Onde o espirito e aberto e podes ser quem es. Os bairros passaram a efervescer de vida. Os ateliers passaram a dar lugar a lojas de alimentos biologicos, os clubes ilegais sao cada vez mais raros, mas mais frequentes sao lojas de designers internacionais ou lojas de cadeias multinacionais ou de designers de Berlim. Os predios devolutos sao raros, as suas cicatrizes foram tapadas com estuque e acabamentos de luxo, pintados de cores alegres, as ruas sao bonitas e coloridas, cheias de vida. Os artistas alternativos foram dando lugar a familias  jovens e mais convencionais, a uma camada da sociedade seleccionada de pessoas com formacao superior e dinheiro. Passou a ser um bairro hip, chique e onde todos querem morar. A antitese de ha 30 anos. Do outro lado do muro, o muro ainda existe. Invisivel e intransponivel. No outro lado, ha trinta anos atras, na fronteira da zona Oeste havia habitacoes sociais, contrucoes dos anos 60/70, que hoje teem as cores debotadas que tinham ha trinta anos, onde vivem imigrantes que vieram essencialmente da Turquia depois da II GG para reconstruir a Alemanha. Vivem desempregados, reformados, alcoolicos. Vivem imigrantes ilegais, da antiga Uniao Sovietica. Dois mundos. Dois mundos que nao se tocam, nao cruzam. Ao cruzar da estrada.

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