O poema possível

Para mim, os poemas não pertencem em livros. Aí, estão estrangulados, presos entre páginas e pó. Os poemas, são para ser cantados e gritados. E, hoje, só há um poema possível*:

Grândola, vila morena
Terra da fraternidade
O povo é quem mais ordena
Dentro de ti, ó cidade
Dentro de ti, ó cidade
O povo é quem mais ordena
Terra da fraternidade
Grândola, vila morena
Em cada esquina um amigo
Em cada rosto igualdade
Grândola, vila morena
Terra da fraternidade
Terra da fraternidade
Grândola, vila morena
Em cada rosto igualdade
O povo é quem mais ordena
À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade
Jurei ter por companheira
Grândola a tua vontade
Grândola a tua vontade
Jurei ter por companheira
À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade
 Para jantar, fiz coelho na panela – e: qualquer relação entre este coelho e qualquer outro roedor é pura coincidência!
Do bicho já esquartejado no talho, trouxe três pernas. Afoguei-as em muito vinho tinto, louro e alho e deixei marinar três horas. Aqueci azeite numa panela resistente ao forno e selei-as. A minha filha perguntou: “Ó mãe, vais matar o coelho na panela?” Eu disse-lhe que não, que quando comprei o coelho, ele já vinha morto. E decidi não alongar mais a conversa. Com as pernocas bem tostadas, juntei vegetais de todas as cores. O laranja da cenoura, o vermelho da beterraba e o amarelo da batata. Juntei duas cebolas em quartos.
Quando os vegetais ficaram tão bem misturados com o coelho que já não era possível distinguir a cor de cada vegetal, a única coisa a fazer foi juntar a marinada de vinho. Levei ao forno cerca de 40 minutos.
Depois, no prato, completei com a cor esperança da salada e cantei o poema à minha mesa sentado.
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8 thoughts on “O poema possível

  1. Temos mesmo que soltar todos “o Grandola vila morena” que temos estrangulado na garganta! Mas folgo em saber que os ecos dos nossos gritos chegam a terras da prússia.
    Sobre o coelhinho, acho que deve ter ficado uma delícia, só é pena que não seja do Alentejo :)

  2. Ha ha ha , muita bom :)
    O coelho com três pernas é do melhor que pode haver!
    Isto de se cantar Grândola já deu o que tinha a dar, parece-me que é apenas música para as orelhas de coelho ;)

  3. A história está o máximo! Espero que a pata de coelho que não usou lhe /nos traga a sorte de que estamos a precisar – mas todos sabemos que a sorte é uma coisa que dá imenso trabalho…
    Aguardo novos posts cheio de humor e verve como este!

  4. Nunca pensei que as palavras deste poema me falariam tão alto à alma/coração…. não há dúvidas, aquele JARDIM À BEIRA MAR PLANTADO (Portugal) está no meu coração!
    bjnhos

  5. Minha querida Sofia,

    É um poema para agora e sempre, revisitado a cada tropeção da história de um país. Se nos formos lembrando dos seus significados e do que deles representam, a coisa há-de fazer-se. Espero eu. ;) Já quanto ao coelho e às três patas, tenho mais dúvidas!

    Uma beijoca de saudades e o desejo de um Páscoa feliz para vós*

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