A luz trespassava por entre as brechas das persianas, deixando vislumbrar partículas de pó que pairavam no ar daquela sala de jantar fechada há décadas. Um zumbido estridente, de uma mosca oportunista, cortou o silêncio da tarde de verão. O chão de pedra e o o mobiliário austero iriam assistir, agora, a um jantar que acomodava mentes brilhantes, transversais ao espaço e ao tempo.

Ouviu-se um pequeno rangido. Seria homem, seria rato? O vento não era, certamente. Seguiu-se o silêncio. Uma sombra e o esvoaçar de um cortinado cortaram o espaço mais uma vez. Seria o primeiro convidado?

Lá fora, os cães começaram a ladrar nervosamente e, aos seus latidos, juntaram-se miados estridentes. De quatro gatos. Fedorentos.  O silêncio deu agora lugar à galhofa!  As gargalhadas quase que abafaram o toque da campainha. Um dos gatos abriu a porta e os braços ao próximo convidado! “Marcel! Também estás cá! Então, que espécie de não-arte é que vais fazer hoje??” Entre gargalhadas, boas conversas e petiscos, Marcel Duchamp desconstruía e construía a sala de jantar, à procura de um novo conceito. Até que o filho de Flor chegou e lhe mostrou, sem palavras, que agora o conceito era “comer a sopa”. Pessoa e suas pessoas observam, enternecidos, as crianças a brincar. Enquanto isso, Gaudi tenta captar a atenção dos presentes, falando da Sagrada Família. Apenas Parvus lhe dá atenção. Por entre duas baforados do seu Montecristo, interrompe-o: “António, importa-se de trocar de cadeira comigo?”

A noite avança e a mesa vai-se enchendo de petiscos e convidados. Agora é tempo para uma pausa na risota e conversa, para um momento musical com o Maestro Armand Diangienda e a orquestra que ele dirige em Kinshasa.

Foi então que uma onda de luz e calor inundou a sala. Era Madre Teresa de Calcutá. Um coração brilhante, no meio de mentes brilhantes.

Guida dirigiu-se à porta. Foi ela a única a ouvir uma leve pancada. “Sabia que a sua campainha está avariada?” Era Leonardo da Vinci. Entra na sala de jantar e sorri, agradado, com tamanha confusão que se vive neste jantar. “Ah! Madame Curie! Que alegria ver-te aqui! Tenho que dar-te os parabéns pelo teu grande contributo à ciência!”, “Oh, Leonardo, que charmante!”, respondeu Marie Curie com um sorriso. Embrenharam-se os dois numa conversa sobre ciência, enquanto saboreavam um bolo de nozes e courgette. Enquanto Leonardo e Madame Curie discutiam a ciência de ontem e a ciência de hoje, Guttenberg e Jobs, discutiam tecnologias de ontem e de hoje.

Eu observava, contente, todos os meus convidados enquanto bebericava um copo de tinto e petiscava um lombo recheado. Alheei-me por uns instantes e refugiei-me no vazio. Ao olhar para a parede, pisquei os olhos, voltei a olhar, confusa. “Mas… eu tinha a certeza que o quadro na parede era a última ceia!…”. “E tinhas razão. Mas eu troquei-o pelo meu beijo.” Ouvi alguém dizer-me, como se tivesse adivinhado os meus pensamentos. Pus o copo de tinto de lado e decidi ir apanhar ar lá fora. No terraço, deitei-me no telhado, fechei os olhos por instantes. Para deixar as estrelas entrar, tal como fazia na adolescência. Ao olhar a imensidão do céu, voltei a compreender que não somos mais que um grão de areia no universo. Um grão significante no Cosmos. E pensei em Erastotenes e sua experiência simples e genial. “PENG! PENG! PENG!”, ouvi, e alguém disse que estava na hora do churrasco. Depois, uma gargalhada: “AHAHAH, o homem do churrasco foi o verdadeiro homem que mordeu o cão!

A aurora rompia quando chegou o último convidado. Trouxe uma fatia de bolo de mirtilos com formigas e disse que, a caminho do jantar, foi parar a um piquenique bastante animado. Ao ver a fogueira crepitante, dissertou sobre o amor.

A um canto da sala, sentava-se Freud, de sobrolho franzido e braços cruzados, pensado … sabe-se lá em quê, enquanto Marx dormitava sossegadamente.

Assim encerra mais uma sessão do Convidei para Jantar, que entra agora de férias e volta em Setembro. 

18 pensamentos em “

  1. Sofia,
    Que delícia de texto, conseguiste uma harmonia perfeita entre os personagens, mas imagino que com tanta gente junta a tagarelice tenha sido ainda maior que a do nosso piquenique :)
    Beijo

    • Obrigada Moira.
      Olha que o Camões veio de lá com a pala de lado, como disse a Susana num comentário teu! ;)
      A verdade é que já tinha escrito um texto c o resumo das participações, mas achei-o tão aborrecido q decidi nao publicar e fazer um novo com todos à mesma mesa.
      Beijinhos
      Sofia

  2. Sofia, este texto foi escrito, sem sombra de dúvida, por uma mente brilhante. Convidados de tão elevado nível exigiam um anfitrião (neste caso anfitriã) à altura. Parabéns pela excelente narrativa.
    Um abraço.
    Patrícia

    • Patrícia, obrigada pelo comentário tão simpático. Mas a qualidade do texto deve-se somente à qualidade das participações! :)
      Beijinhos
      Sofia

  3. Sofia,
    Foi um desafio brilhante, comeando pela escolha do tema até à sua apresentação final: um banquete brilhante onde reuniste todos os convidados. Parabéns e parabéns para a Ana que lançou a iniciativa e todas 8e todos) blogueiras que têm vindo a enriquecer esta iniciativa com as suas participações!
    Beijinhos

  4. Sofia,
    parabéns pelo texto brilhante, em harmonia com todos os convidados.
    Uma belíssima escolha de tema e tão bem cuidado.
    Adorei ler este post!
    Beijinho.

  5. Olá Sofia,
    Simplesmente brilhante… e que trabalheira que te deu, colocar todos os links.
    Foi uma edição estupenda, muito participada e riquíssima! Adorei tudo desde as recietas, aos convidados , textos fabuloso… ultrapassa em muito a culinária.
    Bjs

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